Metástases do cancro da mama começam antes da detecção da doença

As células que saem de um tumor em formação, quando ele ainda não é sequer detectável, são mais eficazes na colonização de outros tecidos. Estas células de disseminação precoce são as que formam 80% das metástases.

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As células de alguns cancros da mama migram antes de o tumor ser detectável Eric Gaillard/REUTERS

Antes de qualquer sinal ou sintoma, o cancro da mama começa a tentar espalhar-se pelo corpo. Cientistas dos Estados Unidos e da Alemanha identificaram os mecanismos de um ataque que envolve um grupo de células que avança muito cedo, quando o tumor ainda não é detectável, e inicia o processo de disseminação que culmina na formação de metástases. Segundo dois estudos publicados na mesma edição da revista Nature, estas células são mais eficientes na colonização de tecidos e órgãos distantes do que as células que migram do tumor em fases mais avançadas. Os trabalhos mostram como o ataque pode começar cedo mas também abrem as portas para novas estratégias de defesa.

No cancro a guerra é dura e, já se sabe, que quanto mais soubermos do inimigo mais hipóteses temos de o derrotar. Neste caso, os investigadores investigaram o cancro da mama de subtipo Her2 positivo, um dos mais agressivos e metastáticos, e perceberam que os primeiros soldados deste inimigo começam a ocupar outras zonas do corpo ainda antes de o cancro ser detectado. Após uma viagem silenciosa até outros tecidos e órgãos, estas células permanecem num estado de dormência enquanto o tumor cresce e se adensa. Os cientistas concluíram que 80% das metástases deste cancro são formadas por este tipo de células tumorais de disseminação precoce. As células que migram numa fase mais tardia, quando o cancro já se encontra numa fase mais avançada, terão afinal um papel secundário.

Estudos anteriores já tinham mostrado que o processo de metastização de um tumor, que é a principal causa de morte associada ao cancro, começava nas fases iniciais da sua formação. Porém, os mecanismos que explicam esta invasão precoce ainda estavam por esclarecer. Duas equipas  – compostas por investigadores dos EUA e da Alemanha e com alguns dos mesmos autores a assinar os dois artigos – deram agora um passo em frente, desvendando alguns pormenores sobre a estratégia do cancro.

“Mostrámos que em formas muito iniciais da progressão tumoral, quando o tumor ainda nem sequer é palpável, já se pode observar disseminação das células tumorais para órgãos à distância, como os pulmões e o osso”, explica Rita Nobre, investigadora portuguesa a trabalhar na Escola de Medicina Icahn, em Nova Iorque, e uma das autoras de um dos estudos publicados na Nature, liderado por Kathryn Harper. “Estas células são muito eficientes a colonizar órgãos à distância, mas muitas vezes ficam como que adormecidas nestes órgãos por longos períodos de tempo, o que explica que alguns pacientes só apresentarem metástases mais tardiamente”, acrescenta.

Rita Nobre faz parte da equipa que identificou uma “ajuda” que estas células têm na disseminação do cancro. Assim, os cientistas mostram que a proteína Her2 consegue activar um processo de sinalização que faz com que estas células “acordem” e consigam formar metástases após um longo sono. “Os próximos passos serão perceber melhor o que mantém estas células 'adormecidas' e o que as faz 'acordar' ao fim de meses, anos ou até décadas depois do diagnóstico do tumor primário”, diz. A longo prazo, o objectivo é “desenvolver terapias dirigidas a células dormentes de forma a prevenir o aparecimento de metástases”.

Um importante fenómeno raro

“É importante acrescentar (principalmente para não criar alarmismo geral) que este fenómeno não acontece em todos os tipos de cancro, nem mesmo em todos os tipos de cancro da mama”, avisa a investigadora. É um fenómeno raro, reconhece, “mas não menos importante porque as células dormentes não respondem à maioria das terapias convencionais”.

Num outro trabalho publicado na mesma edição da Nature, uma equipa liderada por Hedayatollah Hosseini, investigador na Universidade de Regensburg, na Alemanha, e que tambem participou no estudo já citado, estudaram as metástases em ratinhos com cancro da mama Her2 positivo. Neste caso, os cientistas erceberam que as células que saíram de zonas com lesões que ainda tinham poucas células tumorais conseguiam migrar mais e formar mais metástases do que as que são originárias de tumores mais densos, numa fase mais avançada. Os autores deste estudo demonstraram, assim, que a hormona da progesterona desempenha um papel importante na activação do mecanismo de migração em lesões iniciais do tumor e também na proliferação de células no cancro primário.

Num modelo animal como o rato onde se induz um cancro da mama através de uma activação do receptor Her2, estas células tumorais de disseminação precoce são detectáveis na medula passadas apenas quatro semanas. Porém, nesta fase, as alterações nas células nas glândulas mamárias só são detectáveis através de técnicas microscópicas e os tumores primários palpáveis ainda demoram cerca de 14 semanas a formarem-se.

No comentário que acompanha estes trabalhos na Nature, Cyrus Ghajas e Mina Bissel, dois investigadores dos EUA na área do cancro e biologia (respectivamente), sublinham também que os mecanismos identificados nestes dois estudos podem não estar presentes em todos os tipos de cancro da mama ou noutros cancros. Ainda assim, consideram que estas descobertas são importantes, particularmente em cancros em que esta disseminação precoce é conhecida como é o caso do cancro da pele ou do pâncreas. “Estes estudos têm implicações significativas no que se refere a terapias preventivas”, notam, acrescentando que o “alvo” deve agora ser apontado para as propriedades que são características destas células – nomeadamente, a sua longa sobrevivência e resistência a terapias.