Opinião

A pós-literatura e a sua sombra

Entre Dezembro de 1919 e Fevereiro de 1920, a revista francesa Littérature, dirigida por Aragon, Breton e Soupault, publicou as respostas de uma série de escritores a um inquérito: “Pourquoi écrivez-vous?”. A pergunta pressupunha a ideia de que o “escrever” é uma questão para si mesmo e é aí que começa a literatura. Quando a questão literária começa a incidir de preferência naquilo sobre o qual se escreve e tudo se resolve no “escrever sobre” é porque passámos para uma pós-literatura. A noção de pós-literatura surgiu timidamente há alguns anos (sem o potencial anedótico de um outro “pós” mais recente, a pós-verdade) para designar o triunfo de um género hegemónico: o romance muito internacional, tão internacional que parece ter sido escrito numa língua traduzida. A pós-literatura tem de ser entendida à luz de um sistema literário mundial que um importante teórico da literatura chamado Franco Moretti (irmão do cineasta Nanni Moretti), comparou ao sistema económico mundial, “que é simultaneamente uno e desigual, com um centro, uma periferia e uma semiperiferia”. Usando um método a que chamou “distant reading” (a literatura vista de longe), Franco Moretti tem-se dedicado a apreender a forma do nosso horizonte literário.

Encontrei recentemente uma resposta a uma pergunta mais ou menos equivalente ao “Pourquoi écrivez-vous” no blog de um escritor português que vive em Bruxelas desde 1968. Alberto Velho Nogueira (AVN) é o nome desse escritor e o seu blog chama-se “Homem à janela”. Nesse texto de enorme alcance teórico, datado de 3 de Dezembro, AVN desenvolve a ideia de “uma crítica exercida fora das fronteiras” (no seu blog, ele escreve longos textos de crítica literária, quase sempre sobre livros de autores portugueses), e discorre logo a seguir sobre a sua condição de português, vivendo em Bruxelas, mas que enquanto escritor está completamente desvinculado de qualquer “referência ao solo” nacional e à linguagem ficcional da sua Muttersprache (ele utiliza a palavra alemã para dizer “língua materna”). Nos seus texto críticos, faz análises próprias de uma “close reading” e sínteses que só são possíveis a partir de uma “distant reading”. Esta radical desterritorialização prolonga-se nos seus romances (cerca de duas dezenas, em cuidadosas edições de autor; o último, deste ano, chama-se Plaatz!). Essa é uma das razões, diz ele, pelas quais a sua “literatura de ficção” não tem leitores, o que o leva mesmo a perguntar: “Não é para ser lida?”. Seja-me permitido responder com base na minha experiência: é para ser lida, em doses moderadas de cada vez, por quem aceite entrar no abismo de uma literatura borderline como não há outra na literatura portuguesa contemporânea. É uma escrita que está do lado do informe, da agressão contra a língua materna (o português), do delírio (atenção: não projectar sobre o autor qualquer estado clínico), traçando direcções móveis, numa sintaxe que desconhece a linha recta. E, no entanto, deste delírio parece libertar-se uma saúde: a saúde da literatura autónoma que se elabora como um joyciano “caosmos”, isto é, um caos composto. A palavra que devemos sublinhar é esta: autonomia, essa grande reivindicação de toda a literatura moderna. Os romances de AVN não instalam o leitor em nenhum território conhecido, o autor não escreve “sobre” nem escreve “com”. E a geografia física e mental dos seus romances é um “fora”, não radica em nenhum solo nacional. Olhando do observatório radical para onde ela nos solicita, vemos com nitidez, à volta, os vultos coloridos da pós-literatura e os seus jogos florais.