Crítica

Sofia Areal dança sobre o papel

Dança, alegria e cores numa exposição de Sofia Areal. Feita de vários caminhos e desfechos.

Telas, círculos, tracejados, cores, movimentos do corpo e espírito, dos braços e mãos da artista sobre o papel
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Telas, círculos, tracejados, cores, movimentos do corpo e espírito, dos braços e mãos da artista sobre o papel
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A uma alegre e sossegada distância da publicidade que as grandes instituições e dos grandes eventos granjeiam aos artistas, Sofia Areal (Lisboa, 1960) nunca deixou de pintar, desenhar e expor. Desde 2010, que continua a trazer ao nosso olhar aquilo que faz no seu atelier: telas, círculos, tracejados, cores, movimentos do corpo e espírito, dos seus braços e mãos sobre o papel. Um gosto e um acto que se repete pela pintura, pela tinta que goteja, pelo júbilo de misturar as cores e de descobrir o que revelam. Variações sobre um mesmo tema insere-se nesse modo de fazer, enquanto momento de um trabalho sem fim, afirmativo de uma intuição, de um desejo irreprimível, de um desempenho que se materializa.

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Na galeria lisboeta, a exposição pode começar, entre outros lugares, pela série M-J. Aqui, mostram-se desenhos a tinta-da-china que não cabem nas pequenas molduras. Ou melhor, não se adequam, não se conformam à geometria. Irrequietas e irregulares, fogem, caem, arrastando consigo um recorte de papel branco. Terão escapado da mesa para a moldura? O preto da tinta avança em diferentes tonalidades — o cinzento de nuvens ou de um nevoeiro espesso — e, por vezes, deixa ver lampejos de branco, de luz, desenhando a forma de uma lua (o negro não apaga tudo), enquanto a irregularidade do papel tapa a moldura, mas segura o desenho, protegendo a relação que o preto estabelece com o branco.

Na outra parede, em desenhos de maiores dimensões, aparecem o vermelho, o azul, o laranja. Vê-se o tracejado a negro e irregular de um círculo imperfeito, mas forte, tão forte que contagia o rectângulo vermelho irregular e os azuis horizontais e marítimos em que a superfície se conclui. Energia, tensão, rapidez, liberdade: sim, são palavras com significado nesta exposição. O azul manifesta-se noutro desenho, em linhas generosas que vibram, ainda que delimitadas pelos contornos pretos de um quadrado (como se presas). Mas há cores que espreitam (o vermelho a sair de azul, o azul a surpreender o branco) ou deixam que o branco se mostre. Serão formas, manchas, cores apanhadas em flagrante numa fuga impossível.

O movimento permanente, quase juvenil, do desenho e das cores de Sofia Areal prossegue no segundo piso da galeria, apresentando-se aí como marca, rasto uma dança guiada pelos braços, o pincel e a tinta. Ritual lúdico, necessário da artista.

Os círculos, os rectângulos dão lugar ao serpentear do desenho, a uma dança feita de curvas, de voltas sinuosas e redondas. É difícil fixar, capturar estes traços que continuam para lá dos limites do desenho e que chegam do seu exterior. A dimensão performativa é evidente: Sofia Areal dançou sobre o papel, manchou-o (vislumbram-se marcas de calçado): estes desenhos apareceram sob o seu corpo.

Diga-se o mesmo a propósito do trabalho que parece, no entanto, serenar esta agitação: uma composição de formas horizontais nas quais se revela, de novo, a presença dos círculos (as “bolas”, ou as “bolachas” como a artista lhes chama, numa alusão aos objectos banais do quotidiano), o fluxo da tinta, o contraste ora suave, ora tenso entre as cores. Desenho que quer fugir, que não é domesticável, mas que também não é “selvagem” ou agressivo, eis o que aparece nesta exposição que um convívio gracioso e risonho com os materiais da pintura proporcionou. Mas que termina com uma nota dissonante: um desenho de e no chão, pequeno e terroso, quase mineral, no qual o preto tomou toda a superfície do papel. Nada espreita ou foge do seu interior. Assinalará o fim de Variações sobre um mesmo tema ou, antes, o seu princípio?

Ao espectador, a última palavra.