O final da saga barcelonesa

Cada livro da tetralogia de Carlos Ruiz Zafón vende milhões de exemplares. Com a publicação de O Labirinto dos Espíritos resolve-se o mistério que se arrasta há 15 anos pelos três romances anteriores.

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Enric Vives-Rubio

Diz-se que é o escritor espanhol mais lido no mundo, depois de Cervantes. Carlos Ruiz Zafón (n. 1964) – que escreve desde 1992 e que publicou quatro livros antes de se ter transformado num gigantesco sucesso de vendas – vive entre Los Angeles e Barcelona, a cidade que escolheu para cenário da sua tetralogia – iniciada há 15 anos com A Sombra do Vento – O Cemitério dos Livros Esquecidos. Esteve recentemente em Lisboa para o lançamento do quarto volume, O Labirinto dos Espíritos, e confessou ao Ípsilon que quando começou a escrever aquele que viria a ser o primeiro volume da tetralogia, pensava esta história como um romance enorme, mas depressa percebeu que assim, dessa maneira, não funcionaria. “O melhor seria dividir a história em vários livros. A narrativa a contar, uma longa e entrelaçada saga, teria que ter quatro portas de entrada, cada porta acabaria por ser um romance, cada um dos quatro livros com a sua própria personalidade, que é parte de um conjunto.”

O Labirinto dos Espíritos é o romance onde se chega à verdade procurada nos três livros anteriores – é um romance negro, de mistério e de intriga, com uma estética que se poderia quase chamar "gótica", e que acaba a misturar muitas coisas, em vários registos por vezes um pouco confusos, e pontuados com trocadilhos de gosto duvidoso, como a frase “eu renunciei a toda a esperança em pecado concebida”. Mas nem todos os livros da tetralogia obedecem à mesma estética e forma narrativa, e Zafón admite-o confessando que quis fazer uma reflexão sobre “os géneros tradicionais”. Assim, e ao longo do que escreveu, encontramos traços de "romance de formação", "romance de aventuras", sátira política, "romance histórico", livro noir, com mistério e intriga, por vezes numa estranha amálgama sem grandes resultados estéticos.

Nos livros de Carlos Ruiz Zafón, sempre pontuados com um ou outro acontecimento que remete para a transcendência terrena, podemos por vezes ser levados a tentar encontrar alguma mensagem subliminar. Mas o autor confessa que não quer convencer ninguém de nada. Diz que não é “um padre nem um político” para o querer fazer. “O mais importante para mim é convidar os leitores a que tenham um espírito crítico, que não aceitem facilmente as mensagens, os dogmas”, diz. “Há sempre alguém que nos quer convencer de alguma coisa, mas o importante é perceber porque o quer fazer.” Zafón rejeita a ideia de querer passar essa mensagem, ou mesmo a da total ausência de algum "recado" para o leitor, e acrescenta que o que pretende é passar a ideia de “amor e de respeito pelos livros, pela palavra, pelas obras de criação”. Sobre o que o leva a escrever os livros, para além de responder ao gosto da leitura e ao entretenimento do leitor, diz: “O que me interessa nos livros que escrevo é explorar as razões que levam a que nos transformemos nas pessoas que somos, quais as circunstâncias que estão fora do nosso controlo e que nos afectam, e como é que isso acontece. No fundo procuro saber como jogamos as cartas que a vida nos entrega.” Por entre histórias secretas com longos enigmas labirínticos, conjuras obscuras entrelaçadas com a política, dramas familiares que extravasam os seus elementos, lugares abandonados numa Barcelona tétrica que ainda existe, almas atraídas por abismos demoníacos, perigosos mistérios em corredores quase sem fim, o Bem e o Mal com diversas faces (umas mais negras do que outras), Zafón diz que a sua escrita tenta “propor uma reflexão sobre as nossas próprias escolhas morais”.

A personagem Daniel está no centro da tetralogia e vai crescendo ao longo dos quatro romances. A história central, o acontecimento que se arrasta ao longo dos livros, é a do desaparecimento da mãe de um menino, Daniel, a quem dizem que ela morreu de uma doença quando ele tinha quatro anos. Mas com as investigações vamo-nos apercebendo que ela afinal não morreu de doença. Uma conjura com dimensões quase apocalípticas paira sobre o que realmente aconteceu àquela mulher. Os anos passam, os mistérios adensam-se, o labirinto parece nunca mais ter fim, pois de cada vez que parece aproximar-se a chave do enigma há uma nova porta que se abre para outro corredor escuro, e este haverá de ter outras portas que se abrem para abismos. O leitor vai descobrindo alguns dos mistérios através dos olhos das personagens. São elas que aos pouco nos vão guiando pela mão, fazendo-nos sentir o frio ou deixando-nos completamente perdidos. Em O Labirinto dos Espíritos o leitor é finalmente levado ao "coração das trevas" pela mão de Alicia Gris, uma figura obscura vinda da Guerra de Espanha, e que revela a história secreta da família, os segredos que Daniel procura há décadas.

Os centros das várias narrativas vão-se deslocando ao longo da tetralogia, como se esta tivesse sido a maneira como Zafón procurou ir justificando o prolongar da história e a maneira de duplicar ou triplicar os olhares. É o próprio quem o diz: “O primeiro livro tem o escritor como centro, o segundo tem o leitor, o seguinte tem a própria personagem Daniel, e este quarto volume, claro, teria de ter como centro o olhar do narrador.”

Carlos Ruiz Zafón não assume influências, como se não as sentisse de maneira consciente, fala antes de autores ou de livros de que gosta. E entre estes estão os esperados do cânone, os contadores de histórias, desde Dickens aos "clássicos" norte-americanos. “Quando um escritor fala de influências, fala sobretudo dos autores e dos livros de que gosta, e não propriamente daquilo que o influenciou”, diz Zafón. “Até uma certa idade, digamos até por volta dos 35 anos, absorvemos tudo o que lemos, e essas são as nossas influências, quer sejam depois notadas no que se escreve ou não o sejam. O que nos influencia mais cedo na vida é o que conta."