O roteiro turístico de Alte inclui a casa do poeta Cândido Guerreiro, fechada há anos

Uma placa turística convida a entrar na habitação que nada mais tem para mostrar do que desleixo e abandono. O neto do poeta diz que está disposto a “colaborar” com as entidades oficiais na recuperação do imóvel

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A ribeira vai cheia mas os versos Cândido Guerreiro não representam mais do que “gotas de água” para atrair turistas ao interior algarvio. Todas as ruas da aldeia de Alte parecem desaguar nos sonetos do poeta que fala das “ingénuas lendas” que o povo conta. No caminho para a Fonte fica a casa, nº 17, onde nasceu o autor que já foi alvo de muitas honrarias. A habitação, embora figure nos roteiros turísticos, está em completo abandono há mais de uma década. Uma placa, na rua, convida a entrar, mas a porta está fechada e a casa a cair aos bocados. Neste sábado, no Pólo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte, é apresentada uma fotobiografia do autor, que passou pelo seminário e foi autarca.

Junto à Fonte-Grande, em azulejos cravados em pedras de barrocal, encontram-se poemas que sussurram sons da “voz do mar ou do rochedo mudo”. A natureza inspirou o poeta que viveu o frenesim dos primeiros anos da República. Em Coimbra, onde estudou Direito, deixou registado o poema Ballada no penedo da saudade. O intelectual, de perfil aristocrático - senhor de longas barbas brancas - tem lugar de destaque no salão nobre da Câmara Municipal de Loulé. A investigadora Luísa Fernanda Guerreiro Martins, autora da fotobiografia, editada pela Fundação Manuel Viegas Guerreiro (FMVG), afirma: “Não há dúvida que se trata de um grande poeta, que marcou a vida cultural algarvia no século passado”. A sua obra, na altura, chegou a ser traduzida em francês, italiano e alemão. De resto, Cândido Guerreiro chegou a fazer parte dos autores de leitura obrigatória no ensino liceal, mas caiu no esquecimento.

A casa de Alte, onde o poeta nasceu em 1871, reflecte essa falta de interesse público. “Uma vergonha – autêntica vergonha”, exclama Irene Figueiredo, presidente da Casa do Povo, referindo-se à degradação do edifício. À porta da habitação, uma desbotada tabuleta turística, em português e inglês, informa que no dia 3 de Dezembro de 1971, por ocasião do centenário do nascimento do poeta, foi descerrada uma placa evocativa no pátio da casa. “O pátio é lindo, mas foi vandalizado e assaltado”, adianta a também directora da farmácia situada na rua Cândido Guerreiro.

Esta artéria com o nome do poeta vai ter ao Passeio engenheiro Duarte Pacheco e à Fonte onde se encontram mais versos a invocar a “memória do grande poeta altense”. A rua Luiz de Camões fica próximo, mas muitos outros recantos de pendor poético estão ao virar da esquina. A presidente da junta de freguesia, Sílvia Martins, justifica a toponímica: “Alte sempre foi um terra de gente ligada às artes”.

Sobre as razões que levam ao desleixo pelo património arquitectónico ligado à memória de Cândido Guerreiro, a autarca reconhece: “De facto, é uma tristeza que isso aconteça, mas é propriedade privada, não podemos intervir”. Sobre a hipótese vir a adquirir o imóvel, justifica: “Não temos dinheiro, só poderíamos fazer a manutenção se a câmara comprasse”. Mas João da França Passos Pinto, neto do poeta, diz que nunca lhe perguntaram se queria vender. No entanto, quando há cerca de oito anos, foi inaugurado o pólo museológico, sublinha: “Mostrei todo a boa-vontade em colaborar, oferecendo objectos pessoais do meu avô”.

Por seu lado, Luísa Martins, destaca que a fotobiografia, de 207 páginas, “pretende dar a conhecer a riqueza do espólio” existente no espaço cultural – que funciona como ponto de partida para os itinerários turísticos da aldeia.

Francisco Xavier Cândido Guerreiro ingressou no Seminário Diocesano de Faro aos 18 anos mas três anos depois desistiu da vida eclesiástica. Com 32 anos inicia o curso de Direito, em Coimbra, e é por esta altura, em 1903, que tem contacto com Aristide de Sousa Mendes, o diplomata que salvou os judeus do holocausto da II Guerra Mundial.

A troca de correspondência com Manuel Teixeira Gomes, Manuel d’Arriaga e outras figuras do seu tempo fazem parte da fotobiografia que vai ser apresentada por Luís Guerreiro, presidente da FMVG. O poeta trabalhou como notário em Loulé, mas depressa se deixou seduzir pela vida política. Em 1912 foi presidente da câmara de Loulé e quatro anos depois foi ele quem inaugurou a luz eléctrica na sede do concelho.

“Um republicano moderado”, é como o classifica Luísa Martins, lembrando ainda que o escritor, depois da passagem pela vida política, a partir do década de 20 (séc.XX) fixa-se em Faro, e é aí que regressa às “musas da ria Formosa”. Faleceu a 10 de Abril de 1953, em Lisboa.

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