Crítica Música

Namoro assumido com o rock

A guitarra do jovem madeirense André Santos combina uma matriz de jazz com a energia do rock, numa música soalheira.

A música de André Santos reflecte a modernidade deste tempo, mas também não esquece o passado
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A música de André Santos reflecte a modernidade deste tempo, mas também não esquece o passado

Arranca como uma tempestade, guitarra e bateria em tensão. Entra de seguida o contrabaixo, com o arco a desenhar uma melodia arredondada, enquanto a guitarra, em fundo, repete o mesmo motivo, obstinada; com a saída do contrabaixo a guitarra revela indecisão, um dedilhado perdido, quase à Derek Bailey e o trio, já na parte final da música, alimenta uma inesperada energia rock. O tema chama-se Rainstorm e é o tema de abertura de Vitamina D, o segundo registo do guitarrista André Santos. Logo aqui se revela a diversidade de ambientes e ideias que vão definir este álbum.

Com o inaugural Ponto de Partida, o jovem madeirense revelar-se-ia um guitarrista tecnicamente sólido e compositor arrojado, com ideias originais. Após estadia em Amesterdão, que resultou na conclusão de um mestrado, o guitarrista chega agora a Vitamina D, trabalhado em trio com parceiros internacionais — o baterista holandês Tristan Renfrow e o contrabaixista americano Matt Adomeit.

Se no primeiro disco havia um flirt com o rock, desta vez esse namoro é mais assumido. Mais maduro do que a estreia, este álbum é também mais forte; nele, o rock está mais assumido, a energia é mais intensa. Renfrow tem fama de rebelde e a sua música confirma-o — sempre surpreendente, leva a música por caminhos novos. Adomeit cumpre, sobretudo na marcação do ritmo, mas também quando pega no arco. Santos exibe o seu som eléctrico bem definido, controlado, irrepreensível. O trabalho de composição é original e a forma como desenvolve cada tema por dentro é também de destacar.

É verdade que a música de André Santos reflecte a modernidade deste tempo, mas também não esquece o passado, como acontece no tema Buzzlightyear and me que parece evocar Jim Hall. Sobretudo assente em ritmos acelerados, o álbum tem momentos mais arrastados, como acontece no tema final — Espanta Espíritos — onde o fulgor enérgico é trocado por uma toada sentimental. Mesclando múltiplas referências, o trio de André Santos constrói uma música solar que dança, sem vergonha, entre o jazz e o rock.