Joaquim Sarmento, o cientista engenhoso, faz cem anos

Marcou a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e a engenharia em Portugal durante várias décadas do século XX.

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Joaquim Sarmento em 1944 DR
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Joaquim Sarmento em 2006 DR
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Joaquim Sarmento em 2016 DR
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Inauguração do Estádio das Antas, em 1952 Arquivo FC Porto
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Estudos para o Estádio das Antas DR
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Interior do Mercado de Matosinhos Fernando Veludo
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Interior do Mercado do Bom Sucesso Mário Carneiro
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Manuscrito de Joaquim Sarmento DR

Dele dizem que é um cientista-investigador brindado com uma grande capacidade engenhoso-inventiva, um perguntador obsessivo, um experimentador, um ligador de várias disciplinas – enfim, um modelo do engenheiro e um farol da engenharia em Portugal.

Joaquim Sarmento, cuja mão está inscrita nas estruturas materiais de obras reconhecidas no Grande Porto – como o antigo Estádio das Antas, as igrejas das Antas e da Senhora da Conceição, os mercados do Bom Sucesso e de Matosinhos –, mas também em edificações mais ou menos anónimas – fábricas e silos, oficinas e escolas, pontes e barragens… – espalhadas por todo o país, com extensão a Angola, Moçambique e Cabo Verde, faz esta quinta-feira cem anos.

Nasceu no Porto – onde continua a viver –, no dia 15 de Dezembro de 1916, e foi nesta cidade que centrou uma longa carreira que tanto privilegiou o trabalho prático da engenharia como a publicação de livros e ensaios, e o ensino de disciplinas fundamentais desta ciência, nomeadamente Resistência de Materiais e Estruturas de Betão Armado.

“Uma boa parte dos mais distintos engenheiros civis formados em Portugal entre as décadas de 40 e de 80 do século XX aprenderam a sua arte com o engenheiro Joaquim Sarmento”, diz Manuel de Matos Fernandes, que faz parte de uma dessas várias gerações. E “não por acaso” – salienta este professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) –, “a nossa Engenharia de Estruturas ocupa desde há muito lugar de destaque a nível mundial, com diversos prémios internacionais de grande significado”. E cita a recente atribuição do Outstanding Structure Award, “o mais importante prémio mundial de Engenharia de Estruturas”, a dois ex-alunos de Joaquim Sarmento: António Segadães Tavares (2004) e José Mota Freitas (2009).

Luís Valente de Oliveira, que há cerca de meio século foi seu assistente na FEUP, lembra a “sólida formação nos domínios da Matemática, da Física e da Química”, e realça que o seu mestre tomava cada novo projecto que lhe era entregue “como se fosse o primeiro, procurando soluções inovadoras, nunca se contentando com a reprodução de fórmulas rotineiras”.

E se, quando fez 90 anos, Joaquim Sarmento ainda continuava a projectar, Valente de Oliveira nota que o engenheiro “ainda hoje surpreende muitos dos seus amigos pondo-lhes as mais diversas perguntas, mostrando que a sua mente está activa e preocupada com a resolução de problemas de toda a ordem”.

Artur Santos Silva, seu amigo de há muitos anos, salienta também “o professor muito exigente, inteligentíssimo, simples, directo, frontal e ímpar pedagogo”, colocando-o ao lado de Correia de Araújo e Armando Campos e Matos na construção do “prestígio da Escola de Engenharia do Porto”.

Director da FEUP

Joaquim Sarmento licenciou-se na FEUP em 1939, com 17 valores, tornando-se assistente na mesma faculdade logo no ano a seguir. Em 1944, defendeu a sua tese de doutoramento sobre betão pré-esforçado; e em 61 tornou-se professor catedrático na FEUP, que viria a dirigir em 1973-74. “Era tal a sua credibilidade e o seu prestígio que, sendo director da faculdade em Abril de 74, ninguém ousou usar a demagogia para o atingir”, nota o presidente da Fundação Gulbenkian.

Na segunda metade da década de 50, Joaquim Sarmento fora inspector superior de obras públicas do Conselho Superior do Fomento Ultramarino.

Jubilou-se em 1986 e, no ano seguinte, foi distinguido com o Prémio de Investigação Manuel Rocha, pelo LNEC. Já arredado da prática profissional, em 2003 foi o primeiro engenheiro português a ser distinguido com o Prémio Leonardo Da Vinci, pela Sociedade Europeia para o Ensino da Engenharia (SEFI).

Ao longo da sua longa carreira, tanto prática como universitária – assinala Matos Fernandes – “combinou, como talvez nenhum outro da sua geração, a faceta de ‘cientista-investigador’ com a de ‘engenhoso-inventivo’”. O professor da FEUP (e coordenador do livro lançado recentemente Ponte da Arrábida. Monumento Nacional) refere que Joaquim Sarmento era “dos muito poucos cuja opinião Edgar Cardoso, na sua proverbial auto-suficiência, muito respeitava e escutava com profundo interesse”.

Questionado sobre a sua relação com o engenheiro das pontes da Arrábida e São João, em entrevista à revista Engenharia & Vida, n.º 1 (Abril de 2004), Joaquim Sarmento admite que Edgar Cardoso, que classifica como “um génio da engenharia portuguesa”, “talvez tivesse alguma contemplação com as [suas] dúvidas e objecções”, como quando o questionou, numa visita à Ponte de São João em construção, sobre a utilização de aço revestido a betão em vez de betão armado, e os riscos de corrosão futura que essa solução acarretaria.

No final da década de 90, Joaquim Sarmento saiu do recato da sua reforma para se manifestar, ao lado de Artur Santos Silva e outras figuras do Porto, contra a construção do molhe na Foz do Douro. “Opusemo-nos então a que fosse executado um projecto de construção de um gigantesco molhe na Foz do Douro, que iria destruir um nosso ícone”, recorda o banqueiro portuense, realçando a importância da orientação do engenheiro nessa “batalha cívica”.

Na entrevista atrás citada, Joaquim Sarmento confessava o seu gosto pelo desenho. “Em vez de desenhar para o desenhador produzir, fazia-o com algum cuidado já para servir de plano de execução nas obras”, explicava. E citava as suas intervenções no (já desaparecido) Estádio e também na Igreja das Antas e nos mercados do Bom Sucesso e de Matosinhos como momentos relevantes da sua carreira.

Elogiando a evolução da engenharia e também da arquitectura em Portugal, citava o Estádio Municipal de Braga, do arquitecto Eduardo Souto de Moura, como “uma obra notabilíssima de engenharia” (de Rui Furtado): “Mostra uma capacidade de intuição e realização, com muitos recursos, não só técnicos e teóricos, como também de imaginação, criatividade”.

Já sobre Álvaro Siza, dizia que preferia os desenhos – “é primoroso a desenhar”.

Na sua vida privada, e nos intervalos da engenharia, Joaquim Sarmento cultivava vinha e produzia mel na sua propriedade entre o Marco de Canavezes e Amarante. Foi um exímio jogador de golfe. E prefere a música de Ravel à de Bach. “As composições do Ravel são celestiais, muito bonitas. O Bach também, mas é passado, apesar de a Tocata e Fuga fazer vibrar as estruturas das igrejas”, como quando a ouviu tocada na Catedral de Notre-Dame, em Paris.