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Rute tem esquizofrenia e agora ajuda outros como ela

Com 31 anos, Rute Bastos dá conferências em faculdades sobre equizofrenia e apoia outros doentes: "É possível ter uma vida normal"

Rute Bastos descobriu aos 24 anos que sofria de esquizofrenia afectiva e, sete anos após, não só controlou a doença como se tem desdobrado entre palestras em faculdades e o auxílio a outros doentes da associação que a recuperou.

Em declarações à agência Lusa, Rute Bastos contou a sua evolução de uma doença cujos sintomas começou por atribuir "ao consumo de álcool e de haxixe", "fugas" então encontradas para os problemas afectivos decorrentes do "divórcio dos pais e do terminar de um namoro de cinco anos". "Tive crises aos 18, 22 e 24 anos, mas pensei sempre que isso era por outras coisas, pois, sendo forte, até 'bullying' sofri", relatou Rute, uma utente da Associação Nova Aurora na Reintegração e Reabilitação Psicossocial (ANARP).

Em 2013, foi visitar a mãe a Andorra e acabou, na sequência de um surto, "internada e algum tempo em coma". O episódio fez com que, no regresso, precipitasse a sua entrada na ANARP onde iniciou, sob a supervisão da terapeuta de referência Raquel Almeida, um tratamento de três anos. "Ela teve uma evolução extraordinária fruto do seu esforço e determinação no processo de recuperação, conseguindo melhorar as suas competências sociais, elevando a sua auto-estima", explicou à Lusa a terapeuta, que elogia a capacidade agora evidenciada por Rute Bastos para "reagir ao primeiro sinal de alerta, assim evitando novas crises".

Ainda no mesmo ano, a utente fez uma formação em "Prestação de suporte" no projecto Vozes de Esperança e, desde então, "não mais deixou de contribuir com o seu exemplo para ajudar os outros, sendo hoje autónoma e com um projecto de vida", contou a terapeuta. O seu caso mereceu também a atenção dos académicos e por "várias vezes" fez palestras em faculdades das universidades do Porto e do Minho. "Sinto que tenho capacidade para ajudar", argumentou a hoje aluna do curso de Técnica de Apoio à Família e Comunidade no Instituto de Emprego e Formação Profissional que sonha ingressar na Escola Superior de Saúde da Universidade do Porto para um curso de terapeuta ocupacional.

Até ao início do corrente ano lectivo, Rute Bastos foi voluntária na ANARP "dirigindo sessões para nove ou dez pessoas, a quem falava da doença, sobre os alertas e os comportamentos a ter", disse. "Sei por experiência própria que é muito difícil procurar ajuda e que é muito mais fácil quando ela nos surge pela frente", afirmou para explicar a nova forma de voluntariado que no presente exerce, "ligando aos utentes da associação para saber como estão e detectar eventuais sinais de alerta". Segundo Raquel Almeida, a disponibilidade manifestada pela Rute Bastos "é muito importante, permitindo um relacionamento com os utentes fora do contexto da ANARP, adicionando informação e tendo um papel diferenciador". "Por um lado, é bom, pois dá conselhos aos seus interlocutores; e pelo outro também é importante pois, ao relatar-nos essas conversas, faz os devidos alertas, ajudando-nos a intervir junto desses utentes", acrescentou a terapeuta.

Reformada por invalidez parcial, Rute Bastos sonha com uma vida profissional "se possível na ANARP" e lembra ser "prática nos Estados Unidos a função de prestadores de suporte nos hospitais". "Isso lá é uma profissão", frisou. "Sei que posso voltar a ter uma crise, porque estamos sempre vulneráveis, mas, sabendo reagir aos alertas, essa possibilidade reduz-se. É isso que digo sempre às pessoas, para estarem alerta, pois é possível ter uma vida normal", sublinhou.