O sobrevivente de Auschwitz, o sobrinho ministro e o Dalai Lama

Uma polémica protagonizada pelo Presidente da República Checa, Milos Zeman.

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Presidente Milos Zeman viu-se envolvido em polémica que sugere subserviência face à China David W Cerny / Reuters

No fim do Verão, o checo Jiri Brady, que a seguir à II Guerra Mundial se mudou para o Canadá e adoptou o nome de George, recebeu um telefonema do chefe de protocolo da presidência da República Checa. A chamada era para dar-lhe uma boa notícia. O Presidente Milos Zeman queria homenageá-lo e condecorá-lo com a mais prestigiada distinção do país – a Ordem de T. G. Masaryk. A cerimónia iria ser no Castelo de Praga, sede da presidência, a 28 de Outubro, Dia da Independência.

O velho Jiri Brady, que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz – onde morreram os seus pais e a sua irmã – começou a fazer os preparativos. Apesar dos seus 88 anos, decidiu atravessar o oceano e voar até Praga com a família. Já com os bilhetes comprados, tudo mudou subitamente. Afinal, já não ia ser homenageado. Nos últimos dois meses, muito se especulou sobre a razão da mudança. A mais provável parece ser a de que Zeman quis castigar o ministro da Cultura checo – sobrinho de Jiri Brady – por este se ter reunido com o Dalai Lama contra a vontade expressa do Presidente.

Em Outubro, o Dalai Lama foi a Praga assistir à conferência internacional Fórum 2000, criada pelos “herdeiros” de Vaclav Havel. Quando a polémica estalou, Zeman desmentiu qualquer ligação entre a sua decisão, o Dalai Lama ou a preocupação em não irritar a China. Mas o próprio ministro Daniel Herman disse, numa entrevista à televisão pública: “O Presidente disse-me que, se eu me encontrasse com o Dalai Lama, o meu tio seria retirado da lista – e foi isso que aconteceu”. Herman disse também que a conversa ocorreu durante um banquete oficial e à frente de várias testemunhas. Jiri Brady não cancelou a visita e foi a Praga na data prevista. A polémica deu à sua visita uma projecção invulgar: recebeu medalhas do presidente da Câmara de Praga, do primeiro-ministro e do parlamento.

A visita de Dalai Lama aconteceu meses depois da controversa visita do Presidente chinês. Na altura, houve uma enorme contestação popular e foram hasteadas mais de 700 bandeiras do Tibete em edifícios públicos um pouco em todo o país. E, no momento em que os dois Presidentes se reuniam no Castelo de Praga, um grupo conseguiu projectar uma célebre frase de Vaclav Havel, o primeiro Presidente da República Checa a seguir ao fim do regime comunista. Desenhada com feixes de luz, deu-se então a ler: “A verdade é amor.” Um diplomata que conhece bem o país sublinha que há hoje, na República Checa – e por causa da aproximação à China – um debate muito activo sobre a cedência dos princípios aos interesses económicos.