Deslocados yazidi em fuga do Daesh junto a Sinjar, no Iraque
Deslocados yazidi em fuga do Daesh junto a Sinjar, no Iraque Rodi Said/Reuters

Genocídio: Os yazidis querem ter futuro

Povo de uma religião milenar concentrado no Iraque, os yazidis já são menos de 800 mil. Há séculos que são perseguidos por radicais, poucos com a eficácia do Daesh. Waad tem 13 anos e não sabe se a sua comunidade vai sobreviver.

Os yazidis são um grupo religioso com milhares de anos, há séculos concentrado no Norte do Iraque. A sorte ditou que se reunissem ali, na região de dezenas de etnias e confissões. É por causa dos yazidis – e dos católicos caldeus, dos cristãos coptas, dos mandeus e dos curdos e dos muçulmanos, dos árabes e dos turquemenos, dos sunitas e dos xiitas – que o Iraque é o que é.

Os radicais sempre olharam de lado para os yazidis, etnicamente curdos (consideram-se os primeiros curdos; os curdos vêem-nos como uma minoria religiosa da sua comunidade) e com ritos que envolvem dar nós em tiras de cetim e pedir desejos, como hereges. Diferentes e, por isso, assustadores. Basta visitar o Monte Sinjar ou Lalish, o principal santuário dos yadizis, para perceber que os yazidis não metem medo a ninguém.

Lamiya al-Bashar Taha e Nadia Murad, que acabam de receber o Prémio Sakharov 2016 para a Liberdade de Pensamento (atribuído pelo Parlamento Europeu), são doces e frágeis. Vestidas de blusa e saia preta, meias da mesma cor, parecem ainda mais magras.

Lamiya passou quase dois anos nas garras do Daesh e dos homens a quem os jihadistas a venderam como escrava sexual. Fugiu quatro vezes e foi sempre capturada. Na fuga final, em Março, uma mina desfigurou-lhe o rosto. Tem 18 anos. Nadia tem 23 e conseguiu fugir três meses depois da captura. “Quando eles chegaram separaram as mulheres mais velhas, que decidiram que não serviam, e mataram-nas. Mataram a minha mãe”, contou no discurso de aceitação do Prémio Nadia, que lidera uma campanha para que os crimes dos extremistas contra os yazidis sejam considerados um genocídio.

“As valas comuns estão todas lá, à espera que alguém chegue para recolher os restos e contar as vítimas”, diz Nadia, exausta, numa conversa em Estrasburgo, onde ambas se desdobraram em entrevistas. Foram as duas levadas no mesmo dia: 3 de Agosto de 2014, quando o Daesh entrou na sua aldeia, Kocho, depois de ter vindo da Síria para tomar largas zonas do Norte do Iraque.

Foi nesse dia que tudo começou. “Foi horrível perceber que os nossos vizinhos, que sempre tinham convivido connosco, foram os primeiros a atacar-nos. Mataram muitos dos nossos homens. Precisamos de ajuda para voltar a confiar”, diz Lamiya.

Lamiya esteve em Lisboa em Junho, muito pouco depois de ter sido levada para a Alemanha pelo psiquiatra Mirza Dinnaye, que dirige um programa com a região alemã de Baden-Württemberg que já permitiu que 1100 yazidis fizessem a mesma viagem. “Tivemos muita sorte”, diz Nadia. Nos campos, no Curdistão iraquiano, as sobreviventes como elas não têm a psicoterapia e o apoio que elas encontraram na Europa.

No início do Verão, Lamiya era um destroço, mal via do olho esquerdo, que agora recuperou (a vista direita estava perdida), parecia temer cada gesto e cada passo. Não era a mesma menina que levou dezenas de eurodeputados às lágrimas na terça-feira, com um discurso emocionante e político. “Agora não penso nisso, mas sim, ainda quero ser professora”, responde, quando o PÚBLICO lhe pergunta se mantém a vontade de ensinar.

“Quando era pequena queria ser professora de História. Mas também pensava em abrir um salão de beleza para maquilhar como hobby”, diz a bonita Nadia, rosto quase vazio e tez especialmente branca do cansaço e da dureza de estar sempre a reviver. O cansaço de ambas é difícil de descrever – os yazidis, como os católicos e os muçulmanos, jejuam; calha que o façam três dias em Dezembro; calha que esses dias tenham coincidido com o Prémio.

Não somos nós agora

É preciso ir ao passado para as forçar a falar do que pode ser o futuro. Se lhes perguntamos sobre a Alemanha ou um futuro na Europa, se não puderem voltar a casa, a resposta é sempre comunitária. “Não consigo pensar só na minha vida na Alemanha. Eu e a Lamiya não somos só nós. O problema não é nosso como indivíduos mas de toda a comunidade, o problema são as milhares de mulheres e meninas raptadas [mais de 3500 ainda], os sobreviventes e os yazidis no Iraque, com medo de serem mortos.”

