Putin vai “pensar” com Trump “como melhorar as relações”

O Partido Democrata americano "degrada a sua própria dignidade", mas o Presidente eleito tem tudo para que os laços entre a Rússia e os EUA sejam restabelecidos e melhorados.

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Reuters/SPUTNIK

É habitual que os temas que marcaram o ano político internacional sejam falados na conferência de imprensa alargada em directo na televisão que Vladimir Putin dá todos os anos por esta altura. Mas o tempo que a actualidade dos Estados Unidos ocupou desta vez foi mesmo muito: Putin criticou duramente o Partido Democrata, “que claramente esqueceu o sentido de origem do seu nome”, e antecipou que terá boas relações com Donald Trump, o Presidente eleito pelos republicanos.

“Ninguém acreditou que ele fosse ganhar. Excepto nós, claro. Nós sempre acreditámos”, disse o Presidente russo sobre o novo homólogo americano, uma afirmação aplaudida, como outras, pelos 1400 jornalistas presentes. “Eles [os democratas] estão a perder em todas as frentes e à procura de bodes expiatórios. Na minha opinião, como é que hei-de dizer isto, isso degrada a sua própria dignidade. É preciso saber perder com dignidade”, afirmou o Presidente que nunca perdeu uma eleição, 12 anos como chefe de Estado e quatro como primeiro-ministro até agora.

No mesmo dia em que a equipa de Donald Trump divulgou o que diz ser “uma carta muito simpática” de Putin, enviada a 15 de Dezembro, o líder russo também comentou as afirmações do americano sobre a corrida às armas nucleares. Putin não está surpreendido com Trump por este ter dito que aumentará os arsenais dos EUA, “não há nada de novo, durante a campanha ele já disse que ia reforçar as capacidades nucleares e das Forças Armadas dos EUA”.

Por seu turno, o Presidente russo diz que não vai entrar numa corrida que nem tem dinheiro para o fazer. E afirmou com clareza que “as Forças Armadas dos EUA são as mais poderosas do mundo, ninguém disputa isso”, na sequência de declarações suas mal-interpretadas, quando afirmou a propósito da Síria que a Rússia “está mais forte do que qualquer agressor”.

Comentando naturalmente a polémica em redor de uma investigação ao eventual envolvimento russo na campanha das presidenciais americanas, Putin falou em termos muito críticos sobre os democratas de Hillary Clinton. “Mais importante do que quem pirateou [os ficheiros de altos representantes do Partido Democrata, incluindo a candidata derrotada] são as revelações que contêm sobre o partido”, defende. “Mas em vez de pedirem desculpas aos seus eleitores começaram a gritar sobre quem organizou os ataques”.

Quanto às relações entre as duas potências, “não podem ficar piores”, uma das vezes em que se disse “de acordo” com Trump. “Vamos pensar juntos em formas de melhorar esta situação”, declarou, depois de dizer que deve ter “a oportunidade de formar a sua equipa de uma forma ordeira” porque “sem isso, ter reuniões que não foram preparadas é contraprodutivo”.

Uma mensagem parecida à da missiva enviada a Trump, onde escreve que os dois líderes vão ser “capazes de dar passos reais para restaurar o enquadramento das relações bilaterais e da cooperação em diferentes áreas, agindo de forma construtiva e pragmática”. Tendo em conta as posições da escolha de Trump para secretário de Estado, Rex Tillerson, até agora administrador da ExxonMobil que trabalhou de perto com a petrolífera russa Rosneft, Putin acredita que a próxima Administração americana pode levantar as sanções impostas ao seu país pelo Departamento do Tesouro depois da anexação da Crimeia.