Opinião

Ricardo, coração de poeta

Que da “Toada de Portalegre” de Régio tenha nascido um belo poema sinfónico, isso só pode ser motivo de orgulho

Já muitos ouviram falar do Ricardo, ou já o ouviram cantar. No fado, sim, que ele é de inegável matriz fadista, mas sem medo de outros voos. E sem complexos de Ícaro, pois ele sabe até onde voar sem se lhe queimarem as asas. Pois afirmou Ricardo Ribeiro em 2010, quando se anunciava Porta do Coração, disco que o levou à ribalta: "Como dizia a dona Amália, se pensasse não cantava. E eu, quando é a hora de cantar, fecho os olhos e canto." Mas antes ele pensa, e muito. E se há coisa em que Ricardo pensa é na poesia, essa arte maior das palavras. Largo da Memória, que viria depois, inspirou-se em José Régio. E o seguinte Hoje É Assim, Amanhã Não Sei inspirou-se em Miguel Torga. O Régio era o da "Toada de Portalegre", imenso e dilacerante poema do livro Fado (1941). O Torga era o do "Orfeu Rebelde", do livro homónimo (1958). E ele, nascido anos depois (no lisboeta Bairro da Ajuda, a 19 de Agosto de 1981), veio trazê-los ao mundo do seu fado. Em Régio, viu a memória e a dicotomia entre o bem e o mal. Em Torga, a rebeldia.

E como abre o livro Fado? Com estes versos: "Meus avós, que o mar levou,/ Rasgaram águas sem fim/ Neto de quem sou e de quem n-o sou!/ Se canto, é que o mar que entrou/ Faz ondas dentro de mim." Ricardo não cantara ainda Régio, ou Torga, embora neles se inspirando era como se os cantasse. Cantou e gravou, isso sim, Almada Negreiros, Bernardim Ribeiro, Ary dos Santos, Paul Verlaine, Vinicius de Moraes, Vasco de Lima Couto. E as palavras dos poetas foram engrandecidas no seu canto. Mas Ricardo não quis deixar para trás a "Toada de Portalegre" querendo, com ela, fazer algo mais ambicioso. Não seria um fado, embora viesse do livro a que Régio chamou Fado (no sentido de destino, fatalidade, sina), seria outra coisa. "Um sonho que julgava que não era possível alcançar", disse ele recentemente ao PÚBLICO, quando já quase o alcançara. E foi assim que, durante três noites consecutivas, de 24 a 26 de Novembro, Ricardo Ribeiro apresentou no palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, a "Toada de Portalegre" na íntegra, em forma de poema sinfónico, composto por Rabih Abou-Khalil, o músico libanês que há anos mantém com Ricardo uma estreita ligação no domínio da música. A Orquestra Metropolitana de Lisboa completou o quadro, dando ao poema a intensidade que música e canto lhe imprimiram. E por isso mereceram, todos, os prolongados aplausos que se ouviram no final do espectáculo.

Nos desenhos que Júlio (pintor, irmão de Régio, que também era poeta sob o pseudónimo de Saúl Dias) fez para a primeiro edição de Fado, a "Toada de Portalegre" abre com a imagem de um homem a espreitar por uma janela, vendo uma mulher a rezar junto a uma árvore e uma criança, de costas, de braços abertos para ela e virada para o sol. O poema de Régio é essa visão, a de um homem num refúgio (o aconchego de uma casa "cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória") diante das agruras da terra ("Lá vem o vento soão!,/ Que enche o sono de pavores/ Faz febre, esfarela os ossos,/ Dói nos peitos sufocados,/ E atira aos desesperados/ A corda com que se enforcam/ Na trave de algum desvão...)". Mas é também um canto de esperança, porque o mesmo vento que trazia a dor e a morte trouxe ao jardim do homem, onde nada crescia, uma pequena semente de onde surgiu uma frondosa acácia. "Uma alegria/ Na longa e negra apatia/ Daquela miséria extrema/ Em que eu vivia,/ E vivera,/ Como se fizera um poema,/ Ou se um filho me nascera." Assim termina a "Toada" de Régio. Que Ricardo e Rabih Abou-Khalil tenham feito dela um belo poema sinfónico só pode ser motivo de orgulho. Para Portugal e para a poesia.