Torne-se perito

Terminou a batalha de Alepo, uma ofensiva agonizante

Rebeldes aceitam retirar da cidade. Retirada deverá incluir também os civis e poderá começar "nas próximas horas".

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Abdalrhman Ismail/Reuters

Numa área cada vez mais reduzida, com bombardeamentos a matar cada vez mais, e depois de execuções sumárias nas ruas, os rebeldes que lutavam ainda na parte Leste da cidade síria de Alepo aceitaram um acordo com o regime de Bashar al-Assad, dando ao regime a maior vitória numa guerra que desde 2011 deixou mais de 300 mil mortos e metade da população do país deslocada.

O acordo prevê a retirada das cerca de 50 mil pessoas, civis e combatentes, que continuam em Alepo – que incluem grupos rebeldes apoiados pelos EUA, Turquia e monarquias do Golfo e alguns jihadistas que estes não apoiam – para outras zonas da Síria que não são controladas pelo regime, apoiado pela Rússia e pelo Irão.

Há vários dias que a Rússia e os EUA discutiam condições para a retirada dos rebeldes da cidade, mas entre a confusão dos combates, a troca de acusações e a falta de confiança mútua todas as tentativas tinham saído goradas.

Mas apesar das garantias de que nada aconteceria aos rendidos, as preocupações mantinham-se. Primeiro, pelo que lhes poderia ainda acontecer às mãos dos vencedores. Todos os que de algum modo poderiam ser associados à oposição tinham tido medo de sair: eram as famílias dos combatentes, os activistas, os médicos, os jornalistas, mas também os homens em idade de combater – centenas foram recrutados pelo Exército. “Não posso partir porque como trabalho na área da saúde sou, aos olhos do regime, uma terrorista”, disse ao jornal Guardian uma enfermeira que viu morrer nos bombardeamentos dos últimos dias o pai e um irmão. “Mas também não posso perdoar. É melhor que Deus me mate do que ter de viver na humilhação de viver sob aqueles que mataram a maior parte da minha família e dos meus vizinhos.”

Um receio a que as Nações Unidas dão crédito, dizendo ter recebido informações de execuções de dezenas de civis nos bairros conquistados à oposição. “As pessoas estão a ser mortas na rua quando tentam fugir e a ser mortas nas suas casas”, denunciou Rupert Colville, porta-voz do Alto Comissariado para os Direitos Humanos, explicando que foram recolhidos indícios concretos da morte de pelo menos 82 civis nos últimos dois dias, entre eles 11 mulheres e 13 crianças. Esses são aqueles sobre quem há informação. “Podem ser muitos mais.” Entre os responsáveis, Colville apontou o grupo Harakat al-Nujuba, uma milícia xiita iraquiana que combate ao lado do Exército de Assad.

Já antes, Jan Egeland, conselheiro humanitário da ONU, tinha acusado os aliados do regime de “massacrar civis desarmados, homens, mulheres, crianças, trabalhadores humanitários”, avisando Damasco e Moscovo que “serão responsáveis” pelas atrocidades cometidas nos territórios que controlam. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acusou Egeland de não saber o que se passa realmente no terreno. “Se soubesse, olharia para as atrocidades que estão a ser cometidas pelos grupos terroristas.”

Mas os receios não têm apenas a ver com a vingança dos vencedores. Têm também a ver com a alternativa que foi dada aos combatentes e civis: a Rússia diz que a escolha do local para onde ir será das próprias pessoas, mas o mais provável, diz o diário britânico Guardian, é que estas sejam encaminhadas para a província de Idlib, território dos islamistas da antiga Frente al-Nusra, o grupo com ligações à rede terrorista Al-Qaeda. Os deslocados de Alepo vão assim não só viver sob um grupo islamista, como continuar a ser alvo de bombardeamentos da aviação russa.

O final do apertar do cerco

O dia de terça-feira foi o final de uma tensão agonizante em que a zona controlada pelos rebeldes se foi estreitando, de tal modo que os bombardeamentos eram cada vez mais eficazes por atingirem zonas com maior concentração de pessoas.

Daqueles três quilómetros quadrados de miséria que restaram chegavam relatos desesperados, frases de gente que, entre o terror da morte e o medo da captura, se despedia do mundo – o mundo que, cansado por cinco anos de guerra, esboça apenas reacções indignadas. Impotentes, as Nações Unidas, a Cruz Vermelha, a UNICEF pediam ainda que se salvasse a vida dos milhares que estavam encurralados pelos combates, que tiveram medo de fugir ou simplesmente não tiveram como o fazer. Jens Laerke, porta-voz do gabinete de coordenação humanitária da ONU foi categórico: as horas finais do cerco aos rebeldes no Leste de Alepo assemelharam-se “ao colapso total da humanidade”.

Eram apenas alguns bairros e umas quantas ruas que separavam nesta terça-feira o regime de Bashar al-Assad de um triunfo estratégico e simbólico que começou a tornar-se inevitável quando, em Julho, o Exército cercou toda a metade Leste da cidade, desde 2012 em poder da oposição.

A vitória podia ser declarada “a qualquer momento”, disse um porta-voz militar sírio à Reuters numa ronda pelos bairros capturados na véspera, quando as defesas dos rebeldes ruíram e perderam em poucas horas o território que ainda detinham.

Uma inevitabilidade que também se tinha anunciado do outro lado da linha de combates. “Estamos aterrorizados. Já só sobram cinco bairros e o regime está a pensar invadir o que resta e prender-nos a todos”, disse ao Guardian um jornalista de Alepo que passou os últimos anos a documentar a morte de civis na cidade e que, por isso, teme agora fugir para as zonas controladas pelo Exército.

Enquanto isso, no Oeste de Alepo, grupos de pessoas saíram à rua na noite anterior para festejar a anunciada vitória de Assad (os rockets dos rebeldes mataram 130 pessoas naquela parte da cidade no último mês).

Mas a vitória de Alepo está longe de ser o final da guerra. “O esmagar de Alepo, o efeito aterrorizador, o derramamento de sangue de homens, mulheres e crianças, toda a destruição – e não estamos nem perto de resolver este conflito”, disse o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos Zeid Ra’ad al-Hussein.

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