Álvaro Cúria
Foto
Álvaro Cúria

Megafone

Colónia do Sacramento, para quem quer amar, amar perdidamente

Nenhuma poesia é demais para descrever o centro histórico de Colónia. Depois da imensa Buenos Aires, chegar a este porto de amores ao vento é como fazer uma viagem dentro das nossas próprias emoções

Desde Buenos Aires, atinge-se a cidade uruguaia em pouco mais de uma hora, utilizando para isso o Buquebus que parte de Puerto Madero várias vezes ao dia. Durante essa hora, aconselha-se a dormitar um pouco, já que o que se encontrará na outra margem do rio da Prata é um sonho tornado realidade.

Colónia do Sacramento foi uma importante cidade sul-americana, alternando entre o domínio português, espanhol e brasileiro, desde o final do século XVII até à independência da República Oriental do Uruguai, em 1828. O seu carácter portuário, as várias influências culturais e o posicionamento em frente a um extenso estuário deram-lhe contornos únicos em toda a América do Sul.

A UNESCO tornou-a Património da Humanidade em 1995, exaltando a beleza do seu centro histórico, irregular, labiríntico, misterioso, onde todas as ruas desaguam num imenso promontório raso de água, que parece ter sido esculpido pelas mãos de um qualquer amante que prometeu lá voltar todas as manhãs à espera de ser encontrado.

Nenhuma poesia é demais para descrever o centro histórico de Colónia. Depois da imensa Buenos Aires, chegar a este porto de amores ao vento é como fazer uma viagem dentro das nossas próprias emoções. A todo o momento, parece-nos ver sair de uma das casas coloniais, brancas, cor-de-rosa, amarelas-torradas, baixinhas, com as portas entreabertas, alguém com o mesmo amor de Esteban Trueba e Clara del Valle, cuja Casa dos Espíritos não era ali mas bem poderia ser.

Saindo do porto, a opção mais sensata seria alugar um buggy ali mesmo, para facilitar a deslocação. Mas porque não ir a pé pela beira-rio? E de mãos dadas, de preferência. São menos de 15 minutos até se chegar à praça 25 de Maio, onde uma subida ao farol é imperativa. E, já agora, para quem estiver com saudades, uma visita ao Museu Português. Do alto do farol é possível observar as várias fortificações de Colónia, como a muralha e o fosso, a fortaleza, as ruínas do Convento de São Franscisco Xavier ou a Basílica do Santíssimo Sacramento.

Suspiros, gelados artesanais e um beijo

Mas tudo ali parece conduzir a um único lugar: a Calle de los Suspiros. Há muitas lendas em torno deste nome. Uma fala dos últimos passos dos condenados à morte, conduzidos por ali para ver o rio pela última vez e depois serem executados. Outra conta que ali se situavam as casas das prostitutas desta cidade portuária, e que os suspiros eram os dos marinheiros, que tinham de as deixar antes de regressar ao mar. Há ainda quem diga que se ouvem suspiros de amantes de outros tempos, desolados por uma qualquer razão, assobiados pelo vento ao longo da rua, e há ainda uma história mais trágica, de uma donzela assassinada naquela rua, por um admirador ciumento, enquanto esperava o seu namorado. Ainda se ouve, diz-se, o último suspiro da jovem. Em noites de Lua cheia, é claro.

Não encontrámos suspiros, daqueles de comer. Mas um gelado artesanal da El Cali, depois do almoço no restaurante Viejo Barrio sob as folhas de carvalhos, provavelmente deixados pelos portugueses.

Colónia do Sacramento é uma mistura encantadora das cores garridas dos espanhóis e da doce melancolia portuguesa. Encontrámo-la num banco de madeira, em frente ao rio da Prata. Quem lá o pôs estava mesmo a pedir que lá fossem dados muitos abraços, que lá fosse olhado aquele rio que se perde no horizonte. E ou se tem o coração de uma pedra tão dura quanto a da calçada portuguesa, ou então é impossível resistir a pensar, dizer e escrever coisas bonitas, como por exemplo uma Carta para Ti, que parece ter mesmo sido escrita naquele banco de madeira. Não é raro, para quem tem pouco jeito com as palavras, estas surgirem em forma de beijo…

Quem não está (ainda) apaixonado e está em Colónia, El Abrazo tem uma selecção fascinante de artesanato local. A cidade, aliás, parece imune à industrialização: por todo o lado, lojas com objectos de cerâmica, madeira e uma artista sentada à porta da loja, de pés descalços e cabelo solto, a bordar um lenço. Cheio de corações pequeninos, claro.