António Costa na sombra é “uma miss Universo”

O primeiro-ministro foi ao programa Governo Sombra. O PÚBLICO acompanhou-o na despedida de 2016 e descobriu que não tem talento para humorista, mas o quarteto do programa acha que António Costa decora deixas para se candidatar ao cargo de salvador do mundo.

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No início era o Benfica. Desculpas. Foi o pretexto usado logo assim que António Costa (AC) chegou à TVI para o Governo Sombra de fim de ano. “Obrigada por ter aceitado o convite, não foi por ser primeiro-ministro, foi por ser benfiquista”. Com os cinco vermelhos à mesa, a desculpa, verdadeira, era que os ministros-sombra queriam conversar (e picar) “o primeiro-ministro do outro Governo”. Aquele que com decretos, portarias, propostas e decisões manda no país, para uns bem, para outros mal. Aquele a quem propõem chamar “António” – para facilitar e lembrar o outro que queria ser “só Álvaro” –, ou apenas "Toni” por “proximidade ideológica” – proposta de Ricardo Araújo Pereira (RAP), rejeitada com um: “Pode ser babush, como me chamam lá em casa”. Ficou “senhor primeiro-ministro”, que a conversa até pode ser a rir, mas tem (muita) política dentro.

O que leva um primeiro-ministro a participar num programa de “humor político”? Neste caso, pedir três desejos para 2017 (era para ser emitido na noite de passagem de ano). Para início de reportagem (não de programa) despachem-se os desejos de António Costa acompanhados de “passas coelho” antes da meia-noite: “Que o FMI e o CFP [Conselho de Finanças Públicas] deixem de errar nas previsões”; “que a UE perceba como travar o populismo” e, por fim, “continuar a ser optimista”.

Desejos fáceis ou talvez não, porque há quem duvide da eficácia do “optimismo crónico às vezes ligeiramente irritante” de António Costa, já dizia o Presidente da República. “Olhe, não acerte no João Miguel Tavares”. O cronista, que está no lado oposto ao Governo de Costa, estava ali mesmo à beira de uma “canelada” e da rolha da garrafa do espumante. Era o mais próximo na mesa e o mais longe na ideologia. “Um optimista não é um imprudente”, responde António Costa. “Esta é a minha maior dúvida acerca de si”, contrapõe João Miguel Tavares (JMT). Costa não lhe acertou com a rolha.

Dívida não é ideia de crianças, mas é para ir pagando

A dívida é grande e o desejo de RAP é que o FMI acredite que pagá-la “é uma ideia de crianças”, tal como dizia outro primeiro-ministro socialista, José Sócrates. Para que se realize o que o humorista quer, Costa acredita na necessidade de duas respostas. Primeiro, que não haja mais constrangimentos a outras alternativas, no fundo que o FMI tenha "a ideia de que a melhor maneira de cobrar é a de não matar o devedor”; a outra é que as dívidas são para ir pagando e até pode ser durante muito tempo. “Fiz parte de um governo, de António Guterres, que acabou de pagar um empréstimo do século XIX, que vinha de Fontes Pereira de Melo. Os Estados tendem a durar mais que as dívidas”, remata.

Se as dívidas persistem no tempo, também não foram os 60 minutos que durou a gravação do programa que tirou as dúvidas a JMT. O comentador até levou Costa a admitir que o crescimento “é poucochinho”, mas a não ceder na questão da dívida: “Para o ano, quando me convidarem, vai engolir essa. A dívida vai ser menor”, assegurou o chefe do Governo.

A miss Universo escondida

Se a dívida vai ser o elefante gigante no meio de 2017, que pode causar severas divisões, a verdade é que 2016 termina com a “geringonça” inteira, apesar dos solavancos. “Desejo que o Governo corra tão bem que se veja livre dos parceiros”, diz Pedro Mexia. Costa não concorda. “O sucesso deste Governo depende dos parceiros (…) Faz parte. É uma solução que não é uma coligação normal. Veja lá, cada partido assume as diferenças e até disfarça as concordâncias. É original”, brinca o primeiro-ministro.

A originalidade da solução foi defendida por um único partido que não conseguiu eleger nenhum deputado, o LIVRE, e que ganhou o voto de RAP. “Foi um partido que nasceu para esta solução e viu esta solução nascer sem o partido”, lamentou Costa que até considera injusto que o partido da papoila não tenha elegido nenhum parlamentar.

“Quero que a miss Universo saia de dentro de si. São respostas galvanizadoras”, brinca RAP. A miss Universo com palavras inspiradoras para salvar o mundo voltaria a aparecer, na óptica do humorista, mas já lá vamos. Antes disso, o diabo.

