O interior precisa de uma drástica mudança de imagem

“O problema começa logo nas nossas cabeças”, diz o geógrafo João Ferrão. Primeiro de uma série de trabalhos sobre desenvolvimento do interior, numa altura em que o tema está em discussão pública.

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Olival em Alfândega da Fé Adriano Miranda/Público
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Apanha de cogumelos nas matas de Alfânfega da Fé Adriano Miranda/Público
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Estudantes da Universidade da Beira Interior na Covilhã Adriano Miranda/Público
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Olival em Alfândega da Fé Adriano Miranda/Público
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Aposta na agricultura é fundamental Adriano Miranda/Público
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Muitos terrenos continuam abandonados Adriano Miranda/Público
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Barragem em Alfândega da Fé Adriano Miranda/Público
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Aldeia da Trindade Adriano Miranda/Público
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Aldeia da Trindade Adriano Miranda/Público
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No Alentejo a população continua a envelhecer Adriano Miranda/Público
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Aldeia de Albernoa Adriano Miranda/Público
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Cemitério da aldeia de Querença Adriano Miranda/Público
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No Algarve existem algumas aldeias abandonadas como Cabaça Adriano Miranda/Público
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Requalificação da aldeia de Querença Adriano Miranda/Público
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A cortiça continua a ser uma importante fonte de rendimento Adriano Miranda/Público
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Estudantes universitários enchem os comboios à sexta-feira na estação da Covilhã Adriano Miranda/Público
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Apanha da azeitona por funcionários da Cooperativa Agricola de Alfandega da Fé Adriano Miranda/Público
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Adriano Miranda/Público

O interior continua a esvaziar-se, como um saco de areia roto. Estudiosos como Eduardo Castro, coordenador do Grupo de Estudos em Território e Inovação da Universidade de Aveiro, já não se perguntam se o crescimento económico possibilita o aumento da população, mas se o aumento da população ainda possibilita o crescimento económico. Será possível atrair gente sem mudar a imagem do interior?

Está em debate público o Programa Nacional para a Coesão Territorial, organizado em torno de 164 medidas que envolvem os vários ministérios. A coordenadora da Unidade de Missão de Valorização do Interior, Helena Freitas, descreve-o como “um choque”. Até Março, prepara uma “Agenda para o Interior”, que será “uma estratégia de longo prazo”. E uma drástica mudança de imagem faz parte do plano. Vem aí uma série de campanhas para desconstruir “a imagem de atraso e subdesenvolvimento”. “O Turismo vai apostar muito no interior”, adianta.

Não é assunto de somenos. “O problema do chamado 'interior' começa logo nas nossas cabeças”, diz João Ferrão, coordenador do grupo de investigação Ambiente, Território e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “Se grande parte do interior deixar de ser pensado – e visto – como interior remove-se logo uma série de obstáculos.”

Que imagem tem o interior? “Árvores a arder, casas ameaçadas, pessoas aos gritos, um ou outro crime”, arrisca Nuno Francisco, director do Jornal do Fundão. E serviços a fechar, mulheres de pele encorrilhada a trabalhar no campo, homens sentados à espera do fim. Não se esgota nisto, até pela crescente valorização da natureza, do património, da cultura, mas “é uma imagem redutora”, de perda, envelhecimento, despovoamento, isolamento. E isso não convida.

O interior, aponta Ferrão, “tem alguma responsabilidade”. E pode ser boa ideia ter isso em conta em ano de eleições autárquicas. Há anos que o geógrafo ouve autarcas a dizer: “Se perdemos essa ideia de interior, perdemos o capital de queixa fundamental para reivindicar soluções.” E isto parece-lhe o reflexo de “uma mentalidade que evita que se construa futuro”.

“É fundamental articular a perspectiva mais reivindicativa com uma perspectiva mais propositiva, observar as oportunidades, as fraquezas e, a partir daí, gerar um conjunto de estratégias que possam fazer diferença”, enfatiza Alcides Monteiro, da Universidade da Beira Interior (UBI).

Esvaziamento contínuo

“Temos uma dificuldade grande em perceber o que está a acontecer”, considera Luís Leite Ramos, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, que investiga na área de Planeamento e Ordenamento do Território e foi eleito deputado pelo círculo de Vila Real na lista do PSD. “Temos uma leitura muito estática. Não percebemos que há um processo de esvaziamento contínuo.” Há concelhos, como Pampilhosa da Serra, que estão a perder gente há uma centena de anos. Entre 1957 e 1974, à volta de um milhão de portugueses saiu do território nacional, quatro quintos dos quais do interior. Na década de 70, o país assistiu a uma grande vaga de regressos – de outros países europeus e das ex-colónias –, mas nem nessa altura o saldo total do interior foi positivo.

