Governo dá luz verde ao abate de 600 sobreiros em Trás-os-Montes

Iberdrola já começou a cortar árvores para construir barragens do Tâmega. Movimento Rios Livres diz que algumas são centenárias.

Iberdrola diz que vai reflorestar um total de 142 hectares nas áreas abrangidas pelas três barragens
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Iberdrola diz que vai reflorestar um total de 142 hectares nas áreas abrangidas pelas três barragens Pedro Cunha

O Governo autorizou a Iberdrola a abater 608 sobreiros na área onde vai ser construída a barragem de Gouvães, uma das três que a empresa espanhola vai construir no rio Tâmega, numa área que se estende pelos concelhos de Cabeceiras de Basto, Vila Pouca de Aguiar e Ribeira de Pena. A Iberdrola adiantou ao PÚBLICO que as árvores serão cortadas no início de 2017, “à medida das necessidades” identificadas nesta primeira fase da construção do Sistema Electroprodutor do Tâmega.

Segundo um despacho conjunto do secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, Amândio de Oliveira Torres, e do secretário de Estado da Energia, Jorge Seguro Sanches, a empresa tem autorização para abater 289 sobreiros adultos e 319 sobreiros jovens, numa área de “4,67 hectares de povoamentos e de pequenos núcleos daquela espécie, localizados na área de implantação da barragem de Gouvães”.

O mesmo despacho (que declara a utilidade pública do empreendimento da Iberdrola, sem a qual o abate das árvores seria travado) revela que, no âmbito das medidas de compensação acordadas com o Estado, a empresa irá arborizar uma área de 42,35 hectares “localizados nos Perímetros Florestais do Barroso e de Cabreira”. A Iberdrola adiantou que essa reflorestação vai começar já no próximo ano, em áreas que serão “seleccionadas com o apoio do Instituto de Conservação da Natureza”.

A empresa estima que seja preciso cortar árvores numa extensão de 95,17 hectares, embora diga que o número ainda não é exacto. Certo é que desde o início do processo “já licenciou” para abate cerca de duas mil árvores, segundo adiantou o seu porta-voz. A madeira destas árvores, explicou a mesma fonte, será entregue a autoridades e associações locais ou mesmo cidadãos “que se candidataram”.

Considerando o conjunto dos três empreendimentos (Gouvães, Daivões e Alto Tâmega), a eléctrica espanhola conta reflorestar “aproximadamente 142,76 hectares” e diz que os contratos com o Estado a obrigam a “assegurar a manutenção destas áreas por um período de 15 anos”.

Nas situações em que são abatidas espécies prioritárias, como a azinheira ou o sobreiro, as empresas ficam obrigadas “a reflorestar uma área equivalente, mais cerca de 20% dessa extensão”, explicou a coordenadora do projecto Rios Livres, Ana Brazão. “Geralmente as empresas excedem” esses objectivos, “mas isso não compensa”, segundo a ambientalista, o impacto do corte das árvores, “algumas delas centenárias”, nestes concelhos junto ao Tâmega.

Destacando o papel destes exemplares como sumidouros de carbono (capturam o carbono da atmosfera), a responsável diz que “tardará muito” até que as árvores novas possam tomar o lugar das mais antigas. Ana Brazão, que na semana passada esteve no local das obras da futura central eléctrica de Gouvães, no concelho de Ribeira de Pena, diz já ter visto “vários sobreiros cortados”.

O projecto Rios Livres integra a comissão de acompanhamento ambiental das hidroeléctricas e sempre contestou a construção de grandes projectos, como o do Tua e do Baixo Sabor (da EDP). Este projecto do GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente também se opõe à construção das barragens da Iberdrola, que foram as únicas a resistir ao processo de avaliação do Governo PS ao Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (aprovado em 2007).

O executivo alegou que só as barragens que ainda não tinham saído do papel seriam revistas e, ao contrário dos projectos da Endesa no Mondego (Girabolhos, que foi cancelado) e da EDP no Tâmega (Fridão, adiado por três anos), entendeu-se que a construção do complexo hidroeléctrico da Iberdrola já estava em marcha e deveria prosseguir.

Algo que Ana Brazão refuta. “Em 2015 só havia alguma manutenção de acessos, foi já depois de começar o plano de avaliação [do Governo] que começaram as verdadeiras obras”, assegurou a coordenadora do Rios Livres, considerando não haver razão para que as barragens do Tâmega não tivessem também sido travadas pelo Governo de António Costa.

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