“Moda” das tatuagens: do circuito comercial à tatuagem de autor

Nos últimos cinco anos, o número de estúdios do Grande Porto passou de uma dezena para mais de trinta. O mesmo se passou em Lisboa, numa escala maior e diversa: estúdios de rua, privados, tatuadores em casa. A moda deu a volta à criatividade dos artistas ou é a acha que faltava a essa fogueira?

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O crescimento do número de artistas em Lisboa e Porto traz necessariamente para o mercado mais e melhores trabalhos Paulo Pimenta
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Há cerca de uma década duas mãos chegavam para contar o número de estúdios de tatuagens que existiam no Grande Porto. Em Lisboa, eram precisas mais umas mãos, mas o fenómeno era de nicho. Até à altura, o culto da tatuagem estava circunscrito a grupos que seguiam um estilo de vida considerado mais alternativo. Ter uma tatuagem era símbolo de exclusividade e a assinatura do compromisso com um modo de vida muitas vezes associado aos adeptos de derivações da música rock, aos motards ou apenas a apaixonados por essa forma de arte.

Nos últimos anos o cenário mudou. A tatuagem tornou-se um fenómeno de massas, muito por força da mediatização de figuras pop, do cinema e da música, do futebol. O negócio cresceu, o preconceito diminuiu e o número de estúdios triplicou. No entanto, os desafios para as lojas num mercado cada vez mais saturado aumentam em medida semelhante.

São mais de trinta os estúdios de tatuagens que existem actualmente espalhados pelo Porto, Matosinhos e Gaia. Só no eixo entre Cedofeita e a Rua do Almada há pelo menos uns cinco com porta aberta para a rua, sem contar com os tatuadores que trabalham em casa. O fornecedor da Spider Tattos, o estúdio mais antigo do Porto em actividade, tem cerca de 900 clientes que encomendam materiais, só na zona do Porto.

Há seis anos, quando Paulo Rui abriu a HeartGallery Tattoo Piercing, na Rua Mártires da Liberdade, existiam na zona do Porto cerca de dez lojas. Não foi a escassez de oferta que o motivou a arrancar com o projecto, mas encorajou-o o facto de não existirem “assim tantos à face da rua”. Nos anos seguintes foi assistindo a abertura de uma série de novos estúdios.

Acredita que há uma oferta que, “a caminhar no mesmo ritmo”, poderá chegar a um ponto de exceder a procura. “Não tarda estão os tatuadores a tatuarem-se uns aos outros”, ri-se. No entanto, o crescimento do número de artistas traz necessariamente para o mercado mais e melhores trabalhos. Prova disso são os instragrams e páginas online dos tatuadores: mais do que as vitrinas estas são as montras dos seus trabalhos.

O aumento da concorrência obrigou a que os estúdios se fossem especializando. À procura do seu lugar, cada espaço foi adoptando uma identidade, no sentido de dar resposta às preferências cada vez mais específicas dos clientes. Há vários estilos de tatuagens e linguagens diferentes.

A abertura deste “leque de opções” dá também azo à solidariedade e à cooperação entre profissionais: “Quando alguém vai a um estúdio pedir um estilo com o qual os artistas desse espaço não se sentem à vontade” os próprios tatuadores aconselham a dirigir-se a outro, “até porque não querem ficar com a reputação manchada, caso o trabalho corra mal”, ressalva Paulo Rui.

Face à crescente oferta, o mercado sujeita-se a ficar “minado” pelos preços baixos, acredita. “Se há uns anos quem praticava preços mais baixos eram artistas com menos capacidades, hoje há artistas muito bons que também o fazem para se poder afirmar”, refere.

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Para Paulo Rui, há um fenómeno de moda à volta das tatuagens que começou a partir do momento em que “muitos artistas pop e jogadores de futebol começaram a mostrar as tatuagens na televisão ou nas redes sociais”. Se por um lado isso fez com que deixasse de ser mal visto ter tatuagens, também as banalizou. “A moda das tatuagens pode também frustrar alguns artistas”, confessa. Muitos dos clientes que decidem tatuar-se “por moda” escolhem, por vezes, desenhos pouco desafiantes, o que torna o trabalho menos satisfatório para o tatuador que, de uma forma geral, gosta de desafios mais criativos.

Paulo tem pena “de não ter mais uns metros de pele”. Tem o corpo quase todo tatuado, à excepção das costas que está a guardar para “uma obra de arte”. Vindo de uma família que o inicia no rock and roll muito cedo, acaba por se interessar pelo body piercing. Daí até à tatuagem foi um passo muito curto. Ainda menor, enganou o tatuador e fez a primeira tatuagem.

