Rara unidade na ONU no dia em que 7000 sírios “aterrorizados” deixaram Alepo

Para trás ficaram ainda milhares, parte deles num controlo de segurança montado pelo regime. Quem sai descreve horas ao frio dentro dos autocarros ou antes ainda.

Um dos autocarros que transportou pessoas do Leste de Alepo
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Um dos autocarros que transportou pessoas do Leste de Alepo Abdalrhman Ismail/Reuters

As Nações Unidas estimam que até agora tenham deixado os bairros do enclave rebelde cercado há meses por Bashar al-Assad pouco mais de 10 mil pessoas. Esta segunda-feira saíram do Leste de Alepo cerca de 7000 em 75 autocarros, horas antes de uma resolução adoptada por unanimidade no Conselho de Segurança pedir a mobilização de observadores da ONU “para uma vigilância adequada e neutra e uma observação directa” da “evacuação das zonas sitiadas”.

Com esta resolução, o objectivo é “evitar uma nova Srebrenica”, referência à cidade bósnia onde 8000 homens e meninos muçulmanos foram mortos em 1995, diz o embaixador francês no órgão executivo mais importante da organização, François Delattre. Falta o regime de Assad confirmar que permite o acesso de mais observadores – na prática, a ONU já tem feito uma observação informal da saída de pessoas de Alepo, coordenada pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha e pelo Crescente Vermelho Sírio.

Fruto de um acordo negociado por russos e turcos, a saída de pessoas já tinha começado no final da semana passada, mas foi interrompida no fim-de-semana, depois de islamistas terem incendiado autocarros que se destinavam a retirar sírios de Fua e Kefraya, duas vilas xiitas na província de Idlib que estão cercadas por grupos da oposição.

Esta segunda-feira de madrugada recomeçou a evacuação de Alepo (e também a de Fua e Kefraya), com milhares de pessoas a serem levadas para o campo de Rashideen, numa área rural da província com o mesmo nome da cidade que está ainda nas mãos dos rebeldes. Muitos irão daqui para Idlib, a única cidade grande que continua a escapar ao regime com a queda de Alepo.

Para trás ficaram ainda milhares, parte deles no controlo de segurança montado pelo Governo em Ramouseh. Quem sai descreve horas ao frio dentro dos autocarros ou antes ainda, na rua à espera. Nalguns casos, “houve gente que esperou mais de 16 horas” no checkpoint do regime, disse à AFP Ahmad al-Dbis, chefe de uma unidade de voluntários e de médicos em Khan al-Assal, perto de onde fica Rashideen.

Entre os que conseguiram sair esta segunda-feira conta-se Bana al-Abed, a menina de sete anos em cujo nome a mãe alimentava uma página de Twitter que foi citada em sites do mundo inteiro. Segundo a UNICEF, 47 crianças que viviam num orfanato também foram retiradas – activistas e membros de ONG divulgaram fotos dos meninos ao colo de adultos de lágrimas nos olho. Algumas destas crianças estão em estado grave por causa de ferimentos ou desidratação, diz a agência da ONU para a infância.

“Está muito frio, estão temperaturas negativas à noite e estas pessoas não têm roupas adequadas. Uma funcionária nossa descreve gente aterrorizada, gelada e há muito tempo sem uma boa refeição”, resumiu ao final do dia Scott Craig, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados.

Nas estimativas da ONU não entram os 4000 rebeldes que também já deixaram Alepo. Craig diz que “podem estar ainda 20 a 30 mil pessoas” a tentar sair. Depois de acabar esta evacuação, e com o texto agora aprovado em Nova Iorque, “o que é importante é abrir caminho a uma ajuda humanitária real e sustentada” para as centenas de milhares de sírios que há meses não conseguem aceder a qualquer tipo de ajuda em várias zonas do país.

A Rússia tem usado do seu poder de veto com muita frequência para bloquear resoluções sobre a Síria – Moscovo apoia no terreno Assad e a aviação russa participou activamente na grande ofensiva contra Alepo iniciada em Novembro. Desta vez, o texto apresentado pela França conseguiu uma rara aprovação por unanimidade, sem vetos dos cinco membros permanentes nem votos contra dos outros dez.

Para o embaixador sírio, Bashar al-Jaafari, esta resolução “é apenas mais uma parte da propaganda contínua contra a Síria e a sua luta contra o terrorismo”.

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