Crónica

Alepo, o passado que acabou

A zona antiga daquela que é uma das cidades há mais tempo habitadas no mundo nunca deixou de estar viva. O seu valor vinha de não ser um museu – os artesãos continuavam ali a trabalhar, as famílias vinham todos os dias às compras.

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Vista geral da Cidade Velha de Alepo REUTERS/Khalil Ashawi
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Um homem atravessa a rua REUTERS/Khalil Ashawi
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Uma igreja REUTERS/Khalil Ashawi
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Cidade Velha REUTERS/Khalil Ashawi
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Um vendedor na Cidade Velha REUTERS/Khalil Ashawi
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Cidadela REUTERS/Khalil Ashawi
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A cidadela REUTERS/Khalil Ashawi
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Grande Mesquita Omíada REUTERS/Khalil Ashawi
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Grande Mesquita Omíada REUTERS/Khalil Ashawi
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Cidadela REUTERS/Khalil Ashawi
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Mercado na Cidade Velha REUTERS/Khalil Ashawi
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Loja de antiguidade na Cidade Velha REUTERS/Khalil Ashawi
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Parte do rio Queiq REUTERS/Khalil Ashawi
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Parte da cidadela REUTERS/Khalil Ashawi
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Mercado na Cidade Velha REUTERS/Khalil Ashawi
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Mercado na Cidade Velha REUTERS/Khalil Ashawi
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Centro comercial REUTERS/Khalil Ashawi
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Hotel Baron REUTERS/Khalil Ashawi
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Entrada do centro comercial REUTERS/Khalil Ashawi
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Cidade Velha REUTERS/Khalil Ashawi
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Centro comercial REUTERS/Khalil Ashawi
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Cidadela REUTERS/Khalil Ashawi
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Lendário Hotel Baron REUTERS/Khalil Ashawi
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Crianças brincam na cidadela de Alepo REUTERS/Khalil Ashawi
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Cidadela REUTERS/Khalil Ashawi

Dizemos regresso ao passado, pode ser o nosso, o histórico, pode existir e nós podemos mesmo lá voltar.

A agência Reuters decidiu esta sexta-feira divulgar um conjunto de imagens a que chamou “Fotografias de um passado de esplendor: Alepo antes da guerra”. Vi-as todas, uma a uma, e depois outra vez: as ruelas estreitas do bairro cristão, onde ouvi sinos e logo a seguir a chamada para as orações, onde assisti a uma missa e visitei uma sinagoga; a Cidadela, com os seus banhos turcos de cúpulas que parecem saídas de uma fábula; a vista da Cidadela para a Cidade Velha, a Grande Mesquita Omíada, a escola mesmo ao lado onde almocei da comida do vigilante que me convidou a conversar sobre a vida e o mundo, aquela rua do souq fechado, a loja de antiguidades, os raios de luz a cair reflectida no chão numa das esquinas, quando o sol consegue romper por entre as paredes grossas e os tectos de pedra abobadados…

Estive em Alepo uma só vez. Na cidade, à província com o mesmo nome já voltei durante a guerra. Na Alepo de 2005 descobri uma cidade que é de todos. Uma cidade síria mas que já era minha antes eu a conhecer. O minarete da mesquita Omíada era do século XI e já não existe, da mesquita ainda sobram as paredes. A Cidadela lá continua, imponente, a olhar o resto da Cidade Velha, com muitos buracos a mais. O souq medieval, quilómetros labirínticos, são ruinas, foi destruído e depois ardeu. A sinagoga está quase perdida, a maioria das igrejas também.

Em 2011, quando os sírios se começaram a manifestar, os protestos demoraram a chegar a Alepo, a capital comercial da Síria, rica e orgulhosa do seu presente e do seu passado – desde o segundo milénio a.C. que estava no cruzamento de rotas comerciais, diz a UNESCO. Em 2012, a oposição conseguiu apoderar-se de uma grande parte de Alepo, a metade oriental. A Cidade Velha, classificada pela UNESCO como Património Mundial, parte do que a organização da ONU descreve como “herança cultural imaterial” da Síria, estava na frente da linha de batalha e agora caiu para o regime.

A zona antiga daquela que é – com Damasco e Erbil – das cidades há mais tempo habitadas no mundo, que já foi “uma das cidades mais ricas que a humanidade conheceu”, por onde passaram hititas, assírios, acadianos, gregos, romanos, omíadas, mamelucos e otomanos, nunca deixou de estar viva. O seu valor vinha de não ser um museu – os artesãos continuavam ali a trabalhar, preservando saberes e culturas, as famílias vinham todos os dias às compras.

O nosso passado e a nossa história estão mais pobres. Vi as fotos de Khalil Ashawi e voltei a pensar que eu estou mais pobre. Vi cada uma e depois fechei os olhos e vi vendedores, o brilho da fruta e das sedas, os prateados das antiguidades, o beduíno que me pediu para o fotografar, as cores todas do universo; senti o cheio das tinturarias no primeiro andar, a textura dos sapatos de pele que comprei ao sapateiro que os fazia e que adivinhou o tamanho do meu pé sem perguntar. A certa altura ocorreu-me que ficou tudo no passado. 

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