Escassez de água na barragem do Roxo faz com que a que chega às torneiras de Beja e Aljustrel saiba mal

Cerca de 35 mil habitantes de Beja e Aljustrel voltam a receber água com sabor a terra e cheiro a mofo. Estação de tratamento não está preparada para anular algas e odores desagradáveis.

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Nuno Ferreira Santos

Nos primeiros dias de Dezembro, a reserva de água na albufeira do Roxo rondava os 14 milhões de metros cúbicos, 14,5% da sua capacidade máxima de armazenamento que é de 96 milhões. As afluências à barragem que abastece Beja e Aljustrel têm sido muito reduzidas e, no que é uma situação anómala nesta altura do ano, verifica-se uma perda de qualidade da água - sobretudo ao nível do cheiro - que chega às torneiras de cerca de 35 mil consumidores que, ciclicamente se queixam dos odores desagradáveis.  

Este fenómeno, que tem sido recorrente nas épocas estivais e é resultante do baixo nível de armazenamento na albufeira do Roxo, estendeu-se agora ao período Outono/Inverno pelas mesmas razões. A empresa Águas Públicas do Alentejo, S.A. (AgdA), responsável pelo fornecimento de água em alta aos dois concelhos, questionada pelo PÚBLICO, confirma o óbvio: “Não é o primeiro ano em que tal situação ocorre”.  

A empresa imputa as causas dos odores desagradáveis à actual Estação de Tratamento de Água (ETA) do Roxo, alegando que o equipamento “obsoleto” que recebeu da Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Beja em 2009 “não está tecnologicamente preparado” para anular o cheiro e o sabor desagradáveis que “forçosamente chega à água distribuída", assinala.

À medida que o nível do armazenamento desce, a qualidade da água vai-se degradando, forçando a AgdA a alterar o local de captação, recorrendo a uma jangada em busca de locais na albufeira onde possa haver água de melhor qualidade. Esta situação deve-se à “proliferação de microalgas, cianobactérias e actinomicetes na água da albufeira”, responsáveis pelo cheiro a terra e sabor a mofo na água para consumo humano, explica a empresa.

O relatório síntese do Plano de Ordenamento da Albufeira do Roxo refere que uma das principais fontes de poluição difusa que aflui à reserva de água “tem origem agrícola, resultante de práticas fitossanitárias e de adubação de culturas de regadio e outras” que se praticam a montante. Também o pastoreio de animais na área da bacia hidrográfica do Roxo “constitui uma fonte importante de nutrientes, matéria orgânica e microbiológica que drenam para a albufeira”. Estes constrangimentos assumem maior impacto nos períodos em que o volume da albufeira “está mais baixo.”

Confrontada com a eventual necessidade de recorrer à transferência de água de Alqueva para melhorar a qualidade da água bruta da albufeira do Roxo, a AgdA alega que os volumes armazenados “são suficientes para largos meses de abastecimento”, deixando subentendido que não vai pedir reforço de água, salientando que essa opção compete à Administração Regional Hidrográfica do Alentejo (ARHA).

A Associação de Beneficiários do Roxo (Abroxo) é, para além da ARHA, a entidade que pode solicitar o reforço do caudal a partir de Alqueva destinado ao regadio. António Parreira, presidente da Abroxo, acusa a AgdA de estar a utilizar a água da albufeira “sem pagar um tostão” pelos cerca de 4 milhões de metros cúbicos que retira anualmente para assegurar o abastecimento público, lembrando que este volume de água “ é pago pelos agricultores da associação”. O dirigente associativo admite, caso o Inverno não traga afluências que garantam o regadio do próximo ano, poder vir a requisitar água, mas só no período entre Abril e Junho.

Até lá o abastecimento público continuará a ser assegurado a partir de uma reserva de água de má qualidade. A AgdA garante que estão a ser tomadas medidas para que seja “minimizada a situação”, designadamente através da monitorização do controlo da qualidade da água direccionado, sobretudo, para os parâmetros organolépticos (cor, cheiro e sabor) da água, recorrendo à “substituição do tipo de carvão activado utilizado” para combater os odores da água que passa ainda por “maior afinação nos sistemas de decantação e filtração.” Informação idêntica foi prestada pela empresa em Agosto de 2015, na sequência de um episódio idêntico.

A solução, reconhece a AgdA, passa por “dotar a ETA de tecnologia adequada para tratar este tipo de problemas.” Neste sentido, foi lançado um concurso público no início deste ano e já foi “adjudicada e iniciada a empreitada no valor de um milhão e cento e vinte mil euros”. As obras irão decorrer durante seis meses. Entretanto os consumidores vão continuar a recorrer à água engarrafada, dada a descrença que mantém sobre a que recebem em suas casas através da rede pública de abastecimento. O vereador da Câmara de Beja, João Oliveira, diz que o município está a acompanhar a situação, mas reconhece que “a qualidade (organoléptica) da água ainda não é inteiramente satisfatória”.