Estima-se que haja ainda perto de 500 mil yazidis no Iraque; ao todo, os yazidis são menos de 800 mil – há comunidades na Síria, Arménia, Geórgia e Turquia, de onde muitos emigraram para a Alemanha, como o médico Mirza.

“A nossa religião está em perigo se não protegermos estas pessoas. O problema é de toda a comunidade e nós temos de viver com esse problema. Esse é o nosso futuro agora”, afirma Nadia, que antes do Sakharov recebeu o Prémio Vaclav Havel, foi nomeada embaixadora da Boa Vontade da ONU e nomeada para o Nobel da Paz.

A União Europeia ainda não reconheceu o genocídio, mas o Parlamento Europeu pediu aos estados-membros para o fazerem em Fevereiro. Esta quinta-feira, o PE vai votar “uma resolução onde se pede financiamento para uma missão de recolha de provas e outras medidas para acelerar o processo”, explica Ulrike Lunacek, eurodeputada dos Verdes austríacos e vice-presidente responsável pela Rede Sakharov. As Nações Unidas já reconhecem os crimes do Daesh como “tentativa de genocídio”.

Os yazidis querem o que sempre quiseram, viver em paz entre os outros. Por vizinhança e sobrevivência, os foram assimilando rituais de outros. Têm um Génesis e ritos que já ninguém sabe dizer que vinham de antes. O que os yazidis sabem é que foi por volta do século XVI que começaram a ser considerados “adoradores do diabo”.

Sinjar e Lalish, no Curdistão iraquiano, o extremo norte do país, são as duas zonas de maior concentração yazidi. Sinjar foi a região atacada pelo Daesh em 2014, quando 50 mil chegaram a estar escondidos nas montanhas. Lalish é a Meca dos yazidis, um templo feito de vários tempos; ali perto, na vila de Sariqani, vive o Baba Sheikh, o líder espiritual, que aconselha e abençoa.

Os yazidis têm sete anjos – um com cara de pavão, é o mais importante, chama-se Melek Taus ou Shaytan, e é a ele que rezam cinco vezes ao dia – e fontes e túmulos de profetas e velas que têm de ser acesas antes do pôr-do-sol; assim, o sol, que é sagrado (como a água, a terra e o ar), é celebrado todos os dias. Em Lalish, há duas fontes, a Qania, onde se baptizam, e a Zamzam, como a de Meca.

À direita da entrada principal do templo maior há uma serpente que os yazidis acreditam ter sido usada por Noé para tapar o buraco da arca. Na tradição local, Sinjar é onde a Arca de Noé pousou, depois do dilúvio; para os yazidis, o mundo nasceu em Lalish, logo a seguir.

Os yazidis têm rituais diferentes para dias diferentes mas a quarta-feira, dia em que falámos com Lamiya e Nadia, é o dia sagrado da semana. Lalish, que se deve percorrer descalço, tem seis torres – vistas de cima, formam o sol, a terra e a lua.

Ninguém se pode converter ao yazidismo, nasce-se yazidi e morre-se yazidi, façam os radicais do Daesh o que fizerem. Os yazidis casam entre si, quando há problemas o Baba Sheikh arbitra. Se as famílias são contra um casamento, o Baba Sheikh tenta perceber se os jovens gostam um do outro. “Se estão apaixonados digo-lhes para fugir”, contou ao PÚBLICO em 2010, na casa onde ainda vive.

As pestanas de Waad

Os yazidis têm padres a quem chamam piers e cozem ovos que pintam com cores porque acreditam que a vida vem toda de um ovo. Em 2013, uns sete mil morreram, 5000 foram sequestrados. Em Agosto de 2007, ainda não havia Daesh, camiões explodiram perto de Lalish e mataram entre 500 e 800 yazidis.

“O Iraque pode continuar a existir mas vai ser outro país, sob controlo do Daesh. Mas não vai ser o mesmo sem os yazidis, sem os cristãos, as outras minorias e muitos muçulmanos que não apoiam o Daesh”, diz Nadia, com Lamiya a acenar que “sim”.

Antes da entrevista, estavam as duas a falar com uma televisão, o pequeno Waad, 13 anos mas corpinho de menos, cabelo muito ruivo e pestanas castanhas que brilham quando ele fecha os olhos, sentou-se no lugar delas.

“O teu cabelo tem uma cor bonita. Pintas?”

“Não, é mesmo assim.”

“O que é que vais fazer na Alemanha?”

“Vou para escola.”

Waad é o irmão mais novo de Lamiya. Reencontraram-se na segunda-feira, aqui mesmo. Waad esteve refém do Daesh até um tio o comprar de volta. Passou o último ano e meio num campo no Iraque. O pai foi morto e a mãe está desaparecida, assim como quatro irmãs. Duas irmãs já vivem com Lamiya.

“Não sei o que pode mudar. Já muitos parlamentos de muitos países reconheceram o genocídio, Reino Unido, Canadá, França, mesmo a ONU, mas nada mudou em termos práticos”, lamenta Nadia. “A realidade do nosso povo é igual. Ainda não há futuro para nós.”