Testes de Matemática puseram à prova sucessivos governos. E desta vez correu bem

Num país habituado a fracassar a Matemática, o salto nos resultados dos alunos do 4.º ano é quase um “milagre”, cuja autoria está agora em disputa.

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ADRIANO MIRANDA

Maria de Lurdes Rodrigues (Governo PS) ou Nuno Crato (Governo PSD-CDS)? Na base da progressão dos resultados de Portugal a Matemática, com os alunos do 4.º ano a ultrapassarem os finlandeses, estarão apenas as políticas seguidas por um destes ex-ministros ou por ambos? Os dois lados chamam a si os louros, mas também há quem admita que, independentemente das diferenças, a evolução registada traduz uma aposta comum na disciplina.

Em declarações ao PÚBLICO, o secretário de Estado da Educação, João Costa, admitiu que o progresso dos alunos portugueses reflecte o “investimento na Matemática” que tem sido feito ao longo de todos estes anos, mas ao mesmo tempo considera que a aposta nesta disciplina e no Português conduziu a um “estreitamento curricular” que poderá justificar a descida de 14 pontos registada no teste de Ciências do TIMSS. O TIMSS, que se realiza de quatro em quatro anos, é o grande estudo internacional que avalia a literacia dos alunos de dez anos a Matemática e Ciências.

Para João Costaentre o grande responsável pela progressão de Portugal no TIMSS foi, contudo, o Plano de Acção para a Matemática (PAM) desenvolvido por Maria de Lurdes Rodrigues durante os anos em que foi ministra da Educação (2005-2009) e que teve como foco a formação de professores, sobretudo do 1.º ciclo.

Foi este o exemplo que apontou na sessão pública de apresentação dos resultados, para justificar que a melhoria dos desempenhos se deveu à “eficácia das políticas” que foram seguidas. Já o PSD, pela voz do deputado Amadeu Albergaria, considerou que o mérito deste feito pertence por inteiro ao ex-ministro, Nuno Crato, e à sua "política de rigor e exigência".

O TIMSS iniciou-se em 1995. Portugal participou nas edições de 1995, 2011 e 2015 e foi o país que registou a maior progressão a Matemática nestes 20 anos. Por comparação à edição inicial, o desempenho dos alunos portugueses subiu 90 pontos, mas o salto maior foi dado de 1995 para 2011, com a média a passar de 442 para 532 pontos. 

Concentração nos resultados

Houve “uma mudança de quem ensina”, resume Maria de Lurdes Rodrigues, frisando que o PAM teve como “foco de atenção a qualidade das aprendizagens, disponibilizando meios às escolas para melhorarem”. Questionada pelo PÚBLICO sobre os impactos das medidas adoptadas por Nuno Crato em prol da Matemática, Maria de Lurdes Rodrigues, que considera que os resultados do TIMSS de 2015 são “óptimas notícias”, defende que “são necessários estudos mais pormenorizados sobre os efeitos das políticas” no desempenho dos alunos.

Sublinha, contudo, que a evolução registada se deve a uma “melhoria da qualidade do ensino e a uma maior concentração dos professores nos resultados”, que foi a marca de vários governos. “É preciso focar as nossas prioridades em aspectos que podem fazer a diferença e estes são a melhoria da qualidade das aprendizagens e os resultados dos alunos”, diz, para acrescentar que as medidas já adoptadas pela actual tutela, e as que foram anunciadas, como a redução da extensão dos programas, “vão no mesmo sentido, que é o de dotar as escolas dos meios que necessitam” para alcançar aqueles objectivos.

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Também Nuno Crato considera que a melhoria de desempenho dos alunos foi incentivada por “uma política educativa que colocou uma ênfase crescente nos resultados”. Crato atribui créditos a vários ministros, mas nesta lista não está incluído o nome de Maria de Lurdes Rodrigues (ver entrevista nestas páginas).

Exames e metas

A discussão sobre o que contribuiu para o salto dos alunos portugueses a Matemática divide também a Sociedade Portuguesa de Matemática e a associação de professores da disciplina, o que não é novidade já que geralmente se situam em lados opostos da barricada. Para o presidente da SPM, Jorge Buescu, existe um triângulo que está na base da subida de nove pontos registada entre 2011 e 2015: o novo programa, que entrou em vigor em 2013, as metas curriculares e a introdução de exames no 4.º ano, que entretanto foram eliminados pelo ministro Tiago Brandão Rodrigues. “Com esta decisão deixámos de ter um meio de diagnóstico”, lamenta.

A presidente da Associação de Professores de Matemática, Lurdes Figueiral, apesar de se congratular com os resultados alcançados, sublinha que os resultados do TIMSS também suscitam preocupações: "Tememos que esta pequena subida da Matemática possa ter a ver com um grande desequilíbrio que se introduziu no 1.º ciclo, com a valorização desta disciplina e do Português que levou a que as outras áreas passassem para um segundo plano, o que poderá explicar a descida registada a Ciências”.

A Ciências, Portugal continua acima da média internacional que no TIMSS é de 500 pontos, mas desceu nesta disciplina da 19ª posição para a 32.ª. A Matemática, a subida de nove pontos valeu aos alunos portugueses uma escalada de dois lugares neste ranking, onde ocupam agora a 13.ª posição entre 49 países.

Para Maria de Lurdes Figueiral, a preparação dos professores no âmbito do PAM não só esteve na origem do salto registado em 2011, como é “um dos factores determinantes para que o progresso a Matemática se mantenha”. “A formação dos professores é fundamental”, admitiu também Buescu.