“Não vale tudo”

Aos 32 anos, Paulo reconhece que há tatuagens que teria feito de forma diferente. Não que se arrependa, pois todos as obras que tem no corpo contam uma história. Mas como proprietário de um estúdio, independentemente da possibilidade de perder um cliente, tem a responsabilidade de criar limites: “Se me aparece um cliente que não tem uma única tatuagem e quer tatuar a cara ou outro sítio exposto mando-o para casa.” Mesmo com o aumento da concorrência, “não vale tudo”, diz.

Jorge Fontão pensa de igual forma: o mercado “está mais difícil, mas é preciso ter a noção de que se está a fazer algo de definitivo”. Tatuador há 4 anos na Monsters Family, na rua do Rua do Rosário, recusa-se a tatuar nomes de namoradas ou namorados, porque “mais cedo ou mais tarde aparecem outra vez para tapar”. Vê com bons olhos o aumento da concorrência, por significar um desafio e uma forma de refinar o seu trabalho.

A Monsters Family, aberta desde 2009, quer demarcar-se pela sua especialidade em tatuagem neo-tribal, com a vantagem de haver poucos no Porto que o façam. Para Fontão, é um jogo de sobrevivência: “A concorrência implica que os tatuadores se esforcem mais. Nesse cenário os melhores e os mais fortes são os que vão ficar”. Não tem dúvidas de que “o trigo se separará do joio”, como aliás diz estar já a acontecer.

Desde 1989, a Spider Tattos, o estúdio mais antigo do Porto em actividade, trabalhou durante quase 30 anos para reunir uma carteira de clientes sólida. Já esteve na Avenida da Boavista, em Gaia, e agora tem sede em Cedofeita. Para o tatuador Arnaldo Rodrigues, que responde por Kisto, não é só a longevidade que garante o sucesso da loja: é fulcral manterem-se actualizados e “não dá para relaxar”.

A “moda das tatuagens”, ninguém nega, é positiva para o negócio. Mas, como os anteriores, Arnaldo viu perder-se o “lado mais alternativo” do processo. Quer pela parte do cliente, quer pelos tatuadores. Os materiais são de fácil acesso e cada vez mais baratos, por isso, a tatuagem extravasa dos estúdios para as casas dos tatuadores.

Para Rita Moreira, mais conhecida por Nouvelle Rita, a tónica está no avanço tecnológico na área, dos últimos 10 anos, que tornou mais acessível e de maior confiança o mercado dos materiais. O que democratizou também o acesso à profissão. Não querendo dizer que “toda a gente que tem acesso ao material devesse começar a tatuar.” Rita vê riscos neste fácil acesso à prática de uma “actividade perigosa em que se pode colocar a própria saúde e a dos outros em risco.”

À parte do circuito comercial

Para Rita, as coisas são diferentes porque o seu segmento de mercado também o é. Estar no universo das tatuagens significa estar dentro da sua “própria bolhinha”. O seu trabalho é bastante específico e isso faz com os seus clientes também o sejam. Trabalha na Big Boys Tattoo, em Telheiras, Lisboa, mas podia trabalhar em qualquer parte do mundo porque haverá sempre quem a procure. Está fora de circuito comercial propriamente dito e sente-se, por isso, um pouco “à parte da esfera da tatuagem no geral”.

A tatuadora de Setúbal credita que para aqueles que fazem “trabalhos imediatos ou walk-ins talvez o mercado pareça realmente um pouco saturado”, mas no seu campo, não o sente.

Nas suas tatuagens, há um objecto principal claro, mas quando se olha com atenção, os detalhes multiplicam-se. Formas ricadas a preto e muitos animais. Há muito que distinga o estilo da tatuadora e é essa a sua arma. Não tem dúvidas, a especialização é o caminho. Esteve cinco semanas no Brasil onde trabalhou em três estúdios diferentes e de todos os artistas que conheceu, cada um tinha um estilo bastante específico e agendas muito preenchidas. “Não só é uma situação mais positiva para o tatuador, que pode fazer algo novo e de que se orgulha todos os dias, como é bom para o cliente que vai ter acesso a um trabalho de maior qualidade porque escolheu um artista que se dedica inteiramente ao tipo de trabalho que escolheu para si”, conclui.

Começou a tatuar há três anos quando estava “estagnada” no final da faculdade. Começou a experimentar com o material de Tania Catclaw e nunca mais parou. “Nunca antes tinha pensado que gostaria de seguir o percurso da tatuagem, mas penso que o facto de o ter seguido numa altura não muito boa da minha vida fez com que me agarrasse à tatuagem com muito mais força do que se tivesse sido noutra altura qualquer”, conta.

