Galileu, o GPS da Europa, começou a funcionar

O sistema de navegação por satélite europeu tem agora 18 satélites e começou a fornecer os primeiros serviços. Em 2020, terá um total de 30 satélites e, nessa altura, totalmente operacional.

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A constelação de satélites Galileu ESA/P. Carril

A Europa lançou esta quinta-feira os primeiros serviços do seu sistema de navegação por satélite, o Galileu, que estão disponíveis gratuitamente. O “GPS europeu”, um projecto de dez mil milhões de euros que foi lançado em 1999 pela União Europeia, só estará totalmente operacional em 2020. Para já, as primeiras funções activas e acessíveis para o cidadão comum são apenas para um punhado privilegiados que usam o único smartphone no mercado preparado para o Galileu.

Mas no arranque das operações, o Galileu garante “operações de busca e salvamento de emergência, serviços de navegação mais exactos para telefones inteligentes (smartphones) preparados para o Galileu ou para sistemas de navegação nos automóveis, melhor sincronização temporal para infra-estruturas críticas e serviços completamente encriptados para autoridades públicas”.

O lançamento oficial do sistema que promete uma geolocalização dez vezes mais precisa do que as soluções já existentes (alimentadas pelo sistema GPS norte-americano) decorreu esta quinta-feira numa cerimónia da Comissão Europeia, em Bruxelas.

“É uma grande conquista para a Europa (...) Nenhum país europeu poderia ter feito isto sozinho”, disse a comissária europeia para a Indústria, Elzbieta Bienkowska, citada pela agência noticiosa AFP. “O Galileu, o sistema de navegação por satélite mais preciso do mundo, é uma realidade”, congratulou-se.

Por enquanto, para qualquer um de nós aceder aos serviços do Galileu é preciso um smartphone compatível. E, para já, só existe um, o X5 Aquaris Plus, produzido pela empresa espanhola BQ, e que está no mercado desde o Outono. Os possuidores deste aparelho serão os primeiros a usar o GPS europeu gratuito para, por exemplo, encontrar uma farmácia, a melhor rota para ir de férias ou ajustar seu passo na maratona.

O número de aparelho compatíveis – a “bola” está agora do lado das empresas que os produzem – deverá aumentar progressivamente em pouco tempo. Resta esperar. Em 2018, a Comissão Europeia espera que todos os novos veículos automóveis vendidos na Europa venham equipados com receptores Galileu. “A geolocalização está no centro da revolução digital em curso com novos serviços que estão a transformar as nossas vidas”, disse esta quinta-feira Maros Šefcovic, comissário europeu de Energia, também citado pela AFP.

Mas o Galileu não é acessível apenas por smartphone. “Já existem vários fabricantes de chips, como Broadcom, Mediatek, STM, Intel, Qualcomm e uBlox, que produzem chips compatíveis com o Galileu. No entanto, cabe às empresas optar por esses chips e disponibilizar esta opção nos seus produtos e dispositivos, como smartphones, dispositivos de navegação, etc.”, esclarece Mirna Talko, do gabinete de imprensa da Comissão Europeia, em resposta ao PÚBLICO. A responsável adianta ainda que “há uma lista cada vez maior de dispositivos compatíveis com o Galileu e chips que estão disponíveis hoje e que pode ser consultada em www.useGalileo.eu”. 

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ESA/P. Carril

Mais tarde mas melhor

O sistema europeu vai concorrer com o GPS norte-americano, o Glonass russo e o Beidou chinês, que estão em funcionamento. O Galileu chega mais tarde mas promete mais precisão na localização. Para o cidadão, o Galileu vem com a promessa de um serviço gratuito no “sector do posicionamento, navegação e cronometria, que pode ser usado por circuitos integrados compatíveis com o Galileu em telemóveis inteligentes ou em sistemas de navegação para automóveis”, refere um comunicado da Comissão Europeia.

Em 2018, o Galileu estará instalado em todos os novos modelos de automóveis vendidos na Europa, o que permitirá “fornecer serviços de navegação de maior qualidade para serem utilizados por diversos dispositivos e lançar o sistema de resposta de emergência eCall”. “Os utilizadores de dispositivos de navegação nas cidades, onde é frequente que os sinais de satélite sejam bloqueados pelos edifícios altos, irão beneficiar particularmente do aumento da precisão de posicionamento permitida pelo Galileu”, refere o mesmo documento.

Um dos serviços gratuitos inovadores lançados esta quinta-feira diz respeito ao apoio às operações de emergência de busca e salvamento: uma chamada de socorro será visível em tempo real, a partir de qualquer local do mundo.

“Actualmente, são precisas horas para encontrar uma pessoa perdida no mar ou na montanha. Com o serviço de busca e salvamento (SAR), é possível encontrar e salvar mais rapidamente alguém que peça socorro a partir de uma baliza de emergência compatível com o Galileu, uma vez que o tempo de detecção será reduzido para apenas dez minutos.” Este serviço deverá ser posteriormente melhorado, passando o autor da chamada de emergência a receber uma notificação de que foi localizado e de que a ajuda vai a caminho, acrescenta o comunicado.

A CE promete ainda uma "melhor sincronização temporal das infraestruturas fulcrais". E explica: "com os seus relógios de alta precisão, o Galileo permitirá uma sincronização temporal mais eficaz das operações bancárias e financeiras, das telecomunicações e das redes de distribuição de energia, como as redes inteligentes, que poderão funcionar, assim, de forma mais eficiente". O Galileo deverá ainda garantir "serviços seguros para as autoridades públicas". Neste caso, o apoio do sistema poderá servir para serviços de proteção civil, serviços de ajuda humanitária, funcionários das alfândegas e polícia, através do serviço público regulamentado. "Proporcionará um serviço inteiramente cifrado e particularmente sólido aos utilizadores governamentais durante emergências nacionais ou situações de crise, como ataques terroristas, a fim de assegurar a continuidade dos serviços", diz a CE.

No arranque, a precisão do Galileu não será a ideal e o sinal não estará disponível o tempo todo. Actualmente com 18 satélites, todos já em órbita, o Galileu deverá contar até 2020 com uma constelação de 30 satélites, estando previsto o lançamento dos restantes 12 ao longo dos próximos anos. Só daqui a três anos, o sistema de navegação europeu – que quis pôr fim à dependência do sistema norte-americano GPS (de origem militar) – deverá atingir a sua plena capacidade operacional.

Todo o programa Galileu é gerido pela Comissão Europeia, que delegou na Agência Espacial Europeia (ESA) a responsabilidade pelo desenvolvimento do sistema e pelo apoio técnico às tarefas operacionais.