A revolução cairá do céu

Do aquecimento global ao negacionismo tal como Donald Trump o tornou viral, dos casacos de peles às peles vermelhas depois de um sol mortal: Climas, que agora se estreia no Teatro Nacional São João, é o diário em que a Circolando anotou a vida em 2016.

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Climas Paulo Pimenta
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6 de Dezembro de 2016, 20 inacreditáveis graus centígrados em todos os placards electrónicos de uma cidade europeia onde costumava haver Inverno, o casaco enrolado no braço, a camisa arregaçada até ao cotovelo, o pescoço transpirado a pedir um botão a menos no colarinho, e começa a ser oficial que este é o ano em que vamos estar de manga curta (sem manga?) no Natal. Se não acontecer, poderia ter acontecido – embora 2016, também já é oficial, tenha sido o ano em que um furioso negacionista das teses sobre o aquecimento global chegou à presidência dos Estados Unidos (depois de ter dito que a temperatura na Terra não está de todo a aumentar, é só uma mentira inventada pelos chineses).

O Verão a que passámos a ter direito em Dezembro, o Donald Trump que se calhar nem a América merecia, quanto mais o resto do mundo – “essas coisas todas”, resumem André Braga e Cláudia Figueiredo, acabaram por ficar em Climas, a “criação muito colectiva” que a Circolando estreia esta quinta-feira no Teatro Nacional São João, no Porto (até dia 18), e que no início do próximo ano chegará a Lisboa (Culturgest, 20 e 21 de Janeiro) e Aveiro (Teatro Aveirense, 3 de Fevereiro). Algumas delas estavam previstas desde o início do processo, como sempre muito influenciado pelas leituras prévias (o Diário das Nuvens de Goethe, os ensaios de Michael Taussig, algum Henri Michaux, e a dada altura os diários de Raul Brandão); outras surgiram do corpo-a-corpo entre os intérpretes (Costanza Givone, Daniela Cruz, Gil Mac, Margarida Gonçalves, Paulo Mota, Ricardo Machado) e destes com os materiais trazidos para a sala de ensaios – como as botas texanas que acabaram por fazer aparecer um cowboy, dando finalmente o palco a “uma certa ideia de protesto” depois amplificada pela banda sonora.

O que Climas também amplifica, e radicaliza, é a experiência muito existencial de se estar vivo aqui e agora – imaginando as seis personagens, colocadas num lugar transitório algures entre a estação meteorológica ou a residência artística (a ambiguidade é propositada), sob o efeito de “fenómenos climatéricos extremos, mas não necessariamente apocalípticos”, ressalvam os directores artísticos da companhia. “Sempre quisemos explorar um possível paralelismo entre as alterações climáticas e situações doentias, pantanosas. Como numa panela de pressão, que parece que vai explodir mas nunca explode”, explicam ao PÚBLICO.

Antes do fim

Ainda assim, não deixa de ser o quotidiano que está em cena – o quotidiano dos banhos de sol apesar das queimaduras solares, dos chuveiros prolongados apesar da ameaça de seca, dos japoneses tão fofinhos apesar de matarem baleias, do futuro apesar de ser negro. “Mais do que de climas, estamos a falar de pessoas”, sublinha André Braga. E as pessoas, claro, também têm as suas estações das chuvas, as suas nuvens negras, os seus arco-íris, pessoais e colectivos: “Podemos ver as danças de possessão africanas como tremores de terra humanos.” E há muitos desses tremores de terra em Climas, não apenas nas imagens de arquivo que desceram da outra nuvem, mais virtual, do universo paralelo a que chamamos Internet.

O que também há, embora a Circolando não negue ter querido falar do “fim das possibilidades” (já há um ano, quando estavam quase a estrear Noite, era disso que prometiam falar a seguir: "da revolta do relâmpago, do vulcão e da terra a explodir"), é um céu mais ou menos infinito (e corais em movimento perpétuo, e toda a vida que se esconde debaixo do vulcão), um céu que continua lá, e que sempre lá estará para quem quiser olhar para ele. Nisso, a companhia encontrou no Goethe do Diário das Nuvens o seu herói deste Outono/Inverno. “Essa ideia de que observar a natureza é uma forma de abertura ao mundo, de que eventualmente conheceremos o todo se estivermos abertos ao ínfimo, de que olhar para o céu pode fazer aparecer um novo órgão, uma nova lucidez, uma nova sensibilidade, animou-nos muito durante este processo”, diz André Braga. Se o fim está lá, continua Cláudia Figueiredo, “é para ser contrariado”: “Por muito que sintamos que a explosão está próxima, continuamos a acreditar muito em nós. E passámos a acreditar que parar a olhar para o céu pode ser um acto revolucionário.”