Erol Ahmed/Unsplash
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Ser biológico não chega, é preciso consumir menos

No meio de tudo isto o importante seria, não aplaudir o que é claramente uma decisão de negócio, mas sim perceber finalmente onde se encontra a raíz do problema

Como forma de aproveitar o que é cada vez menos um mero nicho de mercado, a Sonae inaugurou recentemente um supermercado de produtos biológicos. Mais um entre vários do género.

Na altura em que os pesticidas não estavam disseminados como agora, a agricultura era simplesmente agricultura. Entretanto deu-se a sua mecanização e a invenção dos DDT, por alturas da Segunda Guerra Mundial. E como é típico do modelo social em que vivemos, primeiro utilizaram-se indiscriminadamente os pesticidas e só depois, muito depois, com a publicação de “Silent Spring”, de Rachel Carson é que surgiu a preocupação com os efeitos na saúde e no ambiente. Nessa altura, a agricultura já era acima de tudo cultivo intensivo e artificial, algo que se agravou e hoje a maior parte das culturas são compostas por soja e milho, destinadas à alimentação animal. Portanto, é no consumo de carne, sobretudo no de vaca, que está o ónus do sistema agrícola dominante e dos resultados que conhecemos.

Daí que, numa escala global a agricultura biológica não poderá ser a solução para produzir quantidades obscenas de soja destinada a farinhas animais ou mesmo a alimentos processados. A alternativa que tem surgido para combater, não tanto a gigantesca pegada ecológica da produção de carne, mas antes as preocupações éticas e de saúde dos consumidores, são os produtos animais “free range”. Teoricamente esta modalidade implicaria que os animais beneficiassem duma vida natural semelhante à dos animais de pasto, quando na realidade o tratamento que sofrem e a alimentação que ingerem não é diferente, excepto no facto de não ingerirem antibióticos.

Por mais pesticidas verdes que se utilizem, supermercados que abram e certificações biológicas que se inventem, a agricultura biológica também não será a solução para resolver todos os problemas causados pelo excesso de produção agrícola destinada à alimentação humana. Não só porque geralmente os produtos biológicos viajam distâncias tão grandes ou maiores do que os de produção “regular”, como também por os solos continuarem a erodir principalmente porque, biológica ou não, a produção está totalmente massificada e o lucro é ainda o interesse primordial. É preciso també não esquecer que é permitida uma certa percentagem de contaminação por pesticidas nos produtos biológicos, por esta ser considerada acidental. Há ainda que ponderar que os pesticidas orgânicos podem ser tão nefastos para os ecossistemas e desnutrição dos solos como os outros.

A disseminação da agricultura biológica pode ser positiva, não só porque poderá nivelar os preços como por também disponibilizar mais produtos a mais pessoas e talvez ajude a virar a balança a favor do biológico. No entanto, quando as grandes corporações começam a negociar em nichos de mercado, a norma é as leis e a fiscalização tenderem a tornar-se mais brandas e flexíveis. No meio de tudo isto o importante seria, não aplaudir o que é claramente uma decisão de negócio, mas sim perceber finalmente onde se encontra a raíz do problema. Não são apenas a agricultura biológica, o comércio justo ou comprar localmente que vai resolver o problema. Nem mesmo uma alimentação consciente e ética. O mundo será um local mais sustentável quando consumirmos menos, de modo a criar pressão nas forças de produção a fim de que sejam obrigadas também elas a diminuir a produção e alterar o paradigma produção/consumo. Mas consumir menos, parece ser exactamente o que ninguém quer fazer.