Adrianna Calvo/ Pexels
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Megafone

Carta ao Pai Natal

Pai Natal, desculpa este meu discurso pessimista. Peço-te que digas não a estes pedidos. Um cão ou um gato não são brinquedos, não se embrulham em caixas, não são resposta aos caprichos dos miúdos ou dos graúdos

Querido Pai Natal:

Calculo que seja uma época de muito trabalho para ti. Já deves estar cansado de ler tantas cartas e tantos pedidos. Brinquedos, smartphones, chocolates, computadores, meias, pijamas e até vouchers para trocar por prendas – aposto que tudo isto faz parte da tua lista de compras.

Escrevo-te para pedir uma coisa. Ou melhor, para pedir que recuses alguns pedidos. Confuso? Passo a explicar. Gostaria muito que recusasses os pedidos de Natal que envolvessem um animal de estimação, sobretudo se falarmos de cães e gatos, daqueles que se vendem nas lojas de animais. Sim, aquele muito fofo e pequenino que a criança lá de casa vai adorar. E que depois vai crescer. Ou que vai fazer xixi e cocó pela casa, como é natural. E roer coisas – caso não seja ensinado e treinado atempadamente.

A minha avó costumava dizer: “Tudo o que é pequenino tem graça”. As pessoas tendem a achar piada aos primeiros xixis e cocós, meio atabalhoados, do pequeno animal. Esquecem-se que o crescimento também acontece ao nível do tamanho dos xixis e cocós. E depois há uma altura em que tudo isto deixa de ter graça e não há orçamento ou disposição para recorrer a um treinador ou a ajuda especializada. A solução passa por tentar despachar o cão. Normalmente isto acontece no Verão, dado que as famílias vão de férias e não têm com quem deixar o animal ou não têm orçamento para um hotel para cães. Assim surge a “desculpa” ideal para praticar o abandono e é nessa altura que os canis e os albergues recebem mais animais recolhidos das ruas.

Por isto, Pai Natal, desculpa este meu discurso pessimista. Peço-te que digas não a estes pedidos. Um cão ou um gato não são brinquedos, não se embrulham em caixas, não são resposta aos caprichos dos miúdos ou dos graúdos. Há imensas lojas que vendem peluches giros e quase tão reais como os cães ou os gatos – e que dão menos trabalho a cuidar. Quando passarem as festas, as emoções natalícias e os ímpetos consumistas, podem pensar se a vossa família se consegue comprometer com uma adopção feliz e responsável de um animal que aguarda pela sua oportunidade num canil ou num albergue. Sim, não precisam comprar. E se há raças que vos encantam: espreitem os sites do canil da vossa área de residência. Aposto que há lá muitos animais “de marca” pura. Cá em casa duas das adopções são de cães de raça, o Friqui (pinscher) e o Kioko (bulldog francês) que tiveram tanta sorte como o Félix (rafeiro). Bom, na verdade a sortuda fui eu, que por eles fui adoptada.

Bom trabalho, Pai Natal!