Opinião

Melindrosíssima

Quando as forças da exclusão e do ódio passam a dominar a dinâmica política, o conflito generalizado nunca poderá estar longe. O próximo ano será o combate das nossas vidas para que isso não aconteça na Europa.

Às vezes, na sala de aula, mostro uma após outra duas primeiras páginas do jornal O Século num dia do começo de Agosto de 1914, mesmo antes de a Grande Guerra começar. São duas edições publicadas no mesmo dia, como era hábito dos jornais em tempo de muitos leitores e muitas notícias: na edição da manhã um título a várias colunas anuncia que a situação se apaziguou e que os esforços diplomáticos de várias potências permitiram evitar a guerra; na edição da tarde a machete vem substituída por um nervoso "A Situação É Melindrosíssima!!!". Passado algumas horas, começavam os combates.

Pois bem, 2016 foi preocupante. Mas 2017 vai ser, para usar a expressão secular d'O Século, melindrosíssimo. 

Não forçosamente pelos mesmos motivos, claro. Ontem, ao receberem a notícia — minutos depois completada com vídeo quase em tempo real — do assassinato do embaixador da Rússia na Turquia, muitas pessoas reagiram lembrando o assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo (que em junho de 1914 foi a causa imediata do desencadear da guerra). Essa analogia foi precipitada. Simplificando grosseiramente, um dos graves pontos de contenda entre a Áustria-Hungria e a Sérvia foi a possibilidade de haver ou não uma investigação austríaca em solo sérvio sobre o atentado a Francisco Fernando, considerada indispensável pelos austríacos e uma violação de soberania pelos sérvios. Do que nos é dado ver nestes primeiros dias após o assassinato do embaixador russo em Ankara, a Turquia parece prometer uma investigação aprofundada e a Rússia confiar na investigação turca. Os primeiros sinais são, portanto, menos ameaçadores e os dois países deram mais provas de contenção do que no caso do avião russo abatido pela Turquia aqui há uns meses. Não é para suspirarmos de alívio, mas para mantermos as coisas em perspectiva. Se quisermos perceber as consequências deste atentado, o grau de cooperação entre autoridades em relação à investigação será um guia simples, mas bastante fiável.

Poucas horas depois, a situação era de novo melindrosíssima. Ainda não se sabe definitivamente, à hora a que escrevo estas linhas, o que aconteceu para que um camião tivesse abalroado uma praça em Berlim, matando 12 pessoas e ferindo várias dezenas. Mas se se confirmar que se tratou de um ataque terrorista, como parece indicar a sua semelhança com o ataque deste verão em Nice e com as instruções e apelos do ISIS nas suas publicações, este não será apenas mais um dos ataques a que temos estado quase incessantemente sujeitos. Tudo no modus operandi, desde a utilização de um camião que atravessou a fronteira polaca, até aos rumores de que o perpetrador possa ser um requerente de asilo, se destinam a pôr ainda mais sob tensão a política na União Europeia à beira de um ano decisivo.

Os estudiosos dos ISIS têm identificado nas publicações do grupos terrorista a estratégia de que é preciso acabar com a "zona cinzenta", como chamam ao espaço de convivência e integração entre muçulmanos e não-muçulmanos em terras ocidentais. O que se passou em Berlim foi quase certamente um ato terrorista por parte de quem quer acabar com essa convivência e assim obrigar todos os muçulmanos a terem exclusivamente uma identidade fundamentalista. Para isso se matam inocentes numa feira de Natal. De caminho, são bónus acabar com Schengen, dificultar a vida a Merkel por ter aceitado refugiados e dar mais força a quem, como Le Pen, deseja o fim da UE. Será bónus também o atentado menos falado de segunda-feira, contra muçulmanos numa mesquita na Suíça. No destruir da zona de convivência, islamistas e islamófobos são aliados objetivos.

Devemos preparar-nos para que não fiquem por aqui. Devemos reforçar-nos para que não ganhem nem mais um milímetro de terreno real ou ideológico. Devemos unir-nos para lembrar as vítimas de Berlim, como nunca esqueceremos as de Nice, Paris, Londres, Atocha e tantos outros lugares. E ganharemos no dia em que entenderem que são indestrutíveis as nossas liberdades, — incluindo a liberdade de sermos solidários com refugiados e de lutarmos pela convivência entre muçulmanos e não-muçulmanos, por muito que isso irrite a quem gostasse de acabar com a "zona cinzenta".

Se há lição a reter de há cem anos, ela não está na coincidência dos factos precursores, mas na das culturas vigentes. Quando as forças da exclusão e do ódio passam a dominar a dinâmica política, o conflito generalizado nunca poderá estar longe. O próximo ano será o combate das nossas vidas para que isso não aconteça na Europa.