Guterres: “A ONU deve preparar-se para mudar”

Novo secretário-geral prestou juramento, assumindo a prioridade de reformar as Nações Unidas e apostar na prevenção de conflitos.

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"É tempo de reconstruir a relação entre as pessoas e os líderes”, disse Guterres AFP/Drew Angerer
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O momento do juramento Reuters/LUCAS JACKSON
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Nas respostas aos jornalistas Reuters/LUCAS JACKSON
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Com Ban Ki-moon, a quem vai suceder Reuters/LUCAS JACKSON

Reformar as Nações Unidas; reconstruir as relações entre as pessoas e os líderes; e apostar na prevenção de conflitos foram algumas das prioridades destacadas por António Guterres no discurso feito nesta segunda-feira, em Nova Iorque, onde jurou a Carta das Nações Unidas, antes de a 1 de Janeiro tomar posse como secretário-geral da ONU.

“A ONU deve preparar-se para mudar”, avisou Guterres, dizendo que é tempo de a organização “reconhecer as suas insuficiências e de reformar o modo como funciona”. O novo secretário-geral assumiu o objectivo de reduzir a burocracia: "Devemos focar-nos mais nos fins e menos nos processos, mais nas pessoas e menos na burocracia.” E deu um exemplo do que é inaceitável: “Não é útil para ninguém que demore nove meses a destacar um quadro para o terreno.”

Traçando um cenário do actual estado do mundo – “o fim da Guerra Fria não foi o fim da história” –, o antigo primeiro-ministro afirmou que a história voltou com vingança: “Os conflitos tornaram-se mais complexos e interligados do que antes. Produziram horríveis violações da lei humanitária internacional e abusos dos direitos humanos. As pessoas foram forçadas a deixar as suas casas numa escala que não era vista há décadas. E uma nova ameaça emergiu, o terrorismo global”, analisou.

Guterres destacou ainda que a globalização trouxe progresso, mas também “fez aumentar as desigualdades: “Muita gente ficou para trás, incluindo nos países desenvolvidos", disse, antes de salientar a necessidade de uma nova relação entre os líderes políticos e as populações. “Muitos perderam a confiança nos seus Governos e em instituições globais, como as Nações Unidas. É tempo de reconstruir a relação entre as pessoas e os líderes”, disse, perante os aplausos da assembleia-geral da ONU.

Mais tarde, em declarações aos jornalistas, Guterres disse que a única forma de restabelecer a confiança é “dizer a verdade”.

Para enfrentar os múltiplos conflitos mundiais, como a guerra na Síria, Guterres destacou a importância da “mediação” e da “diplomacia preventiva”, prometendo envolver-se “pessoalmente” se for necessário.

Já depois do discurso, nas respostas aos jornalistas, a quem pediu para não o tratarem por "excelência", Guterres voltou a falar do conflito na Síria, destacando a necessidade de “restabelecer a confiança” entre as partes em conflito e “estabelecer pontes. Mesmo deixando claro que “o secretário-geral das Nações Unidas não é o líder do mundo”, Guterres lembrou que é necessário que as partes ponham de lado as diferenças e salientou que na guerra na Síria “ninguém ganha, todos perdem”.

Num discurso em que falou alternadamente em inglês, francês e espanhol, o antigo primeiro-ministro português destacou ainda a necessidade de “melhorar a coordenação” entre as numerosas instâncias da ONU que combatem o terrorismo e de alcançar a paridade entre homens e mulheres dentro das Nações Unidas.

Logo no início do discurso, Guterres tinha sublinhado as “três prioridades estratégicas”: “o nosso trabalho pela paz, o nosso apoio ao desenvolvimento sustentável e a nossa gestão interna”.

E fechou a sua declaração sublinhando que a missão das Nações Unidas é ir além "do medo do outro" e promover a confiança "nos valores e nas instituições que servem para proteger" as pessoas. “A minha confiança nas Nações Unidas será dirigida para inspirar essas confianças, enquanto faço o meu melhor para servir a nossa humanidade comum", concluiu.

Já depois do discurso no plenário, António Guterres foi questionado sobre o que espera na relação com Donald Trump, que em Janeiro assume a presidência dos Estados Unidos. Na resposta aos jornalistas portugueses, prometeu um "diálogo aberto e muito franco" com a administração Trump, "tendo em conta que os interesses dos Estados Unidos, que lhes compete defender, podem ser compatibilizados com os interesses globais que as Nações Unidas se propõem defender. E sobre o acordo do clima? "Vamos ver. Devemos ter um espírito aberto e procurar fazer tudo para que sejam encontrados os consensos indispensáveis a fazer avançar objectivos tão importantes como ter um controlo sobre as alterações climáticas", respondeu Guterres, citado pela Lusa, destacando que no combate às alterações climáticas também será importante o papel das empresas e das sociedades civis.

Guterres disse ainda ser um homem com "muita sorte na vida" e afirmou que o sentimento que viveu nesta segunda-feira foi de "enorme responsabilidade: "Tive sempre muita sorte na vida, em muitas coisas que me aconteceram, em muitas oportunidades da vida, primeiro na Revolução dos Cravos, depois a hipótese de servir no ACNUR as pessoas mais vulneráveis. E também tive muita sorte aqui, quando em vez do processo tradicional de selecção se optou por um processo aberto e isso acabou por me beneficiar", considerou o português.