“Quanto melhor estiver a Europa, melhor estarão Portugal e Espanha”, diz Felipe VI

Discurso do rei perante os deputados enalteceu as relações entre os dois países, mas também a pertença de ambos à Europa, à NATO e à comunidade Ibero-América.

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Felipe VI foi recebido na Assembleia da República por Ferro Rodrigues AFP/PATRICIA DE MELO MOREIRA
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Reis de Espanha foram recebidos na câmara de Lisboa por Fernando Medina Nuno Ferreira Santos
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Reis de Espanha foram recebidos na câmara de Lisboa por Fernando Medina Nuno Ferreira Santos

O rei Felipe VI deixou no Parlamento um discurso com um pendor muito europeu e destacou a multiplicidade de relações entre os dois países. O monarca espanhol foi muito claro: “Quanto melhor estiver a Europa, melhor estarão Portugal e Espanha. Quanto melhor estiverem Espanha e Portugal, melhor caminhará a Europa.”

E quando falou das intensas relações entre os dois países, lembrou que nos últimos anos ambos “sofreram uma crise económica que afectou gravemente os nossos cidadãos” e defendeu que “a melhor forma de consolidar a recuperação, a criação de emprego e a sustentabilidade do modelo social” que partilham é “aprofundar as relações económicas bilaterais”.

Sob o olhar de Letizia, que assistiu à cerimónia na tribuna de honra do lado direito do plenário, o monarca começou e terminou o seu discurso perante os deputados portugueses e poucas centenas de convidados falando pausadamente em português mas com um forte sotaque castelhano. Disse mesmo, em português, vir com o “coração aberto” para se encontrar com os “representantes do povo português” e no final disse que “como rei de Espanha” o seu “coração está com Portugal”. Talvez sem se lembrar da coincidência de os portugueses terem conseguido a independência da dinastia castelhana da Casa de Habsburgo – Felipe IV de Espanha, III de Portugal – faz amanhã 376 anos.

No âmbito europeu, Felipe VI disse que “a primeira aspiração, como espanhóis e portugueses, é a de continuar a ser – e a construir – vigorosamente a Europa”. Porque ela é “o nosso berço e o nosso destino comum”, vincou, lembrando que Portugal e Espanha aderiram à então Comunidade Económica Europeia no mesmo momento, em 1986. E foi essa entrada no projecto europeu que “pôs em marcha um dos motores que mais promoveram” o “progresso económico e desenvolvimento social” dos dois países.

Ibéria unida

Sem se referir ao tema das sanções europeias, ameaça sob a qual também esteve Espanha, o monarca salientou, no entanto, que Portugal e Espanha “mantêm contactos permanentes para defender posições e interesses frequentemente convergentes relativamente ao cumprimento de numerosas políticas comunitárias”. Uma espécie de união ibérica em que “concertação e fraternidade ibéricas” servem para se “apoiarem solidariamente em momentos de dificuldade”.

Depois de se referir à NATO e falar novamente, como já fizera no Porto, da eleição de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas – que Felipe disse que Espanha comemorou “com olhos de criança e portuguesa a alma”, expressão que o dramaturgo espanhol Lope de Veja colocou na boca de uma personagem sua –, o monarca mencionou a criação da Conferência Ibero-Americana, que reflecte a “dimensão americana” dos dois países.

No âmbito das inúmeras relações bilaterais “sólidas e incomparáveis”, destacou as da segurança e da defesa (em especial contra o “terrorismo, a delinquência e a imigração irregular”), da economia (são primeiros parceiros um do outro), da energia, do mar, da cultura (com o relacionamento dos institutos Camões e Cervantes, por exemplo).

Os navegadores

No início da sua intervenção, expressou o seu “amor pela língua portuguesa e interesse fraterno pela sorte de Portugal”, que herdou de Juan Carlos, assim como a “gratidão à hospitalidade dos portugueses e a admiração pela tradição marítima portuguesa e pelos seus grandes navegadores”, que lhe advém do avô, o Conde de Barcelona.

Felipe VI defendeu que os dois países devem “olhar com legítimo orgulho para as quatro últimas décadas de vida democrática e em concórdia” e “valorizar os nossos pontos fortes partilhados neste mundo global”. Uma partilha lembrada pelo monarca citando o exemplo do português Fernão de Magalhães e do espanhol Juan Sebástian de Elcano, que há quase 500 anos iniciaram a volta ao mundo.

“Ambos abriram novos horizontes e reafirmaram a nossa confiança comum na capacidade do ser humano para superar obstáculos, só aparentemente intransponíveis”, descreveu.

Ao contrário dos deputados do Podemos, no Parlamento espanhol, os deputados do Bloco de Esquerda levantaram-se quando o monarca entrou na sala do plenário, liderando o cortejo, ao lado do presidente da Assembleia da República, e se dirigiu à tribuna. No final dos discursos de Ferro Rodrigues e de Felipe VI todo o plenário se levantou excepto os deputados do Bloco e o do PAN. O BE emitiu depois uma explicação. Os parlamentares do PCP e o PEV levantaram-se mas não acompanharam a longa salva de palmas com que socialistas, sociais-democratas e centristas brindaram o monarca.

Todo o plenário ouviu de pé as duas vezes em que foram tocados os hinos de Espanha e de Portugal pela banda GNR formada nos Passos Perdidos, mas foram muito poucos os deputados bloquistas que trautearam o hino nacional.

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