Comentário

De luto profundo

A Cornucópia foi, ao longo dos anos, “o teatro nacional” que não havia (e haverá agora?). Perante o seu fim, é todo um sistema que está em causa.

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A Vida é um Sonho, de Calderón de la Barca, na encenação de Luís Miguel Cintra para o Teatro da Cornucópia, em 2003 DANIEL ROCHA

Perante a notícia fatal de que o Teatro da Cornucópia termina este sábado a sua actividade de 43 anos, a primeira reacção não pode deixar de ser dolorosamente atónita: não, não é possível. E, no entanto, tudo, ou quase, leva a crer que sim.

De facto, há já alguns anos que a mais importante companhia teatral portuguesa estava com notórias dificuldades, dados os cortes de financiamento, levando-a a reduzir-se a um núcleo fixo de apenas quatro pessoas e a estar na prática dependente de co-produções, que as houve com o Teatro Nacional de São João do Porto, o São Luiz Teatro Municipal em Lisboa e a Companhia de Teatro de Almada – mas não, note-se, com o Teatro Nacional D. Maria II, que para todos os efeitos lhe voltou as costas.

E nestes últimos anos aquilo a que assistimos foi a uma atitude de resistência – sim, resistência – por parte da companhia, por exemplo, e dado que tem no seu Teatro do Bairro Alto instalações que permitem a conservação de cenários e figurinos, recorrendo de novo aos mesmos artefactos.

A Cornucópia era simultaneamente uma pequena unidade de produção e uma “grande companhia” na montagem concreta de cada espectáculo – com os custos inerentes. “Grande companhia” que, está dito e redito mas tem ainda de se repetir, foi ao longo dos anos “o teatro nacional” que não havia (e haverá agora?) no extensíssimo rol de imprescindíveis textos clássicos (noção que alberga contemporâneos como Heiner Müller, Beckett ou Genet) de que nos permitiu fruir, dos que, como eu, foram acompanhando o percurso desde a fundação, em 1973, aos muitos e muitos que ao longo do tempo se juntaram.

“Formámo-nos” como espectadores com a Cornucópia, ela tornou-se uma parte integrante das nossas vidas.

Por fim, a companhia foi vencida pelo sistema de apoios institucionais às artes do espectáculo. Sim, ao longo dos anos a Cornucópia foi “generosamente” subsidiada, como nenhuma outra companhia ou grupo, mas os cortes nestes anos de austeridade acabaram por ser fatais. E não foram apenas os montantes.

Os concursos públicos de atribuição de subsídios pela DGArtes regem-se por um suposto igualitarismo demagógico, como se todas as candidaturas apresentassem o mesmo currículo. Se se pondera uma qualquer excepcionalidade logo há o grito “aqui d’el rei” do corporativismo vigente. Ora, é simplesmente inaceitável que de quatro em quatro anos uma companhia como a Cornucópia tenha de apresentar provas de trabalho feito e capacidades!

É pois um sistema que está em causa e quanto a ele há responsabilidades políticas da tutela. Ironia desta situação: o fim da companhia ocorre quando os governantes da tutela, o ministro Castro Mendes e o secretário de Estado Miguel Honrado, sabem bem, porventura até melhor do que todos os seus antecessores, a importância decisiva da Cornucópia na actividade artística e cultural do país. Mas também por isso, fique bem claro, os consideraremos co-responsáveis políticos se não for adoptado um outro modelo institucional de apoios, que inclusive, oxalá, possa ainda permitir à Cornucópia retomar a sua actividade.

Não, apesar de tudo, não queremos acreditar que esta perda é irreparável. Mas perante os factos não podemos deixar de estar de luto profundo.