Draghi tenta tranquilizar mercados e diz que BCE não está a recuar

Presidente do BCE diz que não está a pensar em iniciar uma retirada das medidas de estímulo para a economia. E anuncia novas regras que alargam o tipo de obrigações que o banco pode comprar

Foto
Mario Draghi continua insatisfeito com valor da inflação AFP/DANIEL ROLAND

Mais uma vez, Mario Draghi mostrou o poder que as suas palavras têm no comportamento dos mercados. Quarenta e cinco minutos depois de as taxas de juro das obrigações europeias (incluindo as portuguesas) terem subido com o anúncio da decisão do BCE de reduzir o montante mensal de compra de dívida de 80 para 60 mil milhões de euros, o presidente do banco central fez, em conferência de imprensa tudo o que lhe era possível para convencer os mercados que aquilo a que se está a assistir não é a um recuo na política monetária expansionista na zona euro. E aparentemente com algum sucesso.

A palavra do momento nos mercados é “tapering”. Esta é a expressão utilizada em inglês para descrever um cenário em que um banco central retira de forma progressiva os estímulos que está a oferecer à economia. Já começou a ser feito pela Reserva Federal e agora questiona-se quando é que o Banco Central Europeu optará pelo mesmo caminho.

Ao anunciar que iriam prolongar o seu programa de compra de activos (com que tentam estimular a actividade económica e fazer subir a inflação) por mais nove meses, até ao final de 2017, mas ao mesmo tempo reduzir, já a partir de Abril, o montante de compras mensais que realizam, os responsáveis do BCE induziram uma percepção imediata nos mercados de que o “tapering” acabara de chegar à Europa. Nos minutos seguintes à decisão, o euro apreciou-se face ao dólar e as taxas de juros das obrigações dos países da zona euro (da Alemanha, mas principalmente de países periféricos como a Itália e Portugal) subiram de forma acentuada.

No entanto, quando se apresentou na habitual conferência que se segue às reuniões do Conselho de Governadores do BCE, Mário Draghi parecia estar já preparado para esta reacção. Tudo o que disse e anunciou a seguir serviu para demonstrar aos mais cépticos que o banco central não está a começar a retirar os seus estímulos da economia.

Começou por dizer que a opção tomada foi entre prolongar por mais seis meses o programa de compra de dívida mantendo o ritmo mensal de 80 milhões de euros ou prolongar por nove meses, reduzindo a partir de Abril as compras mensais para 60 mil milhões. E que a segunda hipótese foi escolhida porque o que o BCE pretende é uma imagem de “presença sustentada no mercado”.

O presidente do BCE repetiu ainda por diversas vezes a ideia, também expressa no comunicado inicial, de que, caso a conjuntura económica e financeira o volte a justificar, o banco está pronto para aumentar o volume de compras e prolongar ainda mais o programa.

Depois, para não deixar dúvidas, afirmou que um cenário de retirada progressiva das políticas extraordinárias de estímulo do BCE “não está à vista”, “não foi discutida na reunião”, e que isso significa, garante Draghi, que “nenhum dos membros do conselho de governadores defende essa possibilidade neste momento”.

O presidente do BCE apresentou igualmente as novas previsões do BCE para o crescimento e a inflação na zona euro. As diferenças são reduzidas em relação às projecções de há três meses atrás, mas destaca-se o facto de, para a inflação (que o BCE tem o objectivo de colocar abaixo mas próximo de 2%), se prever agora um valor de 1,3% em 2017 e 1,5% em 2018, quando antes se apontava para valores de 1,6% nos dois anos. E mesmo em 2019, a taxa de inflação agora prevista é de 1,7%. Estará este valor dentro daquilo que é o mandato do BCE? Mario Draghi admitiu que “nem por isso” e que era por isso que o BCE “ainda tinha de trabalhar mais”, mais um sinal dado de que os estímulos são para manter por um horizonte longo de tempo.

BCE passa a comprar dívida a um ano

Para além destas palavras, Mário Draghi estava também armado com medidas para provar quais as intenções do BCE. Nos últimos meses, uma das preocupações mais vezes manifestadas pelos analistas tem sido a de que o banco central se arrisca a ficar sem títulos de dívida suficientes para comprar.

Draghi anunciou duas medidas que contribuem para alargar o leque de obrigações elegíveis. Por um lado, o BCE passa agora a ter a opção de, se considerar adequado, comprar títulos com taxas de juro inferiores à taxa de depósito oficial do banco central, que neste momento está em -0,4%.

Na prática, isto significa que o BCE passa a poder comprar uma parte importante das obrigações alemãs, que apresentavam taxas de juro muito negativas, e que por isso não faziam parte do leque de títulos elegíveis.

Depois, o BCE anunciou também que pode passar a comprar obrigações com um ano de maturidade, quando antes o limite mínimo auto-imposto era de dois anos. Neste caso, alarga-se o leque de compras possíveis em todos os países.

Para Portugal, que já tem vindo a sentir o efeito da falta de obrigações disponíveis para serem compradas pelo BCE, isto pode representar uma ajuda importante, principalmente agora que o programa vai ter uma ainda maior duração.

O BCE não optou por alargar a percentagem de títulos de um país ou de uma série de obrigações que pode deter (33%), que é precisamente aquilo que limita as compras de dívida portuguesa, por causa de “constrangimentos legais”, explicou Mario Draghi.

Mercados reagem

Perante todas estas explicações, os mercados alteraram a sua disposição. Se antes de Draghi falar, se registava uma apreciação do euro – uma reacção natural se estiver a pensar numa diminuição da injecção de dinheiro por parte do banco central – depois da conferência de imprensa, a moeda única começou a cair, registando uma descida de 1%.

Nas taxas de juro da dívida, o cenário é por enquanto menos claro. De início, antes de Draghi falar a tendência era clara para todos, com uma preocupante subida das taxas de juro da dívida, não só em países como Portugal e Itália, mas também a Alemanha.

A seguir, a tendência inverteu de imediato na Alemanha, uma reacção compreensível já que Mario Draghi apresentou medidas que permitem ao BCE comprar mais títulos de dívida alemães. Mas nos países periféricos, o ambiente continuou a ser de desconfiança.

As taxas de juro da dívida pública portuguesa a 10 anos, que iniciaram o dia perto dos 3,5%, encontravam-se às 15h30 já perto dos 3,75%.