É este o princípio do fim do dinheiro barato na Europa? Draghi diz que não

Nos mercados desconfia-se que o BCE está a começar a pôr em prática uma estratégia de saída da sua política expansionista. Mas Mario Draghi tenta tudo para convencer os investidores que isso não é verdade.

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Mario Draghi quer evitar reacção exagerada nos mercados Reuters/RALPH ORLOWSKI

A palavra do momento nos mercados é “tapering”. A tradução para português é qualquer coisa como “afunilamento”, mas é a versão em inglês que, no léxico da política monetária, é usada em todo o mundo para descrever um cenário em que um banco central está a retirar de forma progressiva os estímulos que oferece à economia. Já começou a ser feito há muito pela Reserva Federal norte-americana e pelo Banco de Inglaterra e agora questiona-se quando é que o Banco Central Europeu optará pelo mesmo caminho.

Esta quinta-feira, foram muitos os que viram nas decisões tomadas pelo BCE o sinal definitivo de que o “tapering” na zona euro começou, marcando o princípio do fim da era de dinheiro ultra-barato que se prolonga desde o início da crise. Mas, temendo uma reacção exagerada dos mercados semelhante à que aconteceu nos Estados Unidos em 2012, o presidente da autoridade monetária europeia fez tudo o que lhe foi possível para tentar continuar a garantir que não, que essa percepção dos mercados era errada, e que o BCE não está agora a inflectir a sua política.

Na realidade, a reacção dos mercados deu-se a dois tempos. Primeiro, quando os responsáveis do BCE anunciaram em comunicado que iriam prolongar o seu programa de compra de activos (com que tentam estimular a actividade económica e fazer subir a inflação) por mais nove meses, até ao final de 2017, mas que ao mesmo tempo iriam reduzir, já a partir de Abril, o montante de compras mensais que realizam, a ideia geral que foi criada é que o BCE estava a recuar. Nos minutos seguintes à decisão, o euro apreciou-se face ao dólar e as taxas de juros das obrigações dos países da zona euro (da Alemanha, mas principalmente de países periféricos como a Itália e Portugal) subiram de forma acentuada. No entanto, depois de ouvirem Draghi, 45 minutos mais tarde, os investidores começaram a questionar esta sua primeira reacção.

O presidente do BCE usou a hora que demorou a conferência de imprensa quase exclusivamente para passar a ideia de que o BCE está ainda bem longe de começar a retirar as suas medidas de estímulo à economia. Começou por dizer que a opção tomada foi entre prolongar por mais seis meses o programa de compra de dívida mantendo o ritmo mensal de 80 milhões de euros ou prolongar por nove meses, reduzindo a partir de Abril as compras mensais para 60 mil milhões. E que a segunda hipótese foi escolhida porque o que o BCE pretende é uma imagem de “presença sustentada no mercado”.

O presidente do BCE repetiu ainda por diversas vezes a ideia, também expressa no comunicado inicial, de que, caso a conjuntura económica e financeira o volte a justificar, o banco está pronto para aumentar o volume de compras e prolongar ainda mais o programa.

Depois, para não deixar dúvidas, afirmou que um cenário de retirada progressiva das políticas extraordinárias de estímulo do BCE “não está à vista”, “não foi discutida na reunião”, e que isso significa, garante Draghi, que “nenhum dos membros do conselho de governadores defende essa possibilidade neste momento”.

O presidente do BCE apresentou igualmente as novas previsões do BCE para o crescimento e a inflação na zona euro. As diferenças são reduzidas em relação às projecções de há três meses atrás, mas destaca-se o facto de, para a inflação (que o BCE tem o objectivo de colocar abaixo mas próximo de 2%), se prever agora um valor de 1,3% em 2017 e 1,5% em 2018, quando antes se apontava para valores de 1,6% nos dois anos. E mesmo em 2019, a taxa de inflação agora prevista é de 1,7%. Estará este valor dentro daquilo que é o mandato do BCE? Mario Draghi admitiu que “nem por isso” e que, portanto, o BCE “ainda tinha de trabalhar mais”, mais um sinal dado de que os estímulos são para manter por um horizonte longo de tempo.

Para além destas palavras, Mario Draghi estava também armado com medidas, para provar que o banco central não se arrisca a ficar sem títulos de dívida suficientes para comprar.

Perante todas estas explicações, os mercados alteraram a sua disposição. Se antes de Draghi falar se registava uma apreciação do euro — uma reacção natural se estiver a pensar numa diminuição da injecção de dinheiro por parte do banco central —, depois da conferência de imprensa a moeda única começou a cair, registando uma descida de 1%.

Nas taxas de juro da dívida, contudo, o cenário é por enquanto menos claro. Se as taxas de juro na Alemanha voltaram a cair, as taxas de juro dos países periféricos, incluindo Portugal, mantiveram-se em alta.

Entre os analistas, a ideia geral é a de que aquilo que Mario Draghi está a tentar fazer é começar a testar uma estratégia de saída das medidas de estímulo económico, mas sem nunca fechar a porta a todas as possibilidades, incluindo um reforço das compras de activos, caso a reacção dos mercados e a evolução da economia assim o exijam. Como assumiu o próprio presidente do banco central, o BCE está a actuar “de uma forma flexível e pragmática”.