Opinião

Porque constitui a Líbia um risco de segurança para a Europa?

A Líbia apresenta condições de extrema instabilidade desde a queda do governo de Kadhafi, o que nos deve preocupar na Europa tendo em consideração a sua proximidade geográfica.

A Líbia encontra-se desde 2011 numa situação de grande instabilidade política e é o teatro de confrontos entre várias milícias. Esta situação ocorre apesar de ter um governo de acordo nacional reconhecido pela ONU, formado nos finais de 2015 e sediado em Trípoli, liderado pelo primeiro-ministro Fayez el-Sarraj, e que tenta por vários meios estabilizar a situação no país. Um dos grupos jihadistas que tem operado no país é o Daesh que, embora tenha sofrido recentemente uma derrota pesada na região de Sirte, permanece no terreno com algum significado. A Líbia é a zona onde a implementação territorial do Daesh foi maior fora do Iraque e da Síria.

A maioria dos combatentes jihadistas encontram-se no leste da Líbia, na zona de Benghazi, e muito particularmente, na província do Cirenaica, muitos deles com fortes ligações à população e conhecendo bem o terreno. Foi também precisamente nesta província que, durante os anos 90, se verificou uma ameaça à autoridade do regime de Khadafi por rebeldes que aí se encontravam concentrados e que acabaram por ser bombardeados.

Após a queda do regime de Khadafi, o grupo Ansar el-Sharia, que tem ligações à Al-Qaeda, constituiu-se em 2011, através da união de vários jihadistas dispersos na região e foi rapidamente reforçado pela recuperação de outros combatentes pertencentes ao grupo Ansar el-Sharia na Tunísia. Existem outros grupos combatentes, alguns não muçulmanos, o que indica que a situação na zona de Benghazi é mais complexa e, porventura, mais difícil de controlar do que a zona de Sirte onde se concentra o Daesh. A zona este do país é também a região onde se encontram as forças ligadas ao general Khalifa Haftar, um poderoso “senhor da guerra” local que se opõe ao regime de Trípoli.

O general Haftar esteve ligado à tomada do poder por Khadafi em 1969 mas também às forças que se lhe opuseram em 2011. Presentemente, parece essencialmente concentrado em obter o poder na Líbia, tendo recebido apoio de alguns países ocidentais, particularmente da França. Em finais de novembro, deslocou-se a Moscovo para se encontrar com os ministros da defesa e dos negócios estrangeiros russos, Sergei Shoigu e Sergei Lavrov, respetivamente, para lhes solicitar apoio militar da Rússia. Tem também recebido apoio do general Sisi do Egito para o seu autoproclamado “Exército de Libertação Nacional”.

A situação está longe de clarificada e estável na Líbia, o que ajuda a explicar algumas das falhas de segurança recentemente verificadas, muito particularmente no que concerne o recente desvio de um avião para Malta. A aviação comercial líbia carece de autorização para voar no espaço europeu e não existem voos diretos da Líbia para a Europa. Para além disso, o avião desviado fazia um voo interno e os procedimentos de segurança destes voos podem diferir dos internacionais. Ainda assim, existem indícios que permitem pensar que não é difícil transportar ilegalmente material perigoso a bordo destes voos, eventualmente com a cumplicidade de conhecimentos locais, bem como desviar um avião. Nestas condições, tendo em consideração a distância entre a Europa e a Líbia, será importante acompanhar a evolução futura desse país com o objetivo de evitar surpresas a nível de segurança internacional.