Fora do Estado não há salvação

Ao longo dos últimos meses, António Domingues esteve mais sozinho na Caixa Geral de Depósitos do que Robinson Crusoe na sua ilha, antes da chegada de Sexta-feira.

Queriam um banco público despartidarizado, não era? Queriam um grupo de gestores competentes, que não concedessem empréstimos a pedido? Queriam a Caixa Geral de Depósitos blindada às más influências dos governos, que foram depauperando a sua imagem e os seus balanços ao longo dos anos? Queriam mais profissionalismo na gestão e menos amiguismo na decisão? Queriam, não queriam? Claro que queriam. Eu também queria. Mas vejam no que isso deu. Um gestor com imensa experiência na banca e nenhuma experiência política acabou triturado sem dó nem piedade. O governo que o nomeou nunca o protegeu. O ministro das Finanças que o convidou nunca o defendeu. O próprio partido que apoia o governo não o queria lá. O Presidente da República tirou-lhe o tapete. O principal partido da oposição não descansou enquanto ele não caiu. E a queda aconteceu com a ajuda decisiva de um dos partidos que sustentam o governo. Ao longo dos últimos meses, António Domingues esteve mais sozinho na Caixa Geral de Depósitos do que Robinson Crusoe na sua ilha, antes da chegada de Sexta-feira.

Domingues já não era um banqueiro. Era um saco de pancada. Dir-me-ão que ele teve culpa no que lhe aconteceu. Com certeza. A sua inabilidade para gerir mediaticamente este processo é assinalável e as justificações para a sua saída variam de dia para dia. Mas acreditem: ele é o menos culpado no meio de tudo isto. Que haja uma sondagem que o aponta como o grande responsável pela actual situação da Caixa (36%), muito à frente do ministro das Finanças (16%) e do primeiro-ministro (15%), apenas demonstra que a habilidade política de António Costa faz milagres. Até ao dia de hoje, nós, contribuintes e eleitores, não sabemos quais foram os termos do acordo entre Domingues e Centeno e o que é que realmente lhe foi prometido. E ninguém se sente obrigado a explicar. O primeiro-ministro, assim que percebeu o que lá vinha, apressou-se a erguer um cordão sanitário à sua volta, composto por monossílabos à saída de eventos e que incluiu – coisa nunca vista – o silêncio absoluto durante todo o debate do orçamento, só para não ter de responder a perguntas sobre a Caixa. António Domingues foi deixado a grelhar na fogueira política e mediática portuguesa, com os responsáveis por atiçar o lume a irem-se revezando. Umas vezes era Carlos César, outras Passos Coelho, outras Marcelo, outras o próprio António Costa.

E a razão porque isto aconteceu é a mesma razão porque António Domingues era uma boa escolha para a Caixa: porque ele não tem amigos na política. Tirando António Lobo Xavier, que o conhece do BPI, e mais dois ou três jornalistas que algum dia terão contactado com ele, Domingues não teve absolutamente ninguém que saísse em sua defesa. O senhor é com certeza muitíssimo competente, mas só com competência ninguém vai longe dentro do Estado português. Um outsider ou se adapta rapidamente aos métodos da casa ou naufraga ao primeiro escolho. Como acabou por acontecer. Domingues achou que a palavra dada contava mais do que a sobrevivência política. Não conta. Fora do Estado não há salvação: é suprema ingenuidade acreditar que um monstro da dimensão da Caixa Geral de Depósitos pode realmente vir a ser despolitizado e gerido com a independência que todos desejávamos. Domingues foi usado e deitado fora. Delineou a recuperação do banco, ajudou a que o plano passasse em Bruxelas, e a partir daí tornou-se descartável. A política não é para amadores.

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