Opinião

Pós-verdade na política e na guerra

A era da pós-verdade tem uma longa história, não começou em 2106.

1. Estamos a viver uma era de pós-verdade. Esta é a impressão que sobressai do muito do que foi escrito, e dito, nos últimos meses na imprensa. Pós-verdade é o termo do ano 2016 para os dicionários Oxford. O termo "pós" pretende significar mais do que algo cronologicamente posterior. Pretende mostrar a irrelevância do conceito ao qual foi associado — neste caso, do conceito de verdade entendido como a conformidade com os factos. A escolha foi determinada pela ascensão do populismo, explicada como só possível pela irrupção da “pós-verdade” na política. O Brexit e a eleição de Donald Trump nos EUA são os seus maiores exemplos. A era de pós-verdade só foi tornada possível pela Internet e redes sociais. Funcionam como fonte de “informação” alternativa distorcendo a realidade e desinformando os cidadãos eleitores. Alimenta-se da desconfiança relativamente ao poder estabelecido, a qual cria receptividade às falsas notícias. Na era da pós-verdade, o respeito pelos factos tornou-se descartável. A emoção supera agora a razão. A tradição filosófica e política ocidental de racionalidade e de verdade, como conformidade, com os factos, foi afastada. O problema desta narrativa é ser, ela própria, pós-verdadeira. Não passa de uma catarse do establishment provocada pelos traumas das “impossíveis” vitórias do Brexit e de Donald Trump.

2. O que se chama hoje pós-verdade não capta fundamentalmente nada de novo — a novidade é mesmo o termo que tem um glamour pós-moderno e sugere algo inexistente até agora. Uma análise mais atenta mostra como, na essência, estamos perante o mesmo fenómeno social e político que se chamava tradicionalmente rumor ou boato, antes da actual sociedade em rede. Por outras palavras, estamos perante algo que circula na esfera pública com aparência de verdade, ou, pelo menos, de plausibilidade. O rumor / boato constitui um relato ou explicação de acontecimentos de interesse público que se propaga oralmente. Não é clara a sua origem, nem está confirmado por fontes identificadas e credíveis. Na actual sociedade em rede, o equivalente é a difusão de um texto, imagem ou notícia nas diversas redes socais — Facebook, Twitter, etc. — em similares circunstâncias de descontextualização, não conformidade e/ou dificuldade de confrontação com os factos. Trata-se de uma forma, deliberada ou inconsciente, de distorção da realidade. Poderá ser algo totalmente falso, ou, mais subtilmente, uma distorção parcial — a chamada meia-verdade. Com ou sem sociedade em rede, o rumor / boato político sempre teve um potencial manipulador. Pode levar a alterações importantes da opinião pública com consequências políticas de maior ou menor dimensão. O seu uso como arma política é uma constante ao longo da história humana.

3. Para além do rumor / boato, o problema da “pós-verdade”, nas suas diferentes facetas, é algo intemporal na política. O Príncipe de Maquiavel — o governante do Renascimento —, já vivia numa era de pós-verdade. No capítulo XVIII do livro, “De que modo os príncipes devem cumprir a sua palavra”, há uma frase que capta de forma particularmente cínica a essência da questão: “quem engana achará sempre quem se deixe enganar.” Como Maquiavel faz notar, aquele que aspira ao poder, ou à sua conservação, deverá ser um “grande simulador e dissimulador.” O essencial é que a acção política seja percebida pelo vulgo, ou seja pela população em geral, como um sucesso. Se for assim, os meios empregues serão sempre justificados: “o vulgo deixa-se sempre levar pela aparência e o sucesso das coisas; e no mundo não há senão vulgo e os poucos só têm lugar quando os muitos não têm em que apoiar-se.” Hoje, a sociedade em rede mimetiza o que há de melhor — e de pior — no ser humano. Trouxe novos meios para lógicas humanas e políticas antigas: a arte de simular e dissimular com objectivos políticos, que pode ser apoiada na propagação de rumores / boatos. Para os que idealizam a Internet e a sociedade em rede foi um choque de realidade: uma nova era de transparência na política, um espaço de liberdade e de causas com elevado valor moral, estava a emergir. Afinal, o que surgiu foi uma era de pós-verdade.

4. Tal como na política, também na guerra não há qualquer novidade substancial em matéria de “pós-verdade”. É tão antiga como a actividade bélica entre seres humanos. O episódio mitológico do cavalo de Tróia na Antiguidade — a mentira usada na guerra pelos gregos, que se tornou decisiva para a conquista da cidade de Tróia —, impregna a cultura europeia e ocidental. No mundo hoje, a ocultação da verdade durante guerra, ou para justificar a sua necessidade, continua a ser usual como no passado. A invasão do Iraque, em 2003, foi apresentada como necessária e legítima por George W. Bush devido à ameaça de armas de destruição maciça no Iraque, as quais estariam na posse dos exércitos de Saddam Hussein. Nem tais armas, nem quaisquer provas credíveis da sua existência foram alguma vez encontradas. Mais recentemente, na guerra da Síria e na terrível batalha de Alepo, a pós-verdade é o normal da (des)informação. O jornal Le Monde (ver "Fausses images et propagande de la bataille d’Alep", 15/12/2016) mostra como ambos os lados — governo de Assad e grupos rebeldes — manipulam a opinião pública internacional. Um dos casos apresentados é a falsa imagem, posta a circular nas redes sociais, para gerar emoção, de uma órfã a fugir numa cidade em destroços. O problema é que foi retirada de um vídeo da cantora libanesa, Hiba Tawaji, de 2014. Outro caso é a recente defesa, feita pelo diplomata que representa a Síria no Conselho de Segurança da ONU, contra as acusações de atrocidades cometidas contra a população civil pelas forças militares governamentais, usando uma foto tirada no Iraque.

5. Há uma “boa” e uma “má” pós-verdade? Assim parece, pois, a pós-verdade, já foi vista como progressista. Nietzsche, o filósofo contra-Iluminista do século XIX, afastou a possibilidade de uma verdade objectiva e universalista. O seu pensamento pode ser traduzido pela máxima “não há factos, apenas interpretações”. Abriu caminho ao chamado “perspectivismo”: não há uma realidade objectiva, apenas interpretações subjectivas do mundo. Até um passado recente, era a esquerda radical pós-moderna — que se via como alternativa —, a deliciar-se com o seu pensamento. Usava-o a seu bel-prazer, como dizia Foucault nos anos 1970. Nietzsche era muito útil para atacar o poder, as instituições e os valores estabelecidos na época — desconstruir era o moto. Libertar-se do positivismo e do teste dos factos um imperativo. Perspectivismo rimava com progressismo. Abria-se uma nova era de transformação social. Pouco importava que realizações como os direitos humanos universais e a democracia liberal fossem destruídas pelo caminho. Hoje estamos a ver os resultados na sua plenitude. Trump e Farage provavelmente nunca leram Nietzsche. Mas a sua atitude mimetiza a esquerda pós-moderna nas causas “fracturantes”. Agora é a bem menos sofisticada, mas mais perigosa politicamente, direita populista — no extremo a alt-right ou direita alternativa —, a usar o desprezo pelos factos para atacar o poder, as instituições e os valores estabelecidos. A era da pós-verdade tem uma longa história, não começou em 2106.