Crítica

Efervescência lusa

Uma nova geração abre as portas do jazz a múltiplas direcções: Eduardo Cardinho Quinteto, Pedro Neves Trio, Miguel Ângelo Quarteto.

Pedro Neves pincela os temas com exuberância
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Pedro Neves pincela os temas com exuberância

A associação Porta-Jazz tem vindo a desenvolver um trabalho exemplar a promover músicos de jazz nacionais, particularmente do Porto, organizando concertos, construindo um sentido de comunidade. Um trabalho que tem particular visibilidade na edição de discos, entre eles alguns dos que têm marcado de forma decisiva o panorama nacional – exemplos recentes foram os discos Zero de João Guimarães, Impermanence de Susana Santos Silva ou os álbuns do Coreto Porta-Jazz. Este ano foram várias as edições da editora portuense a reflectir a qualidade instrumental dos nossos músicos, bem como a sua ampla diversidade de ideias, confirmando uma variedade de direcções e um período de efervescência para o jazz feito em Portugal.

Eduardo Cardinho é um jovem vibrafonista e, ao leme deste quarteto, venceu o Prémio Jovens Músicos 2013. Black Hole assinala a estreia discográfica do grupo, que revela um jazz maduro, clássico, trabalhado com elegância e sobriedade. Desde logo destaca-se o vibrafone de Cardinho, bem apoiado por José Soares (saxofone alto) e Mané Fernandes (guitarra eléctrica), ambos solistas em bom plano; ao fundo, a secção rítmica segura de Filipe Louro (contrabaixo) e Pedro Almiro (bateria). O quinteto trabalha composições originais, sólidas, de matriz clássica, exibindo uma dinâmica colectiva que é, no entanto, pouco ousada. Esperamos agora que estes músicos, com óptimos argumentos técnicos arrisquem mais no seu próximo voo, com mais personalidade.

Assente no mesmo formato, o trio clássico de piano, o álbum 05:21 é assinado por Pedro Neves, autor de todas as composições, auxiliado aqui por Miguel Ângelo no contrabaixo e Leandro Leonet na bateria. Estreado em 2013 com o disco Ausente, o trio trabalha neste registo uma música mais directa e aberta. Se o piano se exibe em óptimo nível, o contrabaixista rouba o holofote logo ao primeiro tema, com um solo marcante. Neves pincela os temas com exuberância, bem acompanhado pelos parceiros de trio, num permanente jogo de alta intensidade dinâmica. A qualidade da composição é ampliada pela fulgurante interpretação do trio, resultando num disco muito acima da média.

Se no anterior disco Miguel Ângelo intervinha no papel de sideman, já no disco A Vida de X o contrabaixista participa na qualidade de líder. Ângelo lidera aqui um quarteto com o saxofonista João Guimarães, o pianista Joaquim Rodrigues e o baterista Marcos Cavaleiro. Como é característico de quase todas as edições Porta-Jazz, também aqui todos os temas são originais e Miguel Ângelo assina dez temas com personalidade bem definida. O quarteto trabalha uma música focada, colectiva e individualmente, com o destaque a incidir naturalmente sobre saxofone de Guimarães, que ziguezagueia com graça, e sobre o piano, que contribui com precisão. Neste seu segundo álbum como líder, o contrabaixista segue as linhas que já tinha exposto no disco de estreia, Branco - uma música franca, directa e intensa.

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