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Israel não vai cumprir resolução contra colonatos que EUA deixou passar na ONU

É a primeira vez em mais de 36 anos que o Conselho de Segurança aprova uma resolução crítica dos colonatos israelitas. Netanyahu diz-se ansioso por trabalhar com Trump.

Manifestantes palestinianos num protesto, nesta sexta-feira, em Belém
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Manifestantes palestinianos num protesto, nesta sexta-feira, em Belém Reuters/MUSSA ISSA QAWASMA
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A votação em Nova Iorque AFP/MANUEL ELIAS
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A representante dos EUA a abster-se AFP/MANUEL ELIAS
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Depois de aprovada a resolução, a audiência aplaudiu AFP/MANUEL ELIAS
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Um cartaz em Telavive, onde o slogan de Trump foi adaptado e se pede para fazer Israel grande outra vez AFP/JACK GUEZ

Os Estados Unidos abstiveram-se numa votação no Conselho de Segurança de uma resolução que exige o fim da construção de colonatos em Israel. O Governo de Telavive já anunciou que não vai respeitar a decisão das Nações Unidas.

"Israel não se vai conformar com a decisão da ONU sobre os colonatos. Rejeita esta vergonhosa resolução anti-Israel e não vai obedecer aos seus princípios", diz um comunicado do gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, citado pela Reuters.

Numa acção nada habitual, o Presidente eleito dos EUA pronunciou-se sobre uma potencial decisão da Administração ainda em vigor perante a possibilidade de uma abstenção, que levou a uma chuva de críticas de Israel contra Obama. Poucas horas depois da votação, Donald Trump reagiu prometendo: "As coisas serão diferentes depois de 20 de Janeiro", dia em que o republicano toma posse como Presidente dos EUA.

Diplomatas ocidentais tinham antes antecipado a possibilidade de abstenção dos Estados Unidos – numa tomada de posição que, mais do que marcar o desagrado de Washington com o Governo de Benjamin Netanyahu, tenta limitar os efeitos da anunciada mudança na política americana para a região com a chegada de Trump à Casa Branca.

No entanto, no Conselho de Segurança, a representante norte-americana Samantha Power defendeu que a resolução apenas repetia afirmações consistentes com a situação no terreno e que a abstenção americana era coerente com a política de décadas de administrações democratas e republicanas sobre a questão israelo-palestiniana.

"O Governo de Israel teve oportunidade de seguir políticas que poderiam conduzir a uma votação diferente", disse um porta-voz da Casa Branca. Por seu lado, o secretário de Estado John Kerry afirmou que resolução agora aprovada "condena correctamente o incitamento à actividade de construção de colonatos", e apela a ambos os lados para que avance uma solução de dois Estados, relata a Reuters

A acção da Administração do Presidente Barack Obama acontece depois de o Egipto, que originalmente tinha proposto o texto, o retirar após pressão de Israel – e de Donald Trump.

A votação acabou por acontecer por iniciativa da Nova Zelândia, Malásia, Venezuela e Senegal, que eram, junto com o Egipto, co-patrocinadores da resolução apresentada em nome da Autoridade Palestiniana. A resolução foi aprovada com 14 votos favoráveis e a abstenção norte-americana.

O texto não prevê sanções nem define abertamente como ilegais os colonatos israelitas na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Defende, no entanto, que Israel deve “cessar imediata e totalmente as actividades de colonização nos territórios ocupados”, sublinhando que a expropriação de terras e construção de bairros naquelas zonas “não tem validade legal” à luz do direito internacional e “põe perigosamente em risco a viabilidade da solução de dois Estados”, sobre a qual assenta o consenso internacional para a paz.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, através do seu porta-voz, elogiou a resolução: "O secretário-geral aproveita esta oportunidade para encorajar os líderes israelitas e palestinianos a trabalharem com a comunidade internacional para criar um ambiente propício para o retorno de negociações significativas".

Os EUA vetaram, ao longo de décadas, mais de 30 resoluções relacionadas com o conflito israelo-palestiniano – o último texto aprovado pelo Conselho de Segurança sobre a construção de colonatos remonta a 1980. O veto americano mais recente (o único decidido pelo actual Presidente) aconteceu em 2011, bloqueando um texto semelhante ao votado nesta sexta-feira.

O desagrado israelita

Mas a mera possibilidade de abstenção americana lançou o Governo israelita em modo de crise – cortando imediatamente com a Administração Obama, com a qual as relações não são boas. "Israel está ansioso por poder trabalhar com o Presidente eleito Trump para anular os efeitos da resolução da ONU", diz ainda o comunicado do gabinete de Nentanyahu.

“A resolução proposta é mais do que simbólica […]. A sua linguagem visa minar a posição negocial de Israel em futuras conversações de paz” escreveu o jornal de grande tiragem Yediot Ahronot. Isto porque “face à oposição internacional generalizada aos colonatos, será quase impossível à Administração Trump revertê-la”.

Confirmando até que ponto azedaram nos últimos anos as relações entre os dois aliados, sobretudo desde o fracasso da última iniciativa de paz, em 2014, um alto responsável israelita, que falou aos jornalistas a coberto de anonimato, acusou Obama e o seu secretário de Estado, John Kerry, de estarem por detrás “desta vergonhosa iniciativa contra Israel na ONU”.

Ao mesmo tempo que fazia pressão sobre o Cairo, o Executivo de Netanyahu tomava a pouco diplomática opção de pedir o apoio de Trump ao bloqueio da iniciativa.

O Presidente eleito, que durante a campanha prometeu instalar a embaixada norte-americana em Jerusalém – reconhecendo implicitamente a cidade como capital de Israel – falou ao telefone com Abdul Fattah al-Sissi, o Presidente egípcio que se confessa admirador de Trump. Anunciando a retirada “temporária” da proposta de resolução que aprovada, a presidência egípcia explica que os dois homens concordaram que era preciso dar à próxima Administração americana a “oportunidade para lidar” com o conflito.

Além da ultrapassagem ao Presidente em funções, a intervenção de Trump antecipa a mudança radical que a sua chegada à Casa Branca trará à posição norte-americana para o conflito israelo-palestiniano, depois de oito anos de relações frias (por vezes geladas) entre Netanyahu e Obama.

Uma viragem já anunciada pela nomeação para o cargo de embaixador em Israel de David Friedman, um advogado especializado em falências que não só defende a expansão dos colonatos, mas vai além das posições assumidas pelo próprio primeiro-ministro israelita: rejeita a solução de dois Estados que há décadas é apresentada como o caminho para a paz, e defende que Israel deve anexar a Cisjordânia.

Antes da votação, vários responsáveis americanos prometiam consequências para países que a aprovassem ou para os palestinianos.

Lindsey Graham, o senador que preside ao Comité que supervisiona o financiamento americano da ONU, ameaçou suspender as transferências para os países que apoiem a resolução caso esta seja aprovada.

Também Newt Gingrich – antigo speaker republicano do Congresso e conselheiro de Trump – veio dizer que caso a Administração Obama se abstivesse, a futura Administração Trump deveria cortar o financiamento que dá à Autoridade Palestiniana.

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