O êxodo representou o abandono de uma agricultura que atava a população à pobreza. O movimento de saídas do território persiste. E a natalidade está a cair desde meados da década de 70. Os piores cenários podem ser vistos no Pinhal interior sul, na serra da Estrela, na Beira interior sul, na Beira interior norte. Já não vão lá com incentivos à natalidade. Têm um problema de estrutura etária, tem avisado Eduardo Castro. A percentagem de mulheres em idade fértil é demasiado baixa.

“Durante anos, houve a ideia de que a infra-estruturação e a melhoria da qualidade de vida seriam condições necessárias e suficientes para imprimir uma dinâmica de desenvolvimento”, lembra Luís Leite Ramos. “Embora as condições de vida e a qualidade de vida em muitos municípios do interior sejam muito melhores do que em muitos concelhos das áreas metropolitanas, o facto-chave na fixação de população é o emprego e isso não existe ou existe pouco. A única maneira de romper este ciclo é com emprego produtivo associado às competências locais, que podem ser recursos naturais, mas também podem ser outras competências ou capacidades instaladas, nomeadamente instituições do ensino superior”, acredita.

“Se as pessoas não quiserem, o Estado não vai obrigar a ir viver para o interior”, enfatiza a coordenadora da Unidade de Missão de Valorização do Interior, criada na dependência da presidência do Conselho de Ministros. “O Estado vai criar incentivos que podem ser facilitadores. E a primeira condição é garantir que não há perda de serviços públicos”, diz a também professora da Universidade de Coimbra, eleita deputada pelo Círculo de Coimbra na lista do PS. Em nome da racionalização dos custos e da eficácia, nos últimos anos têm fechado escolas, postos de correios, tribunais, extensões de saúde.

Convergência de factores

Não há um pacote específico de incentivo à atracção e fixação de jovens. Há, defende, várias medidas que podem ter esse efeito, relacionadas, por exemplo, com adequação da oferta de ensino e formação, incentivos à criação de emprego, desenvolvimento de estruturas de base tecnológica, apoio à mobilidade geográfica de desempregados, criação de bolsas de habitação para arrendamento jovem. “Tem de haver convergência de factores para que as coisas resultem.”

“Habituámo-nos a olhar para o interior em função de uma actividade agrícola. Já não temos o predomínio dessa actividade, mas também não temos o de outra. Estamos num momento de transição”, constata aquela responsável. “Despontam projectos com inovação.”

O que é, afinal, o interior? O interior é Cabaça, um conjunto de casas em ruínas encavalitadas num esporão com vista de estarrecer sobre a serra algarvia, uma aldeia morta entre sobreiros, medronheiros, estevas, urzes e rosmaninho. Mas também a multiplicação de olival intensivo no Alvito – milhões de oliveiras plantadas em compassos apertados, exploradas em regadio. E a produção de enchidos em Vinhais, da chouriça à alheira, do salpicão ao butelo. E a BLC3 – Plataforma para o Desenvolvimento da Região Interior Centro, com sede em Oliveira do Hospital, que venceu o prémio europeu de crescimento sustentável com um projecto de produção de biocombustíveis.

João Ferrão ainda se lembra de ouvir Valente de Oliveira, ministro do Planeamento e da Administração do Território entre 1985 e 1995, discursar sobre a necessidade de “desencravar o interior”. “Desencravar era criar condições de acessibilidade.” Agora, que o país é atravessado por três mil quilómetros de auto-estradas e o digital impera, todas as distâncias se encurtaram.

O geógrafo resume o cenário nestes termos: “Quando se olha para aquilo a que se chama 'interior', tem de se discutir duas coisas: regressão e dinamismo. Há dinamismo interessante e dinamismo que levanta as maiores dúvidas. Uma estratégia para o futuro devia lidar com o abandono: ‘Bom, vamos ter de ser selectivos. Vamos apostar em quê? Como vamos gerir as áreas abandonadas?’ Mas também deveria pôr o dedo na outra dimensão: ‘Como é que evitamos ocupações altamente predadoras, quer do ponto de vista social quer do ponto de vista ecológico?’ O drama – não vai acontecer – seria que o dito interior, no futuro, só tivesse abandono e ocupação predadora.”