Opinião

A “geringonça 2.0” não vem aí

Provada a sua capacidade de sobrevivência política num quadro completamente novo, a verdade é que o Governo não sabe bem o que fazer.

Virar os olhos aos problemas, varrer o lixo para debaixo do tapete, tergiversar ou adiar foram práticas do final do mandato de Pedro Passos Coelho que arrasaram a sua imagem de determinação e o seu tantas vezes proclamado compromisso com a verdade. António Costa não precisou de tanto tempo para seguir esse caminho. Como para ele (e bem) um político que quer que “se lixem as eleições” há-de ser talvez hipócrita, começa a habituar-se a torcer a verdade com transparência e frontalidade. Ora veja-se o que aconteceu com o episódio dos lesados do BES: na última quinta-feira, António Costa declarou aos deputados que a probabilidade de os contribuintes terem de pagar a conta era “diminuta”. Não foi preciso esperar mais do que um dia para que ficássemos a saber que essa declaração foi um monumento à propaganda. Na sexta-feira, Ricardo Ferreira Reis, coordenador do trabalho da Universidade Católica que enquadrou a solução, dizia ao PÚBLICO que “a impressão que o estudo deixa é que vai ser difícil esta solução escapar totalmente ao défice e mais vale que o valor seja logo assumido, transparente, prudente e respeitando a convenção da substância sobre a forma”. 

Nós já suspeitávamos que a conta nos seria apresentada — por mau hábito ou por tradição. Já sabíamos também que António Costa é um mestre em embrulhar más notícias ou más decisões em discursos que parecem poemas de amor. Mas, desta vez, vale a pena pegar neste episódio, relacioná-lo com outros das últimas semanas e começar a suspeitar que a gestão corrente e a criatividade das mensagens do Governo vieram para ficar. Os que viram na impaciência e irritação do PCP e do Bloco de Esquerda em relação às negociações do salário mínimo um prenúncio de tensão neste Governo paz e amor, desenganem-se. A patranha dos lesados do BES ou o inenarrável discurso de Natal do primeiro-ministro (um monumento à banalidade) prenunciam que no horizonte não há vislumbre de qualquer espécie de “geringonça 2.0”. O surpreendente sucesso do “perdão fiscal” vai permitir um suplemento de ar fresco no momento em que se souber que o défice público deste ano vai ficar aí por volta dos 2,2 ou 2,3%, iniciativas como a da descentralização ou a repetição da ancestral lengalenga da educação vão levar boa parte do país a supor que, depois de virar a página à austeridade e de devolver rendimentos aos portugueses, o Governo está de facto a governar.

A verdade, porém, é que provada a sua capacidade de sobrevivência política num quadro completamente novo, o Governo não sabe bem o que fazer. Limita-se a viver de rendimentos. Que não são poucos. António Costa tem o extraordinário mérito de ter aberto um novo capítulo na vida política nacional. Aconteça o que acontecer a seguir, a experiência colectiva que vivemos dinamitou muitas das certezas que tínhamos sobre o sistema partidário, abriu um novo leque de oportunidades para o funcionamento do regime e deixou sob suspeita verdades que a dureza dos anos da troika davam como absolutas na área da economia. Entre todas as reacções na Europa aos efeitos da crise e da terapia que se lhe seguiu, Portugal deu a resposta mais original e seguramente a mais sensata. Não tivemos populismos como o do Podemos ou o de Beppe Grillo, não se vislumbram sinais da extrema-direita, o nacionalismo é culto exclusivo de meia dúzia de arruaceiros e não tivemos hiatos na governação de meses como em Espanha.

Para aqui chegar, foi preciso reler as possibilidades do sistema político e partidário, fazer tábua rasa do passado, enterrar estigmas e desconfianças, identificar um inimigo externo para reunir o povo da esquerda (a direita da dupla Passos/Portas), construir pontes e abrir uma nova alternativa política. Não foi coisa pouca. Foi, pelo contrário, uma revolução. Que, como seria de esperar, deu uma enorme força ao Governo e aos partidos que o apoiam e acabou por mudar tudo ou quase tudo na política. Depois de 40 anos em lados opostos da barricada, o PS e o PCP conseguiram em 2016 descongelar a história e encontrar pontos de contacto; a liberdade que o Bloco e o PCP têm para deixar passar algumas medidas da governação, ao mesmo tempo que se podem dar ao luxo de chumbar outras, reforçou o parlamentarismo. E essa é uma boa notícia. O simples facto de, na actual sessão legislativa, ter havido incerteza quando ao sentido de voto das bancadas, negociação e procura de consensos é um bálsamo para o Parlamento. Aconteça o que acontecer, quebrou-se um ciclo, os deputados (até os do PS) experimentaram pelo menos a ideia de que não estão condenados a ser câmaras de eco de São Bento e só isso é muito bom.

O problema é que o encontro de uma solução gerou nos seus promotores um tal ataque de auto-estima que se esqueceram de que há um país em crise a precisar de respostas. Resistir e sobreviver em equilíbrio precário tornou-se o princípio de todas as coisas. A complacência, a tese de que devolver rendimentos ou “virar a página à austeridade” é um fim em si mesmo seja qual for a realidade, ou a recusa em aceitar um sentido de urgência na definição de políticas para o futuro, criaram um modelo de governação que se sustenta na inércia, em medidas anódinas ou no branqueamento da responsabilidade política. Para governar ao centro em questões sensíveis como a política de salários e rendimentos, António Costa tem de entrar num território hostil ao Bloco e ao PCP. Para cumprir promessas como a dos lesados do BES, tem de ter de enfrentar críticas e descontentamento dos contribuintes. O Governo, limitado no Parlamento e seduzido pelo maravilhoso mecanismo que o sustenta, não faz uma coisa, nem outra. Dedica-se a dizer lugares comuns sobre a educação. 

As sondagens dizem que em 2016 houve no ar o perfume da distensão e que o PS é quem mais ganha com isso. A euforia do consumo, a sensação de que o país regressou à normalidade, o delírio de promessas que forçam mais aumentos salariais, mais férias e mais direitos são a prova de que os portugueses gostam mesmo de acreditar no Pai Natal. António Costa não os defraudará. Pelo menos para já. Mal passe o espírito da quadra, ver-se-á se ele e os seus pares vão sobreviver na “feira de gado” e, perante um orçamento tão ou mais difícil do que o de 2016 e num mundo cada vez mais enlouquecido, como irão ser capazes de nos dizer que ou o país recupera um pouco da tensão e energia dos anos recentes, ou estará condenado a ouvir discursos como o da noite de Natal enquanto se dedica a surfar na maionese. Não é por nada, mas tanto amor e carinho, dissimulação e cócegas no umbigo começam a fazer uma narrativa um tudo ou nada aborrecida.