Opinião

Este mundo não é para novos

O mais provável, de facto, é que a qualidade de vida dos nossos filhos venha a ser bastante inferior à nossa.

Em época de balanços gostava de partilhar convosco um dos artigos que mais me marcaram em 2016. Foi escrito por David Leonhardt, jornalista e colunista do New York Times, e coloca pela primeira vez números fiáveis em cima daquilo que é uma intuição partilhada por todos: a crescente possibilidade de os nossos filhos virem a ganhar menos do que nós e de as próximas gerações terem uma qualidade de vida inferior à nossa.

O artigo chama-se The American Dream, quantified at last, e essa quantificação é devastadora: na década de 40, a probabilidade de um recém-nascido americano vir a ganhar mais do que os seus pais era de 92%; a probabilidade de uma criança americana nascida na década de 80 vir a ganhar mais do que os seus pais caiu para os 50%. O jornalista do New York Times fala especificamente do desaparecimento do Sonho Americano, porque os números que tem disponíveis dizem respeito aos Estados Unidos, mas não é difícil extrapolá-los para o resto do mundo ocidental. Não sabemos se em Portugal as percentagens são aquelas, mas sabemos que a tendência é a mesma. E, tendo em conta a dimensão da nossa dívida, os nossos problemas de produtividade, o envelhecimento da população e a falta de dinâmica social, é até possível que a situação portuguesa seja mais grave.

Leonhardt retirou estes números de um estudo que recorre a “milhões de declarações de impostos que abarcam várias décadas” (após o sucesso planetário de O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, big data é a nova palavra bonita dos estudos económicos), reunidos pela equipa de Raj Chetty, professor de Economia na Universidade de Stanford. O projecto ganhou um nome e um site próprios — The Equality of Opportunity Project — e não há como desvalorizar o impacto desta terrível constatação no mundo em que vivemos. Se a tendência se mantiver — os últimos dados disponíveis reportam-se a 1985, ou seja, a pessoas que estão agora na casa dos 30 anos —, isso significa que as crianças do século XXI já nem sequer estão na linha dos 50/50, mas muito abaixo disso. O mais provável, de facto, é que a qualidade de vida dos nossos filhos venha a ser bastante inferior à nossa.

Aquele que foi o nosso quadro mental, o quadro mental dos nossos pais e o quadro mental dos nossos avós — de que, com algum esforço e algum estudo, as gerações seguintes conseguiriam com naturalidade ter uma vida melhor do que as gerações anteriores — está a afundar-se, vai implodir, possivelmente já morreu.

Claro que parte do problema está relacionada com a diminuição do crescimento económico, que dificilmente regressará aos níveis das décadas de 50 e 60. Mas a outra parte do problema está relacionada com o aumento das desigualdades e com a má distribuição da riqueza. Em 1980, Portugal cresceu 4,8%. Em 2015 cresceu apenas 1,6%. Mas o PIB per capita em 2015 é quase o dobro do PIB per capita em 1980. Este aumento deveria bastar para os nossos filhos poderem vir a ganhar mais do que nós. Se o bolo aumentou para o dobro, mas há cada vez mais gente a comer menos bolo do que antes, é porque as fatias estão a ficar cada vez mais mal distribuídas. Mal distribuídas por falta de taxação das grandes fortunas, sem dúvida. Mas também mal distribuídas por causa do peso crescente dos direitos adquiridos. Esta é uma situação profundamente injusta. Nunca nos preocupámos tanto com o bem-estar dos nossos filhos — e, no entanto, nunca como hoje fomos tão maus pais. Um feliz 2017 para todos.

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