Opinião

Será mesmo só populismo?

Na Europa e na América, esse povo esquecido e desprezado, essa massa democrática primitiva irrompeu com estrondo pela Ágora adentro. Não os conciliarão com lisonjas tardias.

Populismo, no singular ou no plural, é seguramente uma das palavras mais repetidas ao longo do ano que se aproxima do fim. Há populismo por toda a parte da Europa; Donald Trump terá significado o triunfo do populismo nos EUA; e até oiço e leio que Putin é populista! É verdade que há muitas espécies de populismo em várias partes da Europa; não é verdade que a vitória de Trump tenha representado o triunfo do populismo na América; e Putin é um autocrata ditatorial que se pode dar ao supremo luxo de fazer eleições e manter um Parlamento, sen recurso a populismo nenhum.

Esta dramática confusão semântica revela uma coisa: não temos ferramentas conceptuais para analisar o que está a acontecer no Mundo. Não admira. O Mundo está a transformar-se a um ritmo mais veloz do que a nossa capacidade de o intelectualizar. Não temos nome para a coisa que vemos acontecer sob os nossos olhos: uma gigantesca mutação histórica a processar-se a um ritmo inédito, o que faz do momento que vivemos o período mais imprevisível de que há memória. Esta imprevisibilidade é uma tremenda fonte de insegurança e angústia, que por seu turno aduba o solo para a emergência de fenómenos colectivos que não sabemos como interpretar. Hoje, vive-se às cegas.

No meio desta turbamulta, há porém alguns elementos da realidade que podemos ao menos constatar. No plano mundial, a mudança geopolítica é radical. À região da Ásia-Pacífico, em que avulta a gigantesca China rodeada pelas suas adjacências e o seu velho rival, o Japão, junta-se Putin e o seu Império em construção. A eleição de Trump incendiou a ambição imperial do novo czar de todas as Rússias. E vai construí-lo em aliança tácita com Donald Trump, que com razão dá a Europa por economicamente arrumada, militarmente desarmada e intelectualmente vencida. E a Europa, coitada, queixa-se da ingratidão (?) americana, e implora à Sra. Merkel que se recandidate. Percebe-se: Merkel é hoje em dia a única líder europeia digna desse nome. Mas a Alemanha, em virtude do seu século XX, tão cedo não poderá ascender a potência protectora da Europa, e, embora seja grande demais para a Europa, é demasiado pequena para aspirar ao papel de player mundial de primeira ordem.

A extrema direita começa a “normalizar-se”. A xenofobia, o nacionalismo, a islamofobia, o racismo e, sobretudo, a revolta contra o centralismo de Bruxelas adquiriram direito de cidade, e na cidade começou-se a ouvir, também, a voz oficial de políticos democraticamente eleitos que, com desassombrada incorrecção política, dizem às massas o que fora proibido dizer mas era o que elas sentiam e pensavam. Não sendo possível mudar de povo, mudaram os políticos. Alegadamente, tornaram-se todos, indistintamente, “populistas” – de direita, de esquerda, do centro, de cima e de baixo. Até o desnorteante voto da tão razoável Grã-Bretanha a favor do "Brexit" foi interpretado como um transvio populista do sensato povo britânico.

Ao aparente paradoxo de uma aliança, formal ou informal, entre os EUA e a Rússia, com ofensiva marginalização do velho Continente, junta-se outro paradoxo não menos desconcertante: os pobres desataram a votar em milionários. É verdade que, na Itália, muitos deles já tinham votado em Berlusconi, mas a Itália é periférica e esdrúxula. Trump, um milionário com modos e linguagem de carroceiro, misógino e racista, conseguiu captar para os republicanos o voto dos mais desfavorecidos. E estes desafortunados foram decisivos para a eleição dos afortunados, que Trump não assusta.

Mas em quê, exactamente, terá consistido o alegado populismo de Trump ? O populismo paradigmaticamente exemplificado pelo “Syrisa” grego ou pelo “Podemos” espanhol, politicamente correctíssimo, tem a pretensão de possuir um pedigree intelectual e académico que reabilita e promove a mentira na política democrática como meio legítimo de captar votos e o poder. Mas os Trumps de vários pêlos e estilos não mentem: limitam-se a dizer o que o povo pensa mas ninguém diz - pelo motivo de que o establishment vive protegido pelo “politicamente correcto”, uma forma de censura insidiosa mas violenta que impede a livre expressão das “inconveniências” que escandalizam as elites bem-pensantes e os eleitorados educados.

Na Europa e na América, esse povo esquecido e desprezado, essa massa democrática primitiva irrompeu com estrondo pela Ágora adentro. Não os conciliarão com lisonjas tardias. Não lhes venham com a Democracia, os Direitos Humanos e os santos princípios humanitários, de que eles não sentem os efeitos. São gente que derrubou as muralhas da Cidade dentro da qual estes valores habitavam, e começaram a desalojar os seus guardiães bem-pensantes – o “sistema”, o “establishment”, a “oligarquia”, tudo isso, com as suas querelas de família, vivia entrincheirado atrás de ameias semânticas agora contra eles de facto “desconstruídas”.

Os partidos, sobressaltados, “abrem-se” à sociedade, esbracejando para sair do gueto, mas, com os novíssimos manobrismos democratizantes apenas apressam o seu fim. A Democracia, sobre os quais ela assenta, não tem meios para integrar os novos “bárbaros” ocidentais; para absorver o protesto anti-sistema que sobressai como denominador comum de tantos e tão diversos protestos.

Suspeito que um dia, não muito distante, surgirá, de entre o remoinho do pensamento de envolta com o agir desencontrado dos escarnecidos “populistas”, uma nova e surpreendente forma de nos organizarmos politicamente. E suspeito, também, que as categorias de Esquerda e Direita, já hoje insatisfatórias, perderão toda a utilidade classificativa e irão desaparecendo por inadequação e desuso. Nada do que é humano tem o privilégio da Eternidade.