Voar para Berlim no Natal e caminhar dali até Alepo

É o que fizeram dezenas de europeus neste dia 25. “Isto também é Natal”, diz Joana Piedade. Uma marcha ao contrário dos refugiados, para exigir que se faça algo pelos sírios.

A síria Fatima a passar a fronteira da Croácia para a Eslovénia, em Outubro de 2015
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A síria Fatima a passar a fronteira da Croácia para a Eslovénia, em Outubro de 2015 Srdjan Zivulovic/Reuters

Joana Simões Piedade não vai fazer a caminhada toda. Mas esta segunda-feira cedinho, vai juntar-se a Anna Alboth e a muitos outros para iniciar uma marcha que só se acaba em Alepo – ou pelo menos na fronteira da Turquia com o Norte da Síria.

A tentar chegar, como milhões de refugiados; o percurso é quase o inverso do que faz quem foge das bombas, da fome e do frio e “está agora perdido em campos na Europa sem quaisquer perspectivas de recomeçar uma vida”, como diz Joana. Eles querem chegar a Berlim. Estas pessoas, que quando leram a ideia da polaca Anna no Facebook decidiram, como a portuguesa, saltar da prancha sem hesitar, vão tentar chegar a Alepo.

“Começou tudo de uma forma muito simples, a 20 de Novembro, com um post bastante revoltado da Anna, depois de umas imagens de bebés a serem retirados das incubadoras quando um hospital foi atacado”, descreve Joana, mesmo, mesmo a embarcar. “E deixava a pergunta. “Se eu fosse, viria alguém comigo? Respondi, como outros, de forma emocional. Quando os dias foram passando e comecei a pensar como é que isto podia ganhar forma, não parecia uma ideia tão louca e despropositada”.

Anna, jornalista e blogger, recebeu um refugiado em casa durante um ano e tem-se envolvido no acolhimento em Berlim, onde vive. "Estou cansada de me sentir impotente, a assistir a estes acontecimentos limitando-me a partilhar ou pôr um Like”, diz Joana. “Quem sofre no fim são os civis, os que lá estão e os que tiveram de fugir. Temos os nossos objectivos, chamar a atenção nas sociedades, aos vários responsáveis, porque a situação já se prolonga há anos”.

A jovem mãe, com uma filha de quatro anos, já fez voluntariado em Mardin, no Sudeste da Turquia, pertíssimo da Síria, e com refugiados na ilha grega de Chios, muito perto da Turquia – vai regressar à Grécia logo depois de Berlim, a 10 de Janeiro. “O percurso é quase igual, com pequenas variações, ao que a maior parte teve de percorrer para cá chegar”. É: a Marcha Civil por Alepo, co-organizada por 120 voluntários europeus, sai da Alemanha e vai passar por República Checa, Áustria, Eslovénia, Croácia, Sérvia, Macedónia, Grécia e Turquia; três mil quilómetros.

Há uma página de crowndfundig para as despesas e tudo começa às 10h em Tempelhofer. A ideia é que demore uns três meses e que quem quiser se vá juntando, umas 3000 pessoas ao todo chega nas contas de Anna, mas já sabe que milhares vão aparecer em diferentes lugares e conta com 10 mil ao todo. O atentado de há uma semana, num mercado de Natal berlinense, deixou os organizadores com algum receio de desistências, mas não se confirmam.

Joana, Licenciada em Direito e com experiência no jornalismo e em assessoria de imprensa, contou à filha o que ia fazer “de uma forma tranquila e muito simples”, sem “os piores horrores da guerra”, mas “com meninos cujos direitos não são cumpridos”. Depois de um pequeno susto, a pensar que a tinha assustado, Mia decidiu participar e a ela juntaram-se mais crianças. “Mãe, vou fazer desenhos para levares aos meninos daquelas fotos. E, talvez, também podia fazer umas pulseiras da amizade como aquela que a minha amiga Rita me ofereceu na minha festa. Será que consigo?”.