2016, o ano dos êxitos improváveis

Um golo no prolongamento, uma "geringonça" estável, um presidente popular, Guterres na ONU, os resultados do PISA. Este é o ano em que a auto-estima voltou?

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Faltava quase um mês para a final de Paris quando Fernando Santos, o seleccionador nacional de futebol, prometeu, numa conferência de imprensa o que parecia impensável: “Já disse à minha família: só vou dia 11 para Portugal. E vou ser recebido em festa.”

António Costa era um secretário-geral do PS derrotado na noite das eleições legislativas, mas fez o mesmo exercício de Fernando Santos. “A perda da maioria pela coligação [PSD e CDS] constitui um novo quadro político.”

O Verão parecia arrefecer o entusiasmo sobre a candidatura de António Guterres à liderança da ONU. Ganhava eco a teoria de que o cargo seria para uma mulher, da Europa do Leste. Um retrato-robô da búlgara Kristalina Georgieva, que entrou na corrida em Setembro, apoiada pela Alemanha, pelos corredores de Bruxelas e com um insinuado da de Moscovo. Mas nada disto parecia retirar o sorriso diplomático de Guterres e da equipa de diplomatas do MNE.

Isso nem sempre significa uma virtude, mas estes três homens, no último ano, viram o que quase ninguém conseguia ver – a vitória no Euro 2016, a criação da “geringonça” e a unanimidade no Conselho de Segurança da ONU. E ajudaram a fazer deste o ano dos êxitos improváveis.

Dois Orçamentos do Estado aprovados internamente por PS, BE e PCP, e externamente pelo crivo céptico de Bruxelas. O fim do procedimento por défice excessivo. Éder a marcar no prolongamento no Stade de France. A selecção de futebol feminino apurada pela primeira vez para o Euro 2017. Ok, o futebol é 11 contra 11… Mas o Programme for International Student Assessment da OCDE, conhecido pelo acrónimo PISA, também mostra outra realidade de que ninguém suspeitaria se apenas se dedicasse a ouvir os frente-a-frentes televisivos: os resultados dos alunos portugueses com 15 anos, a ciências e a leitura, foram “significativamente superiores” aos da média da OCDE.

Portugal mudou, parece óbvio. Desde 2005 que não estávamos tão felizes. Há provas científicas: os investigadores da Universidade Erasmo de Roterdão mantêm uma “base de dados da felicidade”. Todos os anos, desde 1985, seleccionam uma amostra em cada país e lançam a pergunta: “Considerando todos os aspectos, quão satisfeito ou insatisfeito está com a sua vida?” Em 2007 a média de respostas em Portugal apontava para um “suficiente”, 5,2, numa escala de zero a 10. Com a crise a felicidade veio pela escala abaixo, chegando à negativa (4,8 em 2012). Em 2016 já vai em 5,2 outra vez. É um assim-assim com sabor a vitória no prolongamento.

A Constituição Portuguesa não tem escrita a palavra “felicidade”, como a Declaração de Independência dos EUA, mas o novo “guardião” da lei fundamental não ignora as suas virtudes. Marcelo Rebelo de Sousa, eleito em Janeiro, à primeira volta, deixou claro, no seu discurso inaugural, um objectivo: “Temos de sair do clima de crise, em que quase sempre vivemos desde o começo do século, afirmando o nosso amor-próprio, as nossas sabedoria, resistência, experiência, noção do fundamental.”

O filósofo José Gil, que aceitou reflectir para este balanço do ano do PÚBLICO, já encontra evidências dessa mudança. “Há uma modificação muito importante num mecanismo da relação dos portugueses com o estrangeiro, que tradicionalmente contribuía para uma imagem negativa dos portugueses. A valorização da imagem que vem de fora mudou este ano, em imensos planos.”

Da vitória no Europeu de futebol às negociações do Governo em Bruxelas, passando pela enorme afluência de turistas ao nosso país, resulta, para José Gil, “uma conjunção de factores da imagem de si dos portugueses que influenciam a auto-estima”. Como? “O “lá fora” já não reflecte a nossa imagem diminuída “cá dentro”. Depois de várias “vitórias morais”, tanto no desporto como na vida institucional, Portugal vive uma época de realizações com impacto externo, explica José Gil. “Sonhamos menos, agimos mais, sonhamos melhor.”

