A independência partilhada a três, numa casa em Matosinhos

Projecto de habitação social partilhado de Matosinhos abriu a segunda casa, que foi ocupada por três jovens que anteriormente viviam numa instituição.

As inquilinas da nova casa partilhada viveram juntas num lar de Matosinhos
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As inquilinas da nova casa partilhada viveram juntas num lar de Matosinhos Fernando Veludo/NFactos

A independência delas está dentro de portas. Em Novembro,  três jovens de Matosinhos, sairam do lar onde moraram durante a maior parte das suas vida e passaram a viver numa casa de habitação social Matosinhos. Foram seleccionadas pela Matosinhos Habit, responsável pelo projecto de habitação partilhada levado a cabo pelo município, que se inspirou em programas semelhantes iniciados anos antes por Braga e Guimarães. Há cerca de um ano foi inaugurada a primeira, no Bairro dos Pescadores, onde ainda vivem três homens, que anteriormente não se conheciam e actualmente continuam a partilhar a mesma morada.

Beatriz com 17 anos, Marlene com 19 e Sónia de 20, fazem uma visita guiada para mostrar ao PÚBLICO a nova casa. Os nomes não são os que constam no Cartão de Cidadão, mas foram elas que os escolheram. À excepção dos amigos mais próximos, são poucos os que conhecem o passado ligado ao Lar da Nossa Senhora da Conceição. Preferem que continue assim. Agora vivem num T3 remodelado e com todas as condições que qualquer jovem da mesma idade sonharia ter. O mobiliário já lá estava e não foi necessário fazer qualquer ajuste. Está como gostam.

A casa estava cheia. No mesmo dia da visita também lá estavam duas técnicas da Matosinhos Habit e a educadora do lar que alberga outras 28 raparigas, que continua a acompanhar o processo de adaptação à nova residência. Há o esboço de um sorriso nas três e uma timidez que lhes trava a fluidez da conversa. São muitas emoções que ainda estão a processar e há a noção de que se iniciou uma nova etapa. Desde que tiveram conhecimento deste programa, foram mantendo a esperança de que poderiam, dentro de muitos possíveis candidatos, serem as seleccionadas. Foram investindo no sonho, que se materializou em Novembro do ano que acabou.

Associado ao entusiasmo está também o medo de encarar esta nova realidade. É um grande passo de responsabilidade que acreditam estar prontas a assumir. No entanto, há a consciência de que este é o início de outros desafios que terão que superar. “Estou muito contente por ter tido esta oportunidade, mas ao mesmo tempo também me assusta”, diz Beatriz, a mais nova das três.

Beatriz ainda não atingiu a maioridade, mas já tem muito bem definido o que quer seguir a nível profissional. Já está a fazer por isso. Está no secundário, num curso profissional na área da saúde. Já está a escolher a melhor universidade que a poderá ajudar a ser fisioterapeuta. Se entretanto resolver seguir outra especialidade sabe que será certamente na área da saúde. “Quero ajudar os outros”, diz.  

Desde os dois anos que Beatriz vive em instituições. Nos últimos 11 viveu no Lar da Nossa Senhora da Conceição, em Matosinhos, onde diz ter-se sempre sentido em casa. No dia da inauguração da nova residência não conseguiu controlar as lágrimas de felicidade, que voltamos a ver cair nesta visita. 

Ao contrário dos inquilinos da primeira casa, que não se conheciam, as três moradoras da segunda habitação partilhada têm uma história comum no lar que frequentaram. Marlene, é a irmã mais velha de Beatriz e esteve também 11 anos na Nossa Senhora da Conceição. Ainda estuda. Aos fins-de-semana trabalha e quando terminar o secundário quer continuar a fazê-lo. Não pretende seguir a via académica, pelo menos para já. Vê esta nova oportunidade como um trampolim para mais tarde poder seguir o seu próprio caminho.

Sónia, a mais velha das três, já trabalha. O tempo livre que tem aproveita-o para praticar desporto. Joga andebol e já praticou futebol. Esteve durante nove anos na mesma instituição que as colegas de casa. Ainda lá tem uma irmã.

O dia-a-dia das três é maioritariamente ocupado pelas responsabilidades associadas aos estudos e ao trabalho, no caso de Sónia. No final do dia, quando chegam a casa aproveitam para conversar e para ver televisão. Quando tem mais tempo, Marlene gosta de passear e de ir ao cinema. “Gosto de filmes românticos”, explica. A irmã mais nova prefere ler: “Não gosto de shoppings. Passo mais tempo a ler”. Tem um autor de eleição: Nicholas Sparks.

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As três raparigas ainda mantêm contacto com as respectivas famílias Fernando Veludo/NFactos

Gerir as tarefas domésticas é um novo desafio. Dividem os afazeres entre elas. A cozinha está entregue às irmãs, que ainda se estão a adaptar a esta função. Contam com a ajuda da instituição onde moravam anteriormente e que lhes fornece bens alimentares. Por agora ainda não têm que se preocupar com compras.

Muitas das amizades que conservam são antigas colegas do lar. Regularmente passam por lá para os visitar. Em casa existem algumas restrições no que toca a visitas. Sempre que querem receber alguém têm que pedir autorização à Matosinhos Habit. Outra das regras que consta no regulamento é a do pagamento de uma renda simbólica de cerca de cinco euros.

As três raparigas nunca perderam o contacto com a família. Estão frequentemente com os pais, que não puderam assumir a educação das filhas por dificuldades financeiras. Não gostam de falar muito sobre isso. Dizem só que mantêm uma relação pacífica com a família.  

Estão conscientes de que tiveram uma oportunidade que não está ao alcance de todos. Ainda que por vezes o medo de se sentirem desamparadas as assole, não querem deixar fugir o que lhes foi dado. Para que continuem a sentir-se protegidas, continuam a ser seguidas por uma educadora da instituição, que as visita frequentemente. No futuro gostavam que outras colegas tivessem a mesma oportunidade.

A directora técnica do Lar Nossa Senhora da Conceição, Regina Chaves, diz que seriam necessárias, pelo menos, mais três casas como esta para raparigas da instituição. O lar com capacidade para 60 raparigas alberga actualmente 28. Há mais pedidos para acolhimento de mais jovens, mas o número insuficiente de funcionários não permite alargar o serviço prestado.

A abertura desta porta para raparigas da instituição foi “o início de algo muito bom”, que Regina Chaves gostava de ver replicado para outros grupos sinalizados. O processo de escolha deste primeiro grupo foi da responsabilidade do lar, que tentou conciliar as personalidades que potencialmente poderiam encaixar melhor umas com as outras. a directora reconhece que o trio teve acesso a uma oportunidade que poucos têm, no lar, e admite que nem todos os casos são de sucesso: “Muitas das raparigas que daqui saem acabam por voltar mais tarde”, diz.

Regina Chaves explica que as jovens nem sempre conseguem adaptar-se na passagem para a independência. Muitas vezes porque não conseguem garantir estabilidade financeira e, noutros casos, as que voltam para as famílias biológicas nem sempre são bem recebidas. De qualquer forma, sublinha que o apoio e o acompanhamento que está a ser dado às três raparigas que tiveram acesso à habitação social partilhada é o mesmo que dão às outras.  

Mais três casas a caminho

A administradora executiva da Matosinhos Habit, Olga Maia, adianta que estão a ser preparadas mais três casas para receber outros grupos, beneficiando mais nove pessoas. No entanto, para já não estão sinalizados grupos com origem na mesma instituição. As três novas casas que serão ocupadas durante o ano de 2017 serão, diz, o passo lógico de uma política de habitação social que não prevê a construção de mais fogos no concelho.

Face ao sucesso que considera ter sido a primeira casa partilhada entregue em 2015, o caminho a seguir será o mesmo: “Chegamos à conclusão que não faz sentido construir mais bairros sociais”. A lógica, explica, é aproveitar a rotatividade dos fogos que já existem e pertencem à câmara, ocupando-os com outros moradores, sempre que uma casa fique desocupada. E a lógica da partilha é também uma forma de combater a exclusão social e o isolamento, argumenta.  

No entanto, nem tudo correu da melhor forma, no arranque do projecto. Em Julho de 2015, quando Joaquim Almeida, António Teixeira e Augusto Fernandes se mudaram para a nova casa, no Bairro dos Pescadores, a recepção, por parte de alguns vizinhos, não foi a melhor. Foram recebidos com pompa, mas ouviram convites para darem meia volta e regressarem para o sítio de onde tinham vindo.

“Foi uma recepção com direito a gritos, mas não eram de entusiasmo”, recorda Augusto Fernandes, que abriu a porta de casa ao PÚBLICO para contar como tem sido este primeiro ano no novo lar. “No início ouvíamos umas bocas por sermos três homens que iam morar juntos”, acrescenta. Quando se mudaram para o bairro, diz, alguns moradores, olharam para a chegada dos novos residentes com alguma desconfiança e pareciam não estar muito disponíveis para os receber.

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O primeiro grupo mudou-se para uma casa partilhada em Julho de 2015 Adriano Miranda

“Hoje, alguns dos que se opunham são os primeiros a cumprimentar-me”, explica. E outro dos elementos do trio, Joaquim Almeida, “até já faz uns biscates em casas do bairro para consertar algumas avarias”, nota Augusto Fernandes. Foi um processo que não começou muito bem, mas, na verdade, demorou muito pouco tempo para que sentissem integrados.

A administradora executiva da Matosinhos Habit, Olga Maia, admite que houve uma falha, pois os moradores mais antigos não tinham conhecimento do projecto Casa Partilhada: “Muito facilmente se teria evitado a confusão se tivessem sido avisados com antecedência”, assume. O mesmo “erro” não aconteceu na entrega das chaves da segunda Casa Partilhada. Os residentes da urbanização para onde o novo grupo se mudou foram avisados do o que iria acontecer.

Ao fim de um ano e meio na nova casa, Augusto Fernandes, natural da Guiné, que jogou futebol no Benfica, “no tempo de Shéu”, adianta que tem agora o espaço que precisava para poder viver os seus 60 anos com “a paz que deveria ter”. Ao fim deste tempo, refere que os técnicos da Matosinhos Habit ainda continuam a fazer visitas regulares e a dar suporte para resolver algumas questões que possam surgir. Todo o grupo que inaugurou a primeira casa de habitação social partilhada de Matosinhos continua a residir no mesmo espaço. 

Programa inspirado nos exemplos de Braga e Guimarães

O programa de habitação social partilhada, iniciado em 2015 em Matosinhos, não é pioneiro. Em Braga e em Guimarães já tinham arrancado programas semelhantes há quase uma década. De resto foram estes dois exemplos que serviram de inspiração para o projecto Casa Partilhada, levado a cabo em Matosinhos.

De acordo com o CASFIG – Coordenação de Âmbito Social e Financeiro das Habitações Sociais de Guimarães, que arrancou com o programa em 2008, Braga começou um pouco antes. Actualmente, em Guimarães, há 11 residências partilhadas: sete para homens e quatro para mulheres.

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