Reportagem

Na Josefa de Óbidos, o segredo é “não embarcar em grandes desvios de rota”

Nesta escola de Lisboa, os professores não escondem que trabalham focados nos exames, mas garantem que têm um percurso próprio, independente das mudanças políticas — o que tornou possível que os alunos tivessem notas mais altas do que era esperado.

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Rui Gaudêncio
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O hall de entrada da Escola Josefa de Óbidos, em Lisboa, não podia ser mais adequado à época do ano. Presépios, bonecos de neve e até um arraiolos alusivo ao Natal. Num dos placards é deixado um desafio aos alunos, que implica fazer contas sobre a ceia de 24 de Dezembro. Para responder à charada, que pretende trazer a matemática para a vida real, os alunos precisam de fazer contas para saber quantos pratos lavaram quatro primos. Foi precisamente nas disciplinas de Matemática e de Português que os alunos do 9.º ano desta escola se destacaram nos exames nacionais realizados no último ano lectivo. Não estão no topo do ranking, que só olha para o valor total das notas, mas estão entre os melhores no chamado “indicador da progressão”. O que quer isto dizer? Estes alunos têm notas mais elevadas do que seria de esperar tendo em conta o contexto escolar.

Beatriz Oliveira tem 14 anos e é aluna do ensino articulado de música. A viola de arco é a grande paixão, mas sabe que não fará disso profissão. O futuro não está escolhido, mas é quase certo que passará pela área das ciências. No final do ano lectivo prestará provas a Matemática e a Português e espera, pelo menos, igualar os resultados dos colegas do ano passado.

A Escola Josefa de Óbidos ocupa o 147.º lugar entre as melhores escolas do país no ensino básico. O director do agrupamento, Jorge Nascimento, prefere olhar para o seu “ranking alternativo”. “Afirmámos sempre um contexto e desse nunca quisemos fugir: escola pública no concelho de Lisboa. É com essas escolas que nos comparamos”, diz, lembrando que estão entre duas escolas que são territórios de intervenção prioritária e que acabam por também ter uma população muito heterogénea.

No entanto, não é nestas classificações do ranking geral que se destacam mais. A escola surge entre as primeiras em que os alunos mais progrediram a Português e a Matemática entre as provas do 6.º ano e as provas do 9.º ano. Aliás, progrediram até mais do que era esperado pela fórmula de cálculo que faz uma estimativa para cada estabelecimento de ensino e que tem em conta as características socioeconómicas dos alunos e pais.

Qual o segredo do sucesso? “Não há milagres nem varinhas mágicas”, diz o director. Mas assegura que tem sido fundamental conhecer muito bem os professores, os alunos, “os pontos fortes e os pontos fracos”. Jorge Nascimento explica que têm conseguido adaptar-se às políticas educativas e ao necessário foco nos exames nacionais, mas sem grandes desvios. “Temos visto nos últimos anos que, até no mesmo Governo, se conseguem fazer políticas de educação diferentes quando muda o ministro. É preciso que as escolas sosseguem em relação a estas alterações. Estamos sempre com o coração nas mãos com o que vem a seguir”, admite o professor.

“Sabemos que, se houver uma mudança de política substancial, mudam as políticas educativas todas, e isto não é bom. O que fazemos é andar num ponto de equilíbrio: cumprindo mas não embarcando totalmente nesse desvio de rota. Se embarcamos no desvio de rota, perdemos o rumo”, defende o director. Jorge Nascimento reconhece que têm um foco nos exames, mas assegura que não esquecem os alunos com mais dificuldades e têm estratégias para que também eles não percam o rumo. No entanto, “o caminho ainda não é imaculado”. Só 44% dos alunos conseguiram não chumbar no 7.º e no 8.º ano e chegar ao final do 9.º com positiva nos exames de Português e Matemática.

Aplicar a matemática no dia-a-dia

“Uma das coisas que noto é que os professores não chegam e dizem que isto é assim porque é. Explicam de onde as coisas vêm e onde se podem aplicar na vida, e isso dá-nos interesse. Por exemplo, num determinado exercício de funções, explicaram que são aplicadas na construção de piscinas para saber a profundidade a que têm de estar. Isso faz toda a diferença”, sintetiza Beatriz.

No caso de Português, a aluna também acredita que a forma como são convidados a esmiuçar os textos e a procurar interpretar as obras a cada momento aumenta o espírito crítico na hora dos exames. Porém, Madalena Dine, professora desta disciplina, assegura que o segredo não passa necessariamente por inovações. “A melhoria dos resultados tem passado pela organização da escola e por certas condições especiais que se criam no 9.º ano, que têm que ver com a própria auto-responsabilização dos alunos”, afirma. “Em Português, o trabalho mais eficaz continua a ser ler, escrever, falar, ouvir, aprofundar o que se está a ler e ganhar sentido crítico”, acrescenta.

Lucas Hawkey, também de 14 anos e aluno do 9.º ano, corrobora o trabalho intenso descrito por Beatriz, reforçando que os professores mandam muitos exercícios diversificados para fazerem em casa, sobretudo a Matemática. “Todas as semanas mando exercícios suplementares por email para os alunos, além do trabalho regular de seguir o livro. Quando chegam aos exames, até os acham mais fáceis do que os nossos testes”, confirma Raquel Sousa, professora de Matemática do 9.º ano e docente na escola há mais de 20 anos. “Há também as aulas de apoio a que podemos ir e algumas aulas específicas para preparação para os exames”, acrescenta Lucas.

Trabalhar a auto-estima

“A Matemática é uma disciplina em que existe toda uma estrutura e um esqueleto que é como se fosse um prédio. Não se passa para o 1.º, o 2.º andar e o 3.º sem que o resto esteja bem”, acrescenta Isabel Fevereiro, coordenadora do departamento de Matemática na Josefa de Óbidos. A professora explica, por isso, que desde cedo batalham para os alunos dominarem bem os conceitos básicos da disciplina. Contudo, alerta que o trabalho que fazem vai muito além disso.

Aqui “trabalha-se a auto-estima”. “O que a escola pretende é dar oportunidades à medida do que cada aluno é capaz”, diz Isabel Fevereiro, que garante que a experiência que teve a dar aulas noutros países mostrou que não há “fórmulas mágicas” e que temos de lidar com a realidade portuguesa: “Estes meninos não são finlandeses. São portugueses e normalmente têm pouca autonomia.”

Além das tradicionais aulas de apoio, a escola disponibiliza tutores para alguns alunos que precisam de uma orientação que vai para lá da matéria. “Um determinado aluno que desde pequeno é habituado a que não é capaz e que não sabe tem problemas de auto-estima tremendos”, insiste a professora, que assegura que no agrupamento se tenta trabalhar com todos os casos — mesmo que esse sucesso não apareça em rankings.

“Podíamos focar-nos nos exames votando ao insucesso escolar uma parte significativa dos nossos alunos”, afirma Jorge Nascimento, frisando que na escola essa nunca foi a estratégia. “Não esquecemos os outros alunos e arranjamos também alternativas para eles. Ninguém sai daqui sem a escolaridade completa”, diz o director.

Beatriz Oliveira assegura que esta abertura da escola não é uma fachada. “A nossa voz pode ser ouvida”, insiste. Aliás, a aluna tem um concerto especial em preparação. Ouviu falar de um projecto no Quénia em que são construídas escolas para meninas órfãs. Falou com a direcção e propôs um evento solidário para angariar fundos. A ideia foi aprovada. Há também iniciativas noutras áreas, como torneios desportivos. “Só esta possibilidade de ter uma ideia e de a transformar em algo é muito cativante”, reconhece Beatriz.

Veja a lista ordenada das escolas