Construção do novo Hospital Central do Algarve adiada sine die

A nova unidade de saúde, que já teve direito ao lançamento da “primeira pedra” no anterior governo socialista, foi metida na gaveta. “Provavelmente”, diz o secretário de Estado da Saúde, volta a haver uma equipa de projecto no ano 2018 ou 2019.

Foto
VASCO CELIO/STILLS (colaborador)

A construção do novo hospital central do Algarve está longe de ser uma prioridade para o Governo de António Costa. A concretizar-se, diz o secretário de Estado da saúde, Manuel Delgado, só, “provavelmente, na próxima legislatura”. No próximo ano, as prioridades para a zona sul vão para os hospitais de Évora e Seixal. O desmantelamento do Centro Hospitalar do Algarve (CHA), reivindicado pela presidente da Câmara de Portimão, também não vai ser para já: “Estamos a avaliar”.

Manuel Delgado, em substituição do ministro da Saúde, deslocou-se nesta segunda-feira ao Algarve procurando “tomar o pulso” à quase insustentável situação do Centro Hospitalar do Algarve (CHA), que integra as unidades de Faro e Portimão. “O Governo funciona por prioridades e numa acção temporalmente estruturada – isto é, não se pode fazer tudo de uma vez”, disse, quando interpelado pelo PÚBLICO sobre o motivo de adiamento da construção do novo hospital central. Em 2006, segundo um estudo desenvolvido pela Escola de Gestão do Porto, coordenado por Daniel Bessa, o Algarve encontrava-se em segundo lugar na lista para a construção de novos hospitais, logo seguido da construção do Hospital de Todos os Santos, em Lisboa. Durante a discussão sobre Orçamento do Estado para 2017, o PSD questionou – sem resposta – o ministro da Saúde sobre a “decisão de excluir o novo Hospital do Algarve da lista das prioridades”.

Na última década, enquanto o velho Hospital de Faro (HF) se degrada, surgem bem perto modernas clínicas privadas a oferecer serviços de assistência rápida, socorrendo-se de alguns profissionais que trabalham no Serviço Nacional de Saúde. Assim, apena recorre às Urgências Hospitalares do serviço público quem tem menos poder económico. Do conjunto das carências mais evidentes no HF, destaca-se a falta de um aparelho de TAC, ecógrafos e ventiladores. De resto, a falta do equipamento de TAC, avariado, obriga a transferir para o sector privado 800 exames por mês e, mesmo assim, os atrasos chegam os 30 dias, afectando alguns doentes oncológicos.

O Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, quando, no passado mês de Março, deu posse ao novo conselho de administração do CHA, presidido por Joaquim Ramalho, prometeu que iria resolver os problemas mais prementes da saúde na região até final de Maio. A declaração teve por base o plano que lhe foi traçado pelo presidente da Administração Regional de Saúde do Algarve (ARS), Moura Reis, que na semana passada veio anunciar que tinha um estudo que apontada para o desmantelamento do CHA criado pelo anterior Governo.  A notícia surgiu depois de ter vindo a público a situação “caótica” nas urgências do hospital do Barlavento e da presidente da Câmara de Portimão, Isilda Gomes (dirigente nacional do PS), ter voltado a reclamar a autonomia e reforço de investimento no hospital do Barlavento. 

O que é essencial, diz o director da Gastroenterologia, Horácio Guerreiro, na sua página do Facebook, é a “construção do hospital central”, desvalorizando, assim, a discussão sobre o modelo de gestão instituído pelo anterior Governo através do CHA . “Com um bairrismo acéfalo e visões curtas, sem concertação e inteligência não vamos a lado nenhum”, comenta. Na mesma rede social, a ex-administradora do Hospital de Faro, Ana Paula Gonçalves, critica o presidente da Administração Regional de Saúde (ARS), Moura Reis, por ter desenvolvido um estudo, não publicado, que apontará para que os dois hospitais – Faro e Barlavento (Portimão) – voltem a ser geridos de forma autónoma. “Espanta-me o espírito de iniciativa do Dr. Moura Reis”, escreveu, acrescentando que na anterior legislatura “manteve-se em silêncio, não se lhe conhecendo, segundo creio, qualquer tomada de posição no sentido de contrariar o processo de desnatação das unidades públicas de saúde”

O secretário de Estado da Saúde, referindo-se ao desmembramento do CHA, afirmou: “Não está nenhuma decisão tomada, estamos ainda a avaliar”. O problema, disse, “poderá não estar nas estruturas, mas na capacidade para atrair recursos humanos”. Por seu lado, o representante regional da Ordem dos Médicos, Ulisses de Brito, observa: “O estado de graça está a terminar”, lembrando o descontentamento dos profissionais de saúde. Além dos investimentos de curto prazo, o clínico destaca ainda a questão de fundo: “Não podemos adiar mais a construção do novo hospital central”. Em 2008, o antigo primeiro-ministro, José Sócrates, colocou a “primeira pedra” nessa obra que afinal não se fez. Agora, o secretário de Estado da Saúde atira o assunto para um horizonte longínquo: “O Governo pondera, e está em cima da mesa a possibilidade de constituirmos uma equipa de projecto para o novo hospital do Algarve, provavelmente em 2018 ou 2019 – provavelmente na próxima legislatura”, disse. No entanto, não deixou de reconhecer que a região representa a “montra” do turismo nacional deixando a promessa, na Universidade do Algarve, que o “ministro da Saúde não tem limites no apoio a esta região”. O facto de ali estar em representação do ministro, disse, teve a ver com “razões ponderosas de última hora”.