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O Natal não existe

Se o Natal algum dia foi um feriado religioso, nas últimas décadas não tem sido mais do que uma Black Friday tingida de vermelho

Se o Natal algum dia foi um feriado religioso, nas últimas décadas não tem sido mais do que uma Black Friday tingida de vermelho. Na verdade, é raro o feriado celebrado hoje em dia que não resulte numa maior demanda consumista. Isso vê-se na estratégia mercantilista do 1.ª de Maio ou no facto de a Páscoa já nada ter a ver com a ressurreição de Cristo e tudo com oferecer amêndoas e ovos de chocolate — tal como o Carnaval é sobre comprar máscaras e adereços e o São Martinho pura e simplesmente sobre comer castanhas e beber água-pé.

Se o Natal é de facto a celebração do nascimento de Cristo, o que fazem milhares de ateus, agnósticos e crentes de outras religiões a celebrá-lo incessantemente ano após ano? E, tão importante como isso, o que fazem devotos cristãos e católicos a comemorar durante séculos uma data que era até ao séc. IV a celebração romana Sol Invictus., como ainda por cima, tudo indica que o 25 de Dezembro não coincide com a real data de nascimento do filho de Deus, que a julgar pelos relatos disponíveis terá sido na algures na Primavera.

Aliás, a promiscuidade à volta do nascimento de Cristo e os rituais comerciais associados a São Nicolau, santidade onde o fervor consumista se foi inspirar, apenas têm privado da efeméride o pouco significado que ainda poderia conservar. Despida desse mesmo significado, a data pouco mais é do que um dia em que as lojas e as marcas vendem mais, aumentando os preços ao invés de fazer promoções. Porque no fundo, no fundo o que o Natal acaba por evidenciar não é a partilha, o amor ou família, mas sim o inegável facto de que somos cada vez mais incapazes de expressar os nossos sentimentos de outra forma, que não a de gastar dinheiro que não temos em coisas que os outros não precisam. Porque hoje em dia as nossas relações estão tão mediadas por transacções de produtos e serviços, que uma palavra ou um gesto parecem cada vez menos um fim em si mesmas e antes um meio para outra coisa qualquer. Assim, continuamos a ser vítimas daquela falácia tão lusitana de que “se é grátis, não presta” e deixamos os beijos e os abraços para quando o calendário e os imprevistos ditam. Assim como as oferendas.