Torne-se perito Crítica

O épico alucinado de Marlon James

Haja fôlego para este romance que está sempre a arriscar: Breve História de Sete Assassinatos.

<i>Breve História de Sete Assassinatos</i>: como chegar mais perto da verdade através da linguagem
Foto
Breve História de Sete Assassinatos: como chegar mais perto da verdade através da linguagem Neil Hall/reuters

Há pouco mais de um ano, quando o jamaicano Marlon James (n. 1970) venceu o Man Booker Prize 2015 com o extenso e muito ambicioso Breve História de Sete Assassinatos (ed. Relógio d’ Água) especulava-se acerca da sua edição em Portugal. Nenhum editor parecia querer assumir o risco de publicar um livro com mais de 600 páginas de um autor desconhecido por cá, romance com mais de 75 personagens, grande dose de violência, múltiplas vozes a reflectir diversos modos de usar o inglês, com protagonismo para a oralidade, reproduzindo diferentes sotaques e corruptelas, contágios com outras falas, com a música, e um ênfase na gíria de rua e do crime dos guetos de Kingston, capital da Jamaica, onde decorre o núcleo do livro que parte da tentativa de assassinato de Bob Marley, a lenda do reggae, em 1976. De leitura difícil mesmo para os falantes de inglês, Breve História de Sete Assassinatos levantava uma questão polémica, diziam-nos na categoria dos intraduzíveis, ou seja, dos condenados a perder parte significativa da sua essência quando passados a outra língua incapaz de ser fiel aos complexos códigos que o romance explora e sobre os quais assenta. Mas e se ele desafia os próprios códigos da língua em que foi escrito?

O facto é que Breve História de Sete Assassinatos, terceiro romance de Marlon James, acaba de ter edição em português de Portugal numa tradução corajosa de José Miguel Silva. Bastam poucas páginas a quem não se aventurou na leitura do original para perceber estar perante um livro que se estrutura a partir de uma multiplicidade de vozes que se dão a conhecer através de monólogos interiores ou de uma espécie de rumor de consciência, como se tudo partisse de um nível muito íntimo para construir um vasto puzzle que pretende abranger a complexidade de um país — a Jamaica — num dos momentos mais críticos e violentos da sua história recente: as últimas décadas do século passado, sobretudo os anos 70 e 80.

No dia 3 de Dezembro de 1976, véspera de um grande concerto que pretende ser de unidade nacional, em ano de eleições e de aparente viragem política, dois carros param junto à casa de Bob Marley e um grupo de sete — ou mais — homens armados tenta matar o músico. O acto sai falhado mas é apresentado como exemplar de um modo de agir na Jamaica no período pós-independência do Reino Unido, com o país dominado pelo tráfico de armas e droga, a cada vez maior dependência dos Estados Unidos que por sua vez movia influências no desenrolar do jogo político. “O ano de 1976 chegou e com ele vieram eleições. O homem que trouxe as armas pro gueto deixou claro o governo socialista não podia ganhar de novo.” Este é o quadro como o vê Bam-Bam, o rapaz de 15 anos a quem falta vocabulário, órfão que o influente Josey Wales ensina a matar e torna dependente de “branca”. Com Weeper, Demus, Funky Chicken Heckle ele terá a missão de chegar a Marley, aqui sempre nomeado como o Cantor, e aniquilá-lo.

O Cantor não é, no entanto, mais do que o isco ou ponto de partida para Marlon James explorar ou procurar uma verdade acerca da Jamaica onde nasceu. As personagens que constrói são as mais diversas e querem reflectir a deriva. Pequenos delinquentes, assassinos, prostitutas, traficantes, dependentes de coca ou crack, diplomatas, artistas, jornalistas, funcionários da CIA, operários e uma mulher, Nina Burgess - que se revela um elo em toda a trama - desempenham papéis centrais ou satélite no romance que se estende a várias geografias, classes sociais, tipologias de poder e se desenvolve a partir de um gueto ficcionado que o escritor baptizou de Copenhagen City, na grande Kingston.

Quando o escritor põe um jornalista americano, branco, da Rolling Stone atrás de Bob Marley para traçar o seu perfil, quer mais respostas do que aquela que pode servir à pergunta quem é o Cantor real. Quando esse jornalista, Alex Pierce, quer saber a verdade sobre Marley anda também atrás da verdade sobre um país contada a partir do tal gueto de onde saíram os que tinham ordem para matar. “Há um motivo para que os artigos sobre o gueto nunca saiam com fotografias. O bairro de lata do Terceiro Mundo é um pesadelo que desafia todas as crenças ou factos, mesmo os que estão diante dos nossos olhos- Uma visão do Inferno que se torce e retorce sobre si mesma e que curte a sua própria banda sonora. As regras habituais não se aplicam aqui. O que resta é portanto a imaginação, o sonho, a fantasia. Visitas um gueto, sobretudo um gueto de West Kingston, e ele imediatamente abandoa a esfera do real para se tornar numa coisa grotesca, saída de dante ou das pinturas o infernais de Hieronymus Bosh”, escreve Alex Pierce num artigo acerca do qual tem dúvidas imediatas: para quem está a escrever? Que verdade é capaz de contar? É o olhar à distância de Pierce que serve a James para perspectivar o seu próprio olhar acerca de temas como a herança da escravatura, a migração, a diáspora, sobretudo para cidades como Miami ou Nova Iorque, lugares de fuga mas também de expansão do crime, com os jamaicanos a servir de agentes e peões de uma gigantesca rede de tráfico.                       

Lemos Marlon James e assistimos a um desfilar impiedoso de violência, mas também de música. É cru, irónico, trágico. Para melhor o situarem na cultura contemporânea, alguns críticos apresentam-no como tão próximo de Toni Morrison pelo modo como descreve uma identidade colada a um passado de escravatura, como na de Quentin Tarantino na forma com que apresenta um legado de violência. Mas também referem James Ellroy, Don DeLillo ou Junot Díaz ou James Ellroy pela linguagem directa, pelo subterrâneo, pela capacidade de retratar a complexidade de um povo e da sua diáspora e de ao mesmo tempo, enquanto cidadão, ser uma voz de denúncia e envolvimento — ou comprometimento cívico. James vive nos Estados Unidos, é professor em Mineápolis, foi lá que escreveu este romance que foi também um livro de afirmação pessoal e o revelou como voz de muitas causas: a defesa dos direitos dos negros, dos homossexuais, das minorias e da linguagem mais capaz de reflectir toda essa diversidade.

Breve História de Sete Assassinatos é também isso: um ensaio sobre como chegar mais perto da verdade através da linguagem. O vocabulário, a música, a articulação verbal e a síntese de todas as referências de que é capaz cada uma das suas personagens reflecte a tentativa de se aproximar de uma essência. Não é folclore gratuito ou puro exercício de virtuosismo — ainda que haja muito de virtuosismo. É uma procura arriscada por alguém que não cedeu a facilidades e que por certo não escreveu a pensar na internacionalização. Qualquer tradução deste livro está destinada a sair vencida porque o livro foi escrito num inglês cheio de porosidade, de contágios, deturpações; próximo do sonho, mas sobretudo do pesadelo; alucinado e excessivo; corrompido. Ou seja, próximo da falha onde está a Jamaica que Marlon James transforma num épico. Mas não ter este romance noutras línguas — ainda que por vezes soe estranho nelas — seria privar muitos leitores de conhecer Marlon James. Podemos nunca chegar à gíria, a todos os matizes culturais e linguísticos, mas sobra muito ainda para ler.

Sugerir correcção