Nintendo Classic Mini: Nintendo Entertainment System são muitas letras para escrever infância

A casa de Quioto remexeu a algibeira e colocou à venda uma avenida nostálgica para o tempo das avós e dos avôs e dos amigos reunidos à volta do que ainda estava para chegar.

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Os trinta títulos eleitos revelam algum cuidado e respeito pelo legado DR
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Amizades desfeitas e refeitas, fortalecidas à velocidade da luz - o quotidiano de quem cresceu nas décadas de oitenta e noventa a mando daquilo que jogávamos na televisão. Não sabíamos na altura, mas era o que descobriríamos ser o dolce fare niente. Para nós era apenas crescer entre perguntas à avó sobre o que era o lanche ou a desculpa cabisbaixa: “hoje não vai dar para vir para aqui jogar, é dia de limpeza”. O mundo desmoronava-se e era edificado quase todas as tardes.

Havia os estudos, claro, e a sapiência dos pais que os colocavam acima de tudo. Mas havia também férias em que os miúdos formavam tribos com os despojos das prendas de Natal e de aniversário. Uma consola nova era o Santo Graal, a derradeira oferenda ao serviço do grupo. SEGA e Nintendo lutavam por um negócio que estava a dar os primeiros passos, mas ninguém se apercebia disso, apenas da correria pela rua abaixo e pela rua acima porque havia algo novo onde se jogar ou algo novo para jogar.

Os jogos eram raros e não havia a informação em todos os monitores como há hoje. Eram investimentos a longo prazo de quem contava os escudos, de quem às vezes comprava um jogo mau, terrível; de quem percebia nas primeiras horas o arrependimento dos próximos meses. Não interessava: mau, terrível, bom ou excelente, em frente é que era o caminho, mesmo que áspero nas retinas e nos comentários de escárnio que rodavam pelo círculo de amigos como os comandos.

Depois do primeiro passo dado com a prenda paterna que enraizou o Load””, continuei pela SEGA, desaguando na Game Gear e pela Mega Drive, piscando o olho à NES do outro lado da rua. Nunca tive que escolher um lado, uma facção, porque havia um espécimen de cada consola à minha volta. Jogávamos todos nas consolas de todos e éramos felizes. Foram horas transformadas em tardes, semanas, meses e até anos dedicados a este bailado de bits. Lembro-me claramente de vários jogos na NES: desde o incompreensível Baseball ao irritante-divertido Duck Hunt, passando pelo colosso Contra e por uma obra que muitos dizem que começou tudo, um tal de Super Mario Bros.

A Nintendo e a SEGA e o Sir Clive Marles Sinclair estão na minha génese enquanto jogador, fizeram parte de milhões de infâncias pelo mundo fora. Essas infâncias, ou pelo muitas delas, têm agora um PC, uma PlayStation 4, uma Wii U e uma Xbox One: ondas de diversão que agitam um passatempo com fotogramas e framerates, arcos narrativos que fazem sombra sobre algumas séries de televisão e até sobre alguns filmes. Essas infâncias - a minha infância - são usadas como lenha na fogueira da nostalgia, são usadas tantas vezes como chispa para se investir euros em leilões e lojas da especialidade, não para fazer o tempo regredir, mas para reviver essas tardes de pães com marmelada.

É curioso, então, que numa altura em que a Sony lançou a PlayStation 4 Pro, a Microsoft já confirmou uma nova Xbox para 2017 e a Nintendo se prepara para lançar a Switch também em 2017, que esteja aqui a olhar para uma versão compacta de uma das máquinas que me lançou nisto dos videojogos. A Nintendo, além de olhar para o futuro depois de ter lidado com uma Wii U aquém em termos de vendas, colocou no mercado um segundo projecto, um projecto que sinto nas mãos como um pedaço de plástico de auteur. Falo da Nintendo Classic Mini: Nintendo Entertainment System, mas chamemos-lhe simplesmente NES Mini para bem da minha sanidade.

A NES Mini é uma NES Mini e não quer ser mais do que uma depuração da máquina que chegou ao mercado há praticamente trinta anos. São trinta jogos incluídos numa ilha de plástico, pois não é possível descarregar e injectar mais títulos do que aqueles que compram com a consola. É acompanhada de um comando-réplica-fiel-do-original e o toque de modernidade, além do formato condensado, está na saída HDMI e no cabo correspondente dentro da caixa. Ou seja, foi a Nintendo que fez a curadoria do seu próprio catálogo. É uma questão de pegar ou largar.

E tem sido um caso de pegar, uma vez que a consola está e provavelmente continuará esgotada em todo o lado. Depois de passar alguns dias com a raridade cinzenta, há algumas decisões estranhas que saltam logo à primeira vista: o cabo do comando é peculiarmente curto, o que me levou a esticar ao máximo o cabo HDMI entre a consola e a televisão - como se a ideia da Nintendo fosse uma proposta 100% nostálgica, assento em frente da televisão incluído - e pelo preço da admissão temos o cabo HDMI já mencionado, mas não temos carregador. Temos o cabo, sim, mas o pedaço de plástico que encaixa na tomada fica por nossa conta.

