Opinião

Fidel Castro não é de cartão

Há quem sustente, com cinismo ou com desonestidade, que os discursos generosos contêm em si mesmo o germe da catástrofe.

Dizer de Fidel Castro, após a sua morte, em artigos de jornal que pretendem (e deveriam) ser de balanço, de avaliação ou de análise da sua vida, que era um ditador e ficar-se por aí é quase a mesma coisa que fazer uma entrada de enciclopédia sobre Einstein dizendo que era um tipo de cabeleira branca e ficar-se por aí.

As verdadeiras figuras históricas, as que merecem um lugar na história não porque nela participaram mas porque influenciaram pela sua acção e pensamento o curso dos acontecimentos durante a sua vida e além dela, raramente são bidimensionais (se é que o são alguma vez) por muito que isso custe aos seus seguidores e detractores mais fanáticos. Para falar de Fidel ter-se-á de dizer pelo menos que foi uma figura de referência no pensamento e na acção política à esquerda e que o exemplo de Cuba (o corajoso combate contra a ditadura de Fulgêncio Baptista, a denúncia e o combate ao imperialismo dos Estados Unidos e aos seus métodos criminosos, a reforma agrária, o combate contra o analfabetismo e a desigualdade, a construção a partir do nada de sistemas de saúde e de educação modernos e universais, a tentativa frustrada de desenvolver um modelo de socialismo autónomo da URSS, o apoio generoso ao combate internacionalista contra os colonialismos) estimulou um importante debate na esquerda e grandes esperanças, alimentadas por um ideal romântico de justiça e generosidade que, ainda hoje, tem como figura maior um companheiro de Fidel, Che Guevara.

Se é verdade que o regime ditatorial para o qual Fidel viria a orientar o país veio destruir as esperanças de muitos de que fosse possível um processo de construção de uma sociedade sem classes respeitador das liberdades individuais, seria desonesto esquecer hoje todas as razões por que a esmagadora maioria dos cubanos choram o seu Comandante. A herança de Fidel é por isso mista e contraditória, como acontece quase sempre.

Este discurso é ele próprio contraditório? É. Como se pode falar de esperança, de ideais de liberdade e de combate pela justiça a propósito de uma sociedade onde há liberdades básicas que não são reconhecidas? Pode-se porque as coisas não são simples nem puras e porque não há nenhuma lei da Natureza que dite que tem de haver coerência entre os objectivos que se traçam e os caminhos que se percorrem. Existem na história política milhares de exemplos de práticas perversas e criminosas sustentadas em discursos libertários ou igualitários. Há quem sustente, às vezes com cinismo outras vezes apenas com desonestidade, que isso significa que esses discursos generosos contêm em si mesmos o germe da catástrofe e devem ser condenados, quando não proibidos, e os seus defensores amordaçados ou fuzilados, e que se deve deixar, apenas, a natureza e sociedade seguir o seu curso sem interferências de maior. Outros consideram que o sonho de uma sociedade melhor e mais justa não deve ser abandonado apenas porque ainda não encontrámos o melhor caminho para lá chegar. Cuba continua a ser, por isso, o símbolo de um combate generoso nunca terminado e Fidel merece o respeito de quem um dia sonhou e permitiu que outros sonhassem aquele sonho generoso, e de quem apostou a sua vida nesse sonho, ainda que em algum momento se tenha perdido pelo caminho. Ainda que não houvesse qualquer mérito próprio, também haveria grandeza na tragédia desse extravio, que o próprio Fidel terá sentido e que o Che certamente adivinhou.

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