Filipa Vargas e Tânia Ribeiro têm visões muito semelhantes à de Rita. Com 26 e 30 anos respectivamente, estudaram Belas Artes, em Lisboa. Foram aprendizes num estúdio de tatuagem, até que, pelo estilo próprio, se distinguiram. Hoje têm agendas preenchidas e uma lista de clientes que as procuraram pelo seu trabalho.

Filipa tem um estúdio privado no centro de Lisboa. Um espaço seu, fechado à vista da rua, aberto um público muito específico. Iniciou-se na tatuagem quando percebeu que toda a sua vida lhe estava ligada: desde cedo tinha começado a ser tatuada e percebeu que desenhar na pele era a forma mais correcta para se expressar.

Há cerca de um ano deixou de circular pelo trabalho comercial típico de uma loja. Não é a tatuadora procurada por quem quer fazer uma “tatuagem simples que vê na net, que entra na primeira loja que aparece." Especializou-se em dot work, o trabalho intrincado de pontos para formar imagens e sombras. Como o de Rita, Filipa e Tânia fazem trabalho de autor.

Açoriana de São Miguel a viver em Lisboa, Filipa não vê ninguém a fazer o que ela faz. Conhece cinco pessoas que fazem dot work, de Lisboa à Margem Sul, mas todas com “expressividades extremamente diferentes.” Ainda que estando à margem, assiste a um aumento “imenso” do número de tatuadores, à boleia da “moda”, mas também do aumento de pessoas que “genuinamente querem ter no corpo algo que conte uma história.”

No entanto, vê uma espécie de selecção natural do mercado. Ainda que muitos estúdios abram, não são projectos a longo prazo – assim como as modas – e acabam por ficar só os mais antigos, descreve.

Para Tânia Ribeiro, ou seja, Tânia Catclaw, também já não faz sentido fazer “infinitos e estrelas”. Tatuou tudo o que lhe pediam durante cerca de cinco anos, até que, há três, “a máquina começou a funcionar sozinha.” Hoje tem também a agenda cheia com clientes que procuram especificamente o seu trabalho: tatuagens no estilo a que a própria deu o nome de geometric meets watercolor, uma junção de traços e figuras geométricas com o oposto, cores fluídas, aguarelas dentro e fora das linhas. “Com a especialização pode parecer que vais buscar um nicho de mercado, mas na verdade as pessoas procuram-te por isso. No final do dia, acabas por ter um mercado bem maior porque és muito boa naquilo que fazes. Se fazes um pouco de tudo, nunca és fantástica em nada”, acredita.

A trabalhar há seis anos no estúdio El Diablo, no Chiado, em Lisboa, já passou pelo “trabalho frustrante” das tatuagens “pedidas na hora”, foi uma opção sua não o fazer mais. No entanto, é firme na opinião de que “vai haver sempre mercado para toda a gente”, seja para todo o estilo de tatuagens, para todo o tipo de clientes e de tatuadores. O mercado está agora aberto, permitindo isso.

Não sente que haja uma saturação nem que algum dia algum tipo de tatuagem termine. Pelo contrário, “há cada vez mais pessoas com tatuagens, o que significa que vão querer coisas diferentes. Gostos diferentes a que a oferta vai responder.” Tânia acredita que se entra num paradigma em que já não se fala de “gostar de tatuagens” no sentido lato, mas discute-se de que “estilo de tatuagem se gosta.” Abrindo caminho para estilos mais alternativos.

Para Tânia, este é o lado bom “da faca de dois gumes” que é a democratização das tatuagens a que assiste nos últimos cinco anos com “o gigante boom” dos estúdios, sejam de rua, no centro ou na periferia, ou privados. Por um lado, “esta liberdade de qualquer pessoa o puder fazer, que dá espaço e oportunidade a todos”, que veio também desfazer o “estigma que os tatuadores tinham: agora é uma coisa de mais artistas.” Por outro, o perigo de não se ser aprendiz e de “não estar consciente da responsabilidade toda”: higiene, esterilização e responsabilidade sobre o facto de se estar a marcar definitivamente o corpo de uma pessoa.

Acredita que quando se fala de Lisboa e do Porto, o termo de comparação ainda não existe: “Em Lisboa, estamos habituados a ver tatuagens há tempo, já procuramos coisas diferentes. No Porto ainda se fazem coisas que se faziam quando eu comecei, há oito anos. Há uma estética diferente e as pessoas, tatuadores e tatuados não estão tão recetivos a determinados estilos.” Não que isto seja “uma coisa negativa”, são apenas cenários diferentes, com ritmos distintos.