Podemos alegar que são decisões à Nintendo, mas a verdade é que poderão causar alguns dissabores na hora de abrir a cápsula pretérita. Outras considerações sobre o desconforto que não considero pontos negativos: o botão Reset está na própria consola, portanto se estiverem a jogar com o comando incluído é provável que tenham que se levantar ou vergar algumas vezes e o próprio comando acaba por ser desconfortável ao fim de algumas horas. Mas não posso considerar isto como nuvens negativas, pois convém não esquecer que não é a primeira vez que faço esta dança: era assim antes, faz parte da nostalgia, faz parte do modelo original, faz todo o sentido que seja assim numa versão que não pretende ser um modelo revisto, mas sim uma miniatura.

Respeito pelo legado

Ainda antes de chegarmos aos jogos propriamente ditos, convém mencionar que é agora possível gravar o progresso desde que tenham partições disponíveis e que a plasticidade gráfica das obras pode ser experimentada em três variantes: o aspecto de uma televisão antiga no modo CRT, 4:3 que apresenta um ligeiro alongar horizontal e, finalmente, com uma resolução original, caso estejam à procura de autenticidade ou à espreita de ver o que os jogadores mais velhos experienciaram há algumas décadas.

Quase se pode afirmar que a curadoria da Nintendo seria um caso de irritar o menor número de fãs possível. É um atestado à qualidade do catálogo da NES, às obras que cada um memorizou naquele ponto das duas vidas. Ainda assim, os trinta títulos eleitos revelam algum cuidado e respeito pelo legado. Obviamente não são apenas jogos produzidos pela própria casa, sendo possível ver obras da Capcom, Konami, Tecmo, Bandai, Taito, e até da Acclaim. Independentemente da vossa experiência, é muito provável que encontrem no catálogo algumas propostas aliciantes.

Jogos como os três Super Mario Bros., The Legend of Zelda I e II, Kirby’s Adventure, e Metroid, são facilmente reconhecíveis como os esteios da Nintendo contemporânea, clássicos que valem a pena ser experimentados pelo menos uma vez na vida, mas há mais, muito mais. A NES Mini é uma das portas para obras como Donkey Kong e Kid Icarus, mais dois títulos que valem a pena ser jogados e pensados, assim como Excitebike, Ice Climber e Punch-Out!!, nomes que certamente já viram repetidos pela Internet fora.

E as obras consagradas - sejam por essa repetição do nome ou pela qualidade excelsa - não se ficam também por ali: Bubble Bobble, Double Dragon II, Gradius e Galaga, StarTropics, Castlevania e Castlevania II: Simon’s Quest, Final Fantasy, Mega Man 2. Tudo isto é um lote que durará muito tempo, especialmente porque muitas destas obras denotam uma curva de aprendizagem pertença do mito e uma dificuldade transversal complicada e desesperadora, tal como atestam Ninja Gaiden e Ghosts 'n Goblins.

Muitos destes jogos podem ser partilhados com um segundo jogador. O segundo comando NES pode ser comprado separadamente, mas a NES Mini é compatível com alguns acessórios Wii, nomeadamente o Comando Clássico e Comando Clássico Pro. Não façam confusão, contudo, são acessórios Wii e não Wii U. Por entre o alinhamento, destaco aquele que ainda não foi mencionado: Super C. Se leram até aqui, certamente terão reparado na minha referência a Contra. Bem, Super C é a continuação, um deleite cooperativo, sendo um dos expoentes nas viagens temporais proporcionadas pela NES Mini.

A lista com todos os videojogos incluídos pode ser consultada no site da Nintendo, mas este lançamento significa mais que a soma das suas partes. Não vamos entrar num saudosismo bacoco, mas aquilo que a NES Mini representa é outra época, dando a possibilidade aos jogadores mais velhos de a reviverem e aos mais novos de ganharem conhecimento sobre o factor histórico do seu passatempo preferido. A Nintendo, mesmo com as falhas já mencionadas, estava destinada a ganhar esta aposta, pois apela instantaneamente a duas falanges enormes de entusiastas.

A cena retro é enorme e de enorme importância. Claro que há outras formas de experimentar estes jogos, contudo, segurar novamente o comando nas mãos, sentir os vértices do plástico cravado contra as suas palmas, olhar e ver novamente aquela luz encarnada, ter à minha frente todas as obras que demoraram longos, longos meses a serem adquiridas há anos, é algo um pouco abaixo do transcendental. Claro que o preço de 59,99€ ajuda, mas mais do que 30 jogos, esse preço é a celebração da indústria, é uma mensagem de amor à arte dos videojogos.

Se ou quando a conseguirem encontrar numa loja e se tiverem oportunidade nos bolsos, não deixem de a comprar, tenham dez, vinte, trinta, quarenta ou cinquenta anos. Liguem aos pais, aos filhos e aos amigos, mostrem-lhe o que é isso dos videojogos. Tal como há décadas, batam-lhe à porta e convidem-nos para uma sessão de jogo, digam-lhe que têm a novidade da Nintendo. E se for dia de limpeza, bem, há tradições que ainda são o que eram.