O golo de Éder, a rapidez com que o comissário Moscovici dissipou as dúvidas sobre o actual Orçamento, a vitória de Guterres, a “valorização externa que os turistas trazem quando escolhem visitar Portugal”, tudo isso contribui, analisa José Gil, para um “apagamento da culpabilidade”. E para sermos um povo “cada vez menos vocacionado para a desgraça”.

Isso é evidente na curva da “felicidade” medida pela Universidade Erasmo de Roterdão: 2016 é um momento de viragem. Mas há no passado recente uma explicação para esta mudança. Numa palavra: crise.

Nos últimos anos, sobretudo entre 2008 e 2013, quando a crise começou a afectar a maior parte das democracias, em Portugal a “crise democrática” teve um efeito diferente. Tiago Fernandes, professor de Ciência Política da Universidade Nova de Lisboa, acaba de lançar o livro Late Neoliberalism and its Discontents in the Economic Crisis (Palgrave Macmillan), em que analisa a forma como os movimentos sociais portugueses se organizaram, “formaram convergências estáveis e duradouras” e influenciaram decisivamente o rumo institucional do país.

Numa altura em que na Europa se começaram a sentir os efeitos de uma vaga populista, anti-imigração, em Portugal houve um reforço do sistema político existente, explica Tiago Fernandes. “O sistema partidário existente não colapsou, antes se reforçou”, conclui.

E esse reforço, continua Tiago Fernandes, pode estar onde menos se espera. Mesmo na aparente fragilidade de um governo que vive em constantes negociações parlamentares com os partidos à sua esquerda, de que depende a sua viabilização. “A parlamentarização do regime torna-o mais transparente. O facto de haver uma negociação parlamentar pública incentiva o escrutínio”, defende.

Mas ao mesmo tempo que se torna mais transparente, e escrutinável, o regime político ainda apresenta vulnerabilidades bem visíveis.

Os exemplos de uma gestão “displicente” em assuntos tão sensíveis com a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, os salários dos gestores públicos, ou casos como os das viagens de membros do Governo aos jogos do Euro2016 pagos por empresas privadas são o contraponto da aparente “estabilidade” do Governo.

O país habituou-se, nos últimos anos, entre 2008 e 2012, a protestar mais. O livro de Tiago Fernandes mostra a medida exacta: a percentagem dos portugueses que participaram em manifestações subiu de 12% para 24%; 32% assinaram uma petição; 25% fizeram greve; até 2% bloquearam estradas ou linhas férreas...

Em Lisboa, em 2012, houve uma manifestação a cada 15 horas (579 no total).

Em 2016, todos esses indicadores (vistos a olho nu, ainda sem estatísticas ou sondagens) parecem ter diminuído.

José Gil dá um exemplo do que mudou, também aqui. Marcelo Rebelo de Sousa “fez desaparecer a imagem de Cavaco, que era austero”. “O novo Presidente da República reduziu real, e imaginariamente, a distância com o povo. Gestos simbólicos como a abertura dos jardins do Palácio de Belém são muito importantes para esbater essa percepção de distância entre os políticos e os eleitores. É uma forma de democracia participativa de que o povo não tinha o hábito.”

Uma das imagens fortes deste ano é a da disponibilidade de Marcelo para se deixar fotografar ao lado dos portugueses com que se cruza. A selfie presidencial tornou-se uma instituição, quase uma rotina. Mas há nesse acto também um significado político.

A aliança entre o simbolismo de Marcelo e o “pragmatismo optimista” de António Costa “está a ter um efeito do qual ainda não medimos a dimensão”, salienta José Gil. Há um novo estilo de “acção aqui e agora, à qual não estamos habituados. O sonho desrealizante, o enchimento falso do ego, está a desaparecer.”

Que tudo isso se esteja a passar com o mundo em contraciclo é o que faz com que este ano de 2016 pareça ser o principal acontecimento de si mesmo. José Gil: “A imagem do mundo contrasta com a imagem de Portugal. Portugal é uma ilha de sensatez neste mundo caótico.”