Esse, que também não apareceu em 2016. Ligou o retardador e talvez chegue para o ano, a reboque de alguns cenários externos. “O diabo foi a sua maior prenda. Fez maravilhas por si”, porque não chegou, ironiza João Miguel. O que aconteceu em 2016 e não chegará em 2017 foi ser um “ano irrepetível com a vitória no Euro e [a eleição] de António Guterres na ONU”, disse Costa, que acrescentou que não vai ter mesmo saudades é “de planos B”. “Cansei-me. Deixei-os todos em 2016”. O lado político que ali estava era o das acusações de Passos Coelho e do PSD de que o Governo tinha “planos B” para cumprir o défice de 2016. Foi prato do debate político quando se falou da possibilidade de sanções e na resposta que era preciso dar a Bruxelas.

Falaram em Passos Coelho? RAP quer conhecer os “emails de russos” que provam “quem gosta menos de Passos Coelho”. As hipóteses de resposta são dois opositores do líder do PSD em dois campos: António Costa, por ser primeiro-ministro; e Rui Rio, por ser putativo candidato à liderança do PSD.

JMT – Quem prefere, Passos Coelho ou Rui Rio? É amigo de Rui Rio?

AC – Um amigo é sempre melhor, mesmo como adversário. Não tenho nenhuma antipatia por Passos Coelho.

JMT – Tem por alguém?

AC – Tenho, tenho, mas não é o seu caso (…) A posição de Passos Coelho é muito desagradável. Exerce a posição política que é liderar a oposição logo depois de deixar de ser primeiro-ministro. Obviamente não lhe facilita a vida nem a que ele construa uma nova personagem

RAP – Já não aguento esta compaixão pelos adversários. Voltou a miss Universo!

AC – Não tenho ambição a tanto. Miss Universo é um bocado…

A “miss Universo” não voltou a entrar em cena. Mas entrou o optimista e o político que sabe que mesmo num programa humorístico, há popularidade a conservar e cultivar. E por isso, o seu último desejo é o de manter o optimismo. “Como verificámos, os pessimistas estavam mal informados e os optimistas têm razões para estar confiantes”, disse, insistindo que as previsões tanto do FMI como do CFP falharam. Vai jogando os ingredientes para dizer que dentro de portas está controlado, mas lá fora, assomam-se crises de outra índole para resolver.

No que ao populismo diz respeito, o programa de humor fica de risos suspensos e ouvidos postos no convidado. “As várias formas de populismo têm uma raiz que é o medo – pelo emprego, pela insegurança, relativo ao terrorismo e aos outros que chegam. Isso implica resposta. Fingir que está tudo bem, que não é um problema de políticas de emprego e de crescimento, é uma tragédia completa que vai dar cabo da Europa. O denominador comum é o emprego”. A resposta, essa, tem de passar por outros “mecanismos de distribuição de riqueza, os antigos já não são suficientes” uma vez que há um “aumento das desigualdades”. De uma coisa Costa tem a certeza, “o proteccionismo não é a resposta”.

Por enquanto, o vírus do populismo, acredita, não toca a Portugal que é “uma história de sucesso”. “Tem recebido muitas chamadas lá de fora a perguntarem ‘Ó António, como é que isso se faz?’”, brinca RAP que até sugere uma tour pela Europa. Costa ri-se: “Isto não se fazia sem a Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia. Talvez [fosse de fazer] uma tournée conjunta”.

Depois da “tournée geringonça 2016”, Costa quer a “tournée geringonça 2017”. Se os desejos de Costa se vão cumprir, não se sabe. Com o que aí vem é preciso “baixar a fasquia dos desejos”, como diz RAP. 

Costa sobre Sócrates

“Não é admissível que uma pessoa, num Estado de Direito, possa viver num estado de suspeição para a vida”

“Desejo que José Sócrates possa finalmente lutar em tribunal por aquilo que acredita ser a sua verdade”, diz João Miguel Tavares num tom sarcástico, usando a frase que António Costa disse ao sair da prisão de Évora quando foi visitar o ex-primeiro-ministro. JMT tem insistido no tema nas crónicas no PÚBLICO e admite que o assunto não traz surpresa a ninguém. António Costa até “concorda” com o jornalista. “O que é essencial é que, quando há uma suspeita e essa suspeita seja pública, ela seja esclarecida pelos meios próprios. Desejo que tenha a oportunidade de ver apurada aquilo que acredita ser a sua verdade. Não é admissível que uma pessoa, num Estado de Direito, possa viver num estado de suspeição para a vida”, disse o primeiro-ministro.

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