Marcelo contraria Maria Luís, diz que o Governo vai bem na banca

Presidente da República negou, ponto a ponto, as críticas da vice do PSD sobre a situação da banca. Dá notas boas ao Governo. E pede agora foco no médio prazo.

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O Presidente saiu uma vez mais em defesa do Governo Enric Vives-Rubio

É mais um palmo de terra sobre o PSD, desta vez nas críticas que a vice-presidente de Passos Coelho fez sobre a banca. Ontem, de regresso por uns minutos aos microfones da TSF, Marcelo Rebelo de Sousa saiu em defesa do Governo na gestão dos problemas do sistema financeiro e sacudiu as farpas de Maria Luís Albuquerque no processo da Caixa Geral de Depósitos. 

Em entrevista ao Jornal de Negócios publicada ontem, a antiga ministra das Finanças afirmava que, "de momento, o Governo não está de todo a resolver [os problemas]. Aquilo a que estamos a assistir no sistema financeiro é um enorme ruído, uma enorme instabilidade. O caso da gestão da Caixa dá para escrever um manual do que não fazer. Está tudo errado”.

O chefe de Estado discorda. “Há que reconhecer o mérito do Governo e dos agentes, em particular o Banco de Portugal, que tiveram de equacionar tudo ao mesmo tempo”, afirmou o Presidente da República numa breve entrevista à TSF, durante uma visita às novas instalações do grupo Global Media nas Torres de Lisboa. Marcelo recordou como, no início do ano, havia “vários problemas no sistema financeiro”, com bancos em dificuldades e em resolução, a percepção da necessidade de recapitalização da CGD e a sua gestão em fim de mandato. “Houve ali tempos, entre Abril e o Outono, em que acompanhei com atenção e preocupação” a situação da banca e “o encaixe das peças, pois bastava que uma não encaixasse para prejudicar" o resto.

É certo que Marcelo também não gostou do barulho em torno dos problemas da Caixa. “A concentração do debate sobre o estatuto da gestão [da CGD] antes de se debater a reestruturação e a recapitalização, acabou por criar um ruído que se prolongou alguns meses e apagou o que era essencial”, lamentou sobre o processo. “Teve problemas de percurso, como o Governo já reconheceu e eu já reconheci”, disse.

Mas quanto ao processo de reestruturação do banco público, tem uma ideia muito diferente da da vice do PSD. Onde Maria Luís vê um “problema sério de transparência” porque, acusa, “o Governo optou por divulgar [a reestruturação] a partir dos jornais em parcelas” em vez de responder aos pedidos feitos pelo PSD no Parlamento, Marcelo enaltece a “serenidade e maturidade” já revelada pelos portugueses “para garantir a estabilização do sistema financeiro”.

“É verdade que os portugueses não têm noção do que são estes planos, vão conhecendo aos poucos”, disse o Presidente. Mas isso porque, sublinhou, “em nenhum país do mundo [...] nenhum banco consegue eficazmente fazer uma reestruturação estando ao mesmo tempo a debater na praça pública se despede aqui, se fecha ali, se reduz acolá. É complicado para os próprios gestores”, afirmou.

Mas no final, diz Marcelo, está tudo a bater certo: “Globalmente espero que estejamos agora a entrar no último ciclo desta estabilização do sistema financeiro”. Independentemente do método, criticado por Maria Luís Albuquerque: “Nós não concordamos com essa estratégia […] [d]a interferência do Estado naquilo que são negócios de privados. O papel das autoridades é fazer a supervisão e a regulação, mas aquilo que é o papel dos accionistas privados e as suas questões devem ser resolvidas entre si”.

Os elogios ao Governo não se ficaram pelas questões da banca. Para “matar saudades” do que fazia na TSF nos anos 90, Marcelo ainda atribuiu umas notas, não aos partidos e aos líderes, mas ao país. E a avaliação global é de Bom, como afirmou: 19 para o prestígio internacional, 15 para o cumprimento dos compromissos, 17 para o que Portugal pode vir a ser no futuro. Suficiente, “entre o 11, 12 ou 13”, só a saída da crise e as assimetrias sociais.

Tempo ainda para um conselho deixado à concertação social: o Presidente insiste que é preciso um acordo amplo de médio prazo, para além da discussão sobre o salário mínimo, que garanta a “estabilização social duradoura”. Porque, afinal, também os parceiros “precisam de estar ligados às bases”, sobretudo em vésperas de congressos da CIP